terça-feira, 31 de março de 2026

A Casa Interior

A Casa de Deus, do Tarot
de Marselha (1499/1859).

A casa é a mais perfeita representação da estrutura psíquica. Seus cômodos são análogos aos setores da consciência e suas funções. Todos nós possuímos uma parte espiritual/filosófica, político/ideológica, sexual, sociável, cultural/intelectual, artístico/criativo, científica e assim por diante. O que muda de pessoa para pessoa são os tamanhos destes cômodos psíquicos e a intensidade com que nos envolvemos com eles. Para alguns os setores espiritual/filosófico são muito importantes e evocativos para a alma. Para outros os temas político/ideológico ocupam este lugar de importância. Entretanto, todos os demais setores, ou cômodos da psique por assim dizer, continuam existindo, porém com menor intensidade ou importância. A casa enquanto elemento arquetípico, como aparece na carta 4 do baralho Lenormand, traz segurança, estabilidade emocional, pertencimento, e equilíbrio. O envolvimento e o desenvolvimento de setores específicos da psique movimentam a vida tanto do indivíduo quanto de todos aqueles que cruzam seu caminho. Esses setores trazem para a consciência as qualidades antes citadas de estabilidade, segurança, pertencimento... A casa interior é vitalizada e harmonizada quando sabemos, internamente, o lugar de cada coisa e suas respectivas importâncias. No tarot aparece o arcano de número 16, La Maison Dieu, ou A Casa de Deus como aparece nos baralhos franceses, e que depois se popularizou com o nome de A Torre. Era uma referência, na Idade Média, aos hospitais e presídios, lugares onde a casa interior foi desrespeitada ou deturpada. Brincando com os números é interessante notar que no Lenormand a carta 4 mostra a casa interna em plena funcionabilidade, e no tarot o arcano 16 (4 x 4) mostra suas funções sendo extrapoladas ou pervertidas. Existe entre os arcanos menores do tarot uma outra carta que mostra a casa interior perfeitamente íntegra e funcional, e este arcano é o 10 de copas.

A Casa de Deus do Tarot Cabalístico,
de Oswald Wirth (1889).

Dito isto vem à mente a pergunta: o que seria a perversão ou extrapolação das funções da casa interna? Para responder isso temos de voltar ao simbolismo da casa em si. Imaginemos uma construção com dois pisos, em geral os cômodos superiores são onde se encontram os quartos de dormir, as bibliotecas particulares, e o sótão onde se guardam as coisas que se aprecia, onde se observam as paisagens ou vistas que nos agradam. Os cômodos inferiores é onde se localizam as peças em que usamos para as lidas da vida cotidiana, a cozinha onde preparamos os alimentos, a sala onde recebemos os amigos e convidados, a copa onde comemos todos juntos. Enfim, os temas comuns, sociais e básicos estão na parte inferior da casa e os íntimos e mais “elevados” na sua porção superior.  Se nunca descemos à sala de estar, ou de visitas como dizem alguns, porque preferimos viver no sótão com nossos livros, janelas para luares ou copas de árvores à luz do sol, isso indica uma incapacidade interior de se relacionar com os outros, mas não significa uma não atuação ou contribuição para a vida. O exemplo de Arthur Schopenhauer (1788/1860) mostra bem isso, viveu uma vida solitária até o fim, sem praticamente nenhuma socialização, e ainda assim seu trabalho foi de grande influência e impacto sobre o mudo moderno. Ele dizia que a solidão era a mais elevada condição para o desenvolvimento intelectual. Isso, com certeza, deve ter tido um grande custo emocional.

A Casa, numa das muitas versões
do baralho Lenormand (1840).

Outro bom exemplo que o simbolismo da casa nos traz é o de que no local onde defecamos não é onde fazemos nossas refeições, ou o local onde dormimos não é onde recebemos nossas visitas, e assim por diante. Quando algo assim ocorre é sinal de que alguma coisa está indo muito mal! Da mesma forma há um delicado equilíbrio entre aproximar áreas distintas da psique relacionando-as, e misturá-las sem respeitar suas diferenças e funções. Quando como, por exemplo, envolvemos assuntos político/ideológicos na senda da espiritualidade, ou quando sexualizamos todas as nossas relações sociais. Isso é sinal de que valores foram mal desenvolvidos, ignorados ou pervertidos. E esse comportamento cria uma desordem em nós mesmos e naqueles com quem nos relacionamos! Então, como bem nos mostra o arcano de A Torre, a casa de Deus explode. Essa casa somos nós, o lugar onde a divindade interna habita, e merece toda nossa atenção, cuidado e reverência.

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