quarta-feira, 29 de maio de 2024

Desvendando a Carta Significadora no Tarot

A Carta Significadora, ou Carta Testemunha, é um representante simbólico do consulente na mesa, e um guia para o leitor. Esta carta é escolhida dentre as cartas da realeza dos arcanos menores, e é complementada ao sistema de leitura selecionado. Se utilizar o sistema da Cruz Celta, ela deverá ser adicionada às dez cartas escolhidas pelo consulente. Assim é possível saber sobre os traços de personalidade mais em evidência no momento de quem vem buscar a orientação dos arcanos. Para aquele que indaga o oráculo essa é uma oportunidade de autoconhecimento, de ver a si mesmo sob outra perspectiva, em manifestações muitas vezes inconscientes dentro das circunstâncias que o envolvem, e o desafiam de algum modo. Um cliente representado pelo Rei de paus, por exemplo, pode estar num estado de espírito positivo, progressista e diligente. Uma mulher representada pela Rainha de copas pode estar denotando um momento de mais sintonia com os seus sentimentos, e a busca por um alinhamento interior, de bem-estar e conexão íntima com o que está se vivendo, mais do que de valorização de aspectos extrínsecos como a busca por vantagens materiais ou estratégicas. A questão seguinte é: como se faz a escolha da Carta Significadora? Os métodos tradicionais separavam os reis para os homens e a as rainhas para as mulheres. Essa escola era muito focada, em princípio, na descrição da aparência física do consulente. Uma forma de atrair, através da imagem, a força e a presença do cliente para a leitura em si. Isso fica bem claro em obras clássicas como O Tarot Adivinhatório (1909), de Papus, onde as características físicas como cor do cabelo e provável posição social que ocupa reis e rainhas é escrita em cada carta. Com o tempo a descrição dos aspectos psicológicos passou a ter preponderância, justamente por permitir vislumbrar as motivações e possíveis expectativas que cada pessoa traz para a sessão de leitura de tarot.

O modo de se fazer esta escolha também passou por uma evolução. Se anteriormente as figuras dos reis eram naturalmente escolhidas para representar homens e as rainhas as mulheres, hoje isso se amplificou! Neste sentido uma das visões que mais aprecio é a de Gail Fairfield em seu livro Choice Centered Tarot (1982) que sustenta que qualquer uma das dezesseis cartas da corte pode representar pessoas de ambos os sexos. Isso faz muito mais sentido dentro de tudo que sabemos sobre psicologia humana. Um homem pode ter dentro de si uma atuação mais marcante da sua porção feminina (a anima, como definiu Jung) e assim expressar o arcano de uma rainha, da mesma forma uma mulher pode estar mais intensamente envolvida com a porção masculina da sua psique (o animus) e assim expressar as qualidades dos reis do tarot. Ambos por sua vez podem ativar o arquétipo do guerreiro dentro de si, e um cavaleiro se apresentar como a carta significadora neste caso. Da mesma forma a criança interior de homens e mulheres pode se evidenciar num momento de muita criatividade, necessidade de atuação, aventura, leveza ou imaginação, e um valete (ou pajem) ser um melhor representante na leitura. Lembrando que quem decide isso é a sincronicidade! As cartas da corte devem estar previamente separadas, em seguida embaralhadas e abertas em leque para que o consulente escolha uma. Esta carta é o espelho do momento de quem vem consultar as cartas, pode se falar sobre ela. Se preferir, pode indagar ao próprio consulente, depois de explanar seu simbolismo, sobre como ele mesmo sente o arcano, impressões e sentimentos que sua imagem evoca em si.

O Rei de paus do Tarot Adivinhatório, de Papus:
"Chefe masculino; Homem de vontade e
empreendimento; Homem castanho".

Existem outras possibilidades de escolha da Carta Significadora. Um método astrológico é utilizado por alguns tarólogos. Sua aplicação mais simples é a de combinar o signo solar de uma pessoa ao seu ascendente. Assim sendo um indivíduo do signo de Áries com ascendente em Peixes teria como arquétipo um Cavaleiro de copas. Essa escolha segue a relação entre os elementos que compõem cada um dos arcanos da realeza, segundo a regência astrológica estabelecida na Ordem Hermética da Aurora Dourada, a Golden Dawn. Já tratei aqui dessa tabela nos meus textos sobre os arcanos menores. Existem variações ainda mais complexas sobre este método astrológico de escolha desta carta na mesa. Para mim todos eles são inválidos e totalmente fora da própria natureza da tarologia! O tarot é um instrumento de avaliação do momento, e de possíveis influências do passado, tanto quanto de sondagem de prognósticos futuros. Seres humanos apresentam diferentes reações a eventos similares entre si. A mesma pessoa pode ter comportamentos diferentes dentro de situações semelhantes em momentos diferentes, porque é da natureza humana amadurecermos e aprendermos com nossas experiências, ainda mais quando compreendemos que elas representam um desafio ao nosso crescimento pessoal em algum momento. Sendo assim, não vejo sentido nenhum em a mesma carta sempre representar a mesma pessoa em situações diversas. Isso é estanque demais! O tarot é um reflexo dinâmico de uma personalidade em movimento e evolução, essa é a a sua essência. A astrologia é um estudo da proposta do Ser, o tarot do Estar, como definiu muito bem Nei Naiff em se livro Tarot, Ocultismo e Modernidade (2006). Além do que é muito estranho o consulente não participar dessa seleção, afinal o objetivo da Carta Significadora é desvendar o que ele traz, consciente ou inconscientemente, para as demandas do seu momento e de que modo isso interfere, ou não, nos eventos.

Eu já me utilizei do recurso da Carta Significadora nas minhas leituras, e com o tempo a deixei. Senti ao longo da minha jornada com os arcanos que deveria experienciar todas as suas possibilidades. Não senti necessidade de seguir com este recurso, porém há quem o utilize como uma prática usual em suas leituras. Trata-se não só de técnica e estilo, mas também de percepção pessoal e intuitiva de que informações são necessárias para aquilo que se entende como uma leitura bem-feita, com profundidade e consistência. Faça a sua experiência!


terça-feira, 26 de março de 2024

Cartas Aleatórias nas Leituras de Tarot

Quais são os limites de uma leitura de tarot? Todas as cartas que caem na mesa servem à leitura em curso? Como não acredito em generalizações, no que tange ao trabalho com linguagens simbólicas, eu diria que isso varia de leitor para leitor e de cada momento. Muitas vezes as cartas que caem não significam necessariamente uma mensagem para quem se consulta. Há outras vezes, porém, que isso funciona magicamente. Certa vez conversando com uma cliente que estava com muitos pensamentos sobre o porvir, e com seus planos de morar nas praias ensolaradas do Nordeste, e já nos trâmites finais da sua sessão, eu me preparo para tirar a carta de mensagem final para aquele momento. Isso é algo que já faço há muitos anos, a carta final é uma síntese sobre as melhores direções a serem seguidas pelo cliente a partir daquele ponto. Enquanto faço o embaralhamento das cartas uma delas salta, literalmente, do maço e vai ao chão. Abaixo-me para colher o arcano, e quando viro a imagem para cima vejo que se trata de A Estrela, arauto da esperança, dos sonhos com o amanhã, e da ampliação da visão e das perspectivas da vida. Rio, e comento com a cliente que era muito interessante aquele arcano ter se pronunciado naquele momento. Enquanto converso, já tenho a carta de volta ao maço, recomeçando a embaralhar, e fazendo isso digo à moça a minha frente que aquela bem que podia ser sua mensagem final, pois combinava muito bem com tudo o que havia sido dito até então. Quando disponho as cartas viradas para baixo em leque, e peço para que retire uma, adivinhe quem veio? Pois é, ela mesmo: A Estrela! Rimos da “bruxaria” contida naquele sincronismo. O arcano se pronunciou como quem dissesse “Hei, eu já estou aqui” e confirmasse com isso os desejos dela para o futuro.

A Roda da Fortuna, do
Ancient Italian tarot.

Em outra ocasião estou lendo as cartas para outra moça que estava preocupada com o andamento do seu relacionamento com o namorado, e pede para marcar a relação dela com a sogra, com quem tinha problemas de entrosamento. Alguém que ela considerava uma pessoa de difícil trato. Enquanto misturo as cartas, e me concentro na sua pergunta, uma delas salta ao chão. Saio da mesa, pois que saltou com certa distância, e quando a recolho vejo que se trata do arcano de A Roda da Fortuna. Senti naquele momento que sua mensagem era sobre uma virada de 180º no comportamento da sogra, e disse isso à minha cliente: Ela já não é mais assim, mudou muito. Era uma consulta on-line, via WhatsApp, e eu tinha saído do campo de visão dela, mas a ouvi dizer sorrindo “Sim, ela mudou muito! Estou perguntando justamente para saber se ela continuará assim”. Então resta saber se tudo o que acontece numa sessão de leitura de tarot faz mesmo parte da leitura. Acredito que uma consulta oracular é uma das coisas mais mágicas que a ancestralidade nos legou, e acredito, pela minha própria experiência, de que isso pode acontecer sim. Só não creio que seja uma regra, embora reconheça que se trata, mais uma vez, de um reflexo da minha própria experimentação com o caminho oracular, e do meu entrosamento com as linguagens simbólicas. Sinto que isso muda significativamente de pessoa para pessoa que vem para o atendimento. 

O leitor deve sentir isso dentro da sua sensibilidade, sem tentar fazer disso um atrativo dramático para suas leituras, embora seja de fato impressionante quando acontece. Creio que esse fenômeno se deve única e exclusivamente à sincronicidade, não trabalho com a invocação de entidades e muito menos com elementais. O sincronismo é algo que nos conecta a uma fonte muito maior que tudo isso, e nos torna verdadeiramente UM. O trabalho com oráculos, e em especial com o tarot, não tem como se tornar fastidioso justamente pela diversidade que cada pessoa traz em si e reporta à sessão através dos arquétipos que a representam. Cabe ao leitor perceber a sutileza de cada pessoa, e como ela se evidencia durante uma sessão de leitura. O mais importante disso tudo é ainda desvendar o propósito possível para este evento sincronístico. E, mais uma vez, atribuo seu significado ao propósito que cada intérprete dá ao seu trabalho. Para mim as cartas saltantes, como as chamo, são uma manifestação de uma parte da consciência que parece ressaltar uma mensagem, fortalecer uma perspectiva ou salientar uma possibilidade de reintegração interior que poderá orientar a um tratamento terapêutico que conduza a essa reintegração. O misterioso salto “acidental” de certos arcanos é tão misterioso para mim hoje quanto foi da primeira vez em que aconteceu, mas respeito aqueles que nunca foram acometidos por interesse ou revelações nesses incidentes arquetípicos. O tarot fala de formas diferentes com cada pessoa, e isso é igualmente fascinante! Costumo dizer aos clientes que as leituras de tarot são um acesso à porção mais sábia e elevada de si mesmos, seja lá qual for o nome que se dê a ela. Poder ser Eu Superior, EU Maior, Self, o subconsciente etc. Seja como for não a contatamos de modo direto e consciente, e precisamos dos símbolos para fazer esse intercâmbio. Essa comunicação tem como único propósito a harmonização do todo: corpo, mente, sentimento, plano vibracional e espiritual, que uma vez atingido impulsiona o indivíduo para outro patamar do seu próprio processo evolutivo... Se ele fizer um bom proveito do impulso interior que lhe é dado através das revelações do tarot, é claro! 


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Tarologia & Misticismo

Vivemos no tempo da razão. Ο pensamento cientifico criou a solução para muitos dos dilemas da sobrevivência na Terra, aplacou doenças, controlou pragas, organizou a vida! Como toda a demanda dominante criou também as suas chagas. Ficamos cativos de um sistema muito rígido de pensamento, "sem a autoridade" de afirmar nada pela simples experiência pessoal. As coisas passaram a ter de ser medidas e testadas antes de serem consideradas confiáveis. Bem, isto é conhecimento, mas não é de forma alguma sabedoria. Nada pode ser descartado por esse método, ele em si é muito restrito! Na teoria o pensamento cientifico abriga o beneficio da dúvida para tudo o que não pode ser explicado por seus métodos. Na prática, entretanto, o que está ocorrendo é a estruturação de certezas estreitas e muito rígidas que nos fazem olhar o infinito pelo buraco de uma agulha.

As imagens do Tarot e seu potencial de possibilitar
acesso a planos superiores de consciência.

Eis que temos aqui a base da diferença entre o místico e o cientifico. O cientista, entronado pelo poder que a época atual o investiu, tornou-se um déspota, mas é na verdade um covarde, não consegue admitir nada superior a ele mesmo simplesmente porque não consegue lidar com isso, não é controlável!
O místico não quer controlar nada, ele quer interagir com o incognoscível, Inspirar-se com ele, ouvindo sua linguagem não verbal e não linear. Como a mente cartesiana domina o cenário atual o místico foi rebaixado a categoria de "mistificador" para classificar uma pessa que crê em fantasias. A essência do misticismo não engloba a crença, que é puramente cultural e, portanto racionalizada, mas sim a confiança, e não numa fantasia, mas numa verdade não palpável, nem mensurável. Exatamente como o faz a física teórica! Essa porém, tem na base de sua existência equações matemáticas contra as quais os leigos nada podem fazer a não ser baixar a cabeça.
Não levantaremos aqui o rascunho de um tratado de uma guerra filosófica, o mundo já tem motivos de sobra para criar guerras, não precisamos criar mais um. Temos sim que trabalhar o respeito às diferenças e aproximar as semelhanças, pois eles existem sim.
Santa Agostinho definiu que misticismo é a conhecimento de Deus pela própria experiência. É disso que se trata todo o caminho que nos une a esse algo extremamente elevado e estranhamente interior. Essa sábia voz que emana de dentro de nós e que confunde os desavisados que se apressam em dizer: "Somos todos Deus!". Isso é só uma parte da verdade, a outra parte é que Deus está em todo lugar o tempo todo, transpirando através das coisas e do universo. Também através dos símbolos, que têm sua origem, apenas em parte no homem, e outra parte no infinito, ao qual as culturas xamânicas deram o nome de grande mistério. Ao acessarmos o mundo simbólico estamos em contato com esse mistério e o tornamos acessível a outros.

O tarot, um sistema simbólico com inúmeras
correspondências mágicas e arquetípicas!
Para a maioria dos buscadores esse contato se dá de modo pessoal, e restringe a sua influencia a si mesmo e aos que o procuram e ouvem. Geralmente esse despertar se dará através de sua própria experiência, o que legitima o inicio da vivência mística. Uns o farão através da astrologia, outros através da numerologia, cabala... e outros, como eu, através dos arcanos de tarot. Os caminhos são muitos!
Quem já teve uma experiência profunda com o simbolismo do tarot conhece a maravilhosa sensação de estar imerso numa consciência maior que nós mesmos, e muito mais potente que nossa própria inteligência. As coisas passam a ser ditas de um modo fluído e, por mais que pareçam estranhas para nós, acabam por fazer um total sentido, e mais espantosamente ainda para pessoas desconhecidas por nós que nos procuram para as leituras. Seja lá como for sempre obtemos uma abertura de consciência maior, algo que nos pode fazer meditar sobre coisas que antes nos passavam despercebidas, ou que se nos ampliam as dimensões da vida como a conhecemos. Como um mergulho na alma, um toque tênue no semblante de Deus.
Para aqueles que acham que existe nisso algum poder especial vale dizer que não há nenhum poder individual que emane, pelo contrário, há um poder total que é compartilhado. Não é um vaticínio, é uma benção. A função de todos os místicos é conduzir os novos buscadores, que todos os anos engrossam a estrada desse caminho, a olharem sincera e amorosamente para si mesmos e mergulhar com confiança nas águas daquela voz que aguarda ser ouvida desde o início dos tempos, e que nos une a fonte inefável da vida!

*Texto de 21 de janeiro de 2008.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Plutão Entra em Aquário

Se você nasceu entre 1975 e 1981, parabéns! Chegou neste mundo num dos melhores e mais influentes períodos astrológicos no que tange a expansão e a transformação da consciência. Urano (planeta da renovação) encontrou Escorpião (o signo da transformação). A energia renovadora de Urano impulsionou a transformação proposta por Escorpião e a humanidade viu as fronteiras do pensamento se expandirem! Entre outras coisas a paranormalidade começa a ser estudada a sério neste período, principalmente pelas potências geopolíticas da época, Estados Unidos e Rússia, nem sempre com fins pacíficos é verdade, mas ainda assim abriu o campo deste estudo a nível acadêmico. Também veio ao conhecimento público os curadores metafísicos que mantinham a vida do debilitado estadista soviético Leonid Brejnev (1906/1982). E ainda em 1980 Ronald Reagan (1911/2004) ganha as eleições para a presidência dos Estados Unidos e, assumidamente, consultava astrólogos para as decisões oficiais, desde o tempo em foi governador da Califórnia. Entre seus consultores estava o afamado astrólogo Carroll Righter... Ou seja, nem só de guerra fria viveu este trânsito astrológico! Os nativos que nasceram neste período trazem em si este desejo de expansão da consciência para além dos parâmetros usuais, tanto em suas vidas quanto nos serviços que prestam ao mundo.

Agora, em 20 de janeiro deste ano as coisas se inverteram, e o planeta da transformação (Plutão) estará passando por um período de vinte anos pelo signo da renovação (Aquário). Se lá atrás Urano renovou e popularizou os temas escorpianos como ocultismo, paranormalidade, e autoconhecimento (temas da luz escorpiana) e também os assuntos secretos como a espionagem, a pesquisa armamentista e a política bélica manipulativa das superpotências (temas da sua sombra), agora Plutão virá para transformar os temas aquarianos de renovação social, desde *a política do pequeno estado se sobressaindo ao do grande estado, até o crescimento de associações, confrarias, irmandades etc, passando por inovação tecnológica, rebeldia social e intensificação da contraposição política em prol não do poder, mas da boa convivência e bem estar social de todos! Assim sendo os paradigmas do poder centralizado serão abalados durante este ciclo... O que virá tanto para o bem quanto para o mal. A proximidade desta configuração astrológica trouxe, por exemplo, muitos debates sobre a possibilidade de uma terceira guerra mundial, afinal a última passagem de Plutão sobre este signo trouxe em seu bojo a revolução francesa e o ápice da guerra civil americana! Sinceramente acho que a possibilidade existe sim de muitos conflitos armados pelo mundo a fora, já de uma guerra generalizada envolvendo muitas nações seria, além de absurdamente irracional, dispendiosa e cara, e catastrófica para o contexto global... Assim sendo acho pouco provável. O mais provável é o avanço da tecnologia e da robótica, e o progresso de políticas não tão centradas nas ideologias convencionais de direita ou esquerda, e sim mais focadas no desenvolvimento e bem estar social. Temas aquarianos que Plutão vai trazer à tona! Claro que ações radicais e súbitas, que são a sombra aquariana, não estão descartadas já que a belicosidade também é uma característica inferior estimulada por Plutão.

*Quando as iniciativas de estados e municípios se sobressaem, ou contrariam, as diretrizes do governo federal.


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O Canal Reiki vs O Caráter Humano - Há Interferência?

Conversando com duas pessoas a quem eu respeito muito veio a questão: "Não faço Reiki com qualquer um, acho importante cuidar de quem recebemos uma troca energética dessas"... Será mesmo? Veja bem, uma das premissas mais maravilhosas do tratamento Reiki é de que a energia Ki ao ser transmitida trata o transmissor e o recebedor simultaneamente. Ou seja, o Reiki é uma energia auto limpante! Um dos meus Mestres contava que, tanto ele quanto muitos dos seus alunos, em momentos turbulentos de suas vidas, ao passarem por desconfortos íntimos ou mesmo físicos, ficaram inseguros em tratarem pessoas que já haviam agendado com antecedência. Todos observaram, porém, que ao término do dia, haviam se recuperando totalmente sem repassar nenhum de seus desconfortos àqueles que estiveram sob seus cuidados terapêuticos! Com o tempo pude comprovar os mesmos resultados quando eu mesmo passei por situações parecidas! Sendo assim me sinto mais do que seguro em dizer que esta premissa Reiki está mais do que assegurada e comprovada! 

A Energia Ki purifica, estabiliza e reintegra
a energia do emissor e do recebedor ao
mesmo tempo, e cada processo é único.

Ah mas tem uma questão de caráter, de frequência vibracional evolutiva. Há pessoas de frequência muito baixa e até mesmo criminosa, poderão dizer. E é verdade! Mas ainda assim considero que há um claro elemento moral restrito nesse tipo de avaliação, até porque não evoluímos igualmente em todos os níveis de consciência! Haja visto o notório caso do curador João de Deus. Sem sombra de dúvida uma alma muito comprometida com os aspectos mais densos da instintividade humana, tanto na sexualidade quanto na expressão descontrolada de sua agressividade. No entanto, há relatos de curas irreversíveis e inegáveis em milhares de pessoas ao longo de sua trajetória. Não vai aqui nenhum incentivo a quem quer que seja de cultivar sua sombra interior e vomitar no mundo seus desequilíbrios, mas é fundamental entendermos o processo evolutivo a que estamos todos sujeitos, e pelo qual estamos todos crescendo de forma desigual, como os dedos da mão, e sendo assim não devemos julgar e nem se permitir ser julgados por pessoas que também estão sujeitas ao mesmo processo inexorável e irregular!


segunda-feira, 20 de novembro de 2023

A Viagem do Louco - Aprofundando Conexões

Apresentei a viagem arquetípica do Louco no artigo Arcanos Maiores – O Mapa da Vida. Nesta viagem o arcano zero dos 22 trunfos (os arcanos maiores) aparece como uma alma prestes vir para este mundo e cumprir sua viagem evolutiva, o que tanto envolve seu desenvolvimento psicológico quanto espiritual na sua viagem de retorno à unidade divina, ou sagrada. O Louco é, em última instância, a representação de cada um de nós pelos caminhos desta vida, enfrentando os desafios e crescendo, ou não, com eles. Num movimento fluído seguir adiante é sinônimo de evolução! Algumas pessoas, entretanto, ficam como que presas à certas vivências arquetípicas. Reconhecer onde estamos na jornada e onde nos “enganchamos” ao longo dela é um trabalho fundamental dentro de uma perspectiva de crescimento e desenvolvimento pessoal. Vamos rever agora a linda jornada que fazemos usando a roupagem deste bufão encantado em busca da verdade Superior, mas desta vez aprofundando as relações numéricas entre os arcanos e seu entrelaçamento simbólico para a compreensão dos processos que impulsionam a consciência a se expandir. Vale registrar aqui que esses entrelaçamentos são minha experiência contemplativa do simbolismo dos trunfos, cada um fará a sua e, portanto, poderá chegar às suas próprias conclusões. Vamos à jornada:  

A Viagem do Louco

A Viagem de O Louco, uma busca
por si mesmo e a Sabedoria.

Para entendermos bem os arcanos maiores e sua representação como etapas vivenciais da existência, encarar as cartas como estágios de uma viagem pela vida é de imensa ajuda! O esquema que apresento aqui e utilizo em minhas iniciações foi apresentado por Sallie Nichols em seu livro Jung e o Tarot, de 1980. O esquema é organizado em três setenários que se dispõe de modo muito rico tanto simbólica quanto aritmeticamente. O Louco representa o próprio viajante que se coloca fora do grande esquema de 21 cartas. Ao ser colocado antes da carta de O Mago ele é o ignorante puro de coração, aquele que percebe sua falta de conhecimento e sabedoria e sai em busca delas.

Ao completar, porém, o longo trajeto arquetípico ele se vê mais uma vez fora do grande esquema. Mas agora não mais como um ignorante, mas sim um sábio iluminado que passou por tudo, e que apesar de compreender o esquema dos eventos da vida comum, não mais comunga com eles. A viagem, entretanto, nunca termina! Como o penúltimo arcano da caminhada, O Mundo, anuncia um fim e prenuncia simultaneamente um novo começo, O Louco prossegue mais instruído em seu trajeto. A busca da evolução nunca finda e continua em níveis cada vez mais elevados, pois o autoconhecimento é um caminho contínuo! E mesmo aqueles cuja evolução transcendeu os níveis da humanidade e não mais precisam do recurso reencarnatório, já que sua evolução não continua aqui na Terra, continuam em sucessivas peregrinações evolutivas em outras dimensões! A esses chamamos de muitos nomes, Mestres Ascensos, Iluminados, Avatares, são alguns deles.

Os arcanos como estágios
evolutivos da consciência

Os três níveis das cartas são divididos, como já disse, em setenários que vão de O Mago ao arcano de O Carro. Do arcano de A Justiça ao arcano de A Temperança. E, finalmente, do arcano de O Diabo ao arcano de O Mundo! Muitas visões diferentes sobre esta jornada já foram publicadas e cabe a cada neófito no estudo do tarot conhecer essas muitas versões e escolher a que mais faz sentido para si dentro do seu próprio processo evolutivo pessoal. Para mim o primeiro setenário fala do processo de formação do indivíduo, o segundo das leis ou princípios que regem a vida e o terceiro do caminho da transcendência que poucos trilharão com sucesso, muito embora tenham todos a oportunidade de fazê-lo! Apresento a seguir uma síntese de cada setenário e o significado resumido de cada carta passo a passo. Antes, porém, devo advertir que aqui O Louco será visto como uma criança recém-chegada a este mundo.

O Caminho do Indivíduo

O Mago, o Pai Cósmico,
a divindade interior.

Ainda no ventre da mãe o infante preserva a conexão com o poder criador do pai cósmico que realiza os milagres tanto naturais quanto sobrenaturais, e que para a maioria será esquecido ao longo da vida, e cujo resgate alude à volta à casa do Pai das escrituras sagradas (O Mago). Da mesma forma o acesso à sabedoria universal através da voz interior da grande mãe cósmica (A Sacerdotisa). Ao nascer a conexão com o mundo espiritual e transcendente é cortada e a mãe terrena o conecta ao corpo e ao mundo dos sentidos e do prazer físico (A Imperatriz). O pai terreno surge para apontar para o mundo concreto das realizações e das limitações, para que não se perca a vida em indolência (O Imperador). Ao crescer um pouco mais o infante vai à escolinha e receberá a partir de então uma série de iniciações que nunca mais findarão, se ele for de fato um buscador espiritual. Da alfabetização ao doutorado, das iniciações acadêmicas às iniciações espirituais, ele será iniciado nos mistérios que conduzem à realização maior, e que prosseguem a níveis cada vez mais refinados e sutis (O Hierofante). Com os colegas na escolinha, na universidade ou nas escolas de mistério, assim como na vida, o jovem aprenderá a ouvir outras visões e versões sobre a verdade, diferentes daquelas que ouviu de seus professores e Mestres e escolherá se ele se adaptará a alguma ou se seguirá a tradição (Os Amantes)! No fim, o jovem adulto se sente confiante para enfrentar o mundo. Aposta em suas formações, visão e escolhas e sai como um guerreiro pronto para a batalha do crescimento pessoal na jornada da vida (O Carro).

O Caminho das Leis

A Justiça, o regulador da Balança.

Logo O Louco, agora travestido de O Carro, aprenderá pela observação, estudo ou experiência que a vida é regida por leis ou princípios. Que vão do código penal à constituição, das leis naturais, como a lei da gravidade, às leis espirituais, como a lei do Karma (A Justiça). Aprenderá que a solidão é a regra desta existência e que ele estará sempre só em sua dor ou êxtase nas experiências mais profundas e significativas de sua vida. E que quer ele faça o bem ou o mal, ele será o maior responsável por suas ações e pagará por elas (O Eremita)! Verá também que a mudança é a lei da vida, que tudo muda sempre, mas que também tudo é cíclico! Tudo muda, mas se repete porque nada é exatamente igual, como um verão não é igual ao outro. Aprenderá também que ciclos similares que se reptem com insistência evocam a evolução da consciência (A Roda da Fortuna). Descobrirá que o poder para mudar nosso próprio destino jaz dentro de cada um de nós, mas requer força de vontade, empenho, coragem e muita energia (A Força). Porém, para que nosso ego não enlouqueça de vaidade, aprenderemos que na vida há o imponderável que nos torna impotentes! Que por mais fortes e saudáveis que sejamos, envelheceremos e morreremos. Que por mais que amemos alguém, não podemos livrá-lo da dor e do sofrimento. A entrega nesse momento é um convite para a contemplação do transcendente (O Enforcado). Outra lei irrefutável é que tudo morre, mas que a morte não é um fim, e sim uma transcendência, que como diz o nome, é um ir além das experiências e formas conhecidas até então (A Morte). E que a morte é uma das maiores conspiradoras para a abertura e a busca por objetivos de maior amplitude e significado filosófico ou espiritual (A Temperança).

O Caminho da Transcendência

O Diabo, o desafio de se ver
além da matéria.

Na entrada do caminho da transcendência encontramos aquele que faz de tudo para nos fazer crer que além deste mundo que vemos a vida não tem nenhum sentido! Que não há transcendência espiritual! Ele nos propõe transcendências físicas, e algumas bem biológicas tais como poder material, sexo e drogas que nos prendem ainda mais a este mundo (O Diabo). Somente uma libertação consciente das amarras do ego ilusório, que poderá ser voluntária ou resultante de uma crise de grandes proporções, nos faz despertar deste sono, ou maya como dizem os indianos (A Torre). A ruptura nos faz ver para além de nós mesmos, e pela primeira vez vislumbramos nossa comunidade humana como uma família, e esse universo como nossa casa (A Estrela). Mas logo após essa revelação o ego insufla o medo da própria destruição e pensamentos de pânico como “Vou me perder”, “Estou ficando louco”, ou “Ah, é só minha imaginação!” podem nos fazer voltar atrás e abandonar o caminho da evolução (A Lua). Ao resistirmos e atravessarmos os mares dos nossos fantasmas a consciência antes adquirida se consolida, e um imenso esclarecimento sobre nosso propósito interior advém e se reforça, trazendo clareza, êxito, força interior e foco (O Sol). Então, ao revermos nossa viagem pela vida, todos os fatos que aparentemente não possuíam conexão entre si entrelaçam-se e o sentido último de nossa existência se revela (O Julgamento). A dança cósmica se completa em nós, e um profundo sentimento de satisfação e comunhão com todas as coisas deste mundo e do universo se realiza dentro de nós com perfeição e regozijo. Saímos então da roda das encarnações (O Mundo).

Curiosidades Aritméticas

Neste arranjo das cartas dos arcanos maiores algumas reflexões podem ser feitas com os números nesta disposição. Por exemplo: Se somarmos verticalmente a primeira carta da primeira fileira (O Mago I) com a primeira carta da terceira fileira (O Diabo XV), obteremos o número 16. Observamos então que a carta que fica entre os dois arcanos é o primeiro arcano da segunda fileira (A Justiça VIII). Curioso, não? Parece haver uma sugestão simbólica aqui, algo mais ou menos assim: O grande poder da divindade interior (O Mago I) pode ser corrompido ao ponto de perverter-se completamente (O Diabo XV)! Por isso é preciso manter a crítica, a autocrítica, o bom senso e o discernimento consciente para equilibrar “os pratos da balança” (A Justiça VIII). O mesmo ocorre entre a Sacerdotisa II e a Torre XVI, cuja soma 18, encontra seu equilíbrio no arcano central O Eremita IX, e assim segue entre todas as somas verticais!

Outra curiosidade é que as somas transversais, tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda, dão sempre no mesmo arcano. Veja isso: a soma do arcano de O Mago I, com o arcano de O Mundo XXI é igual a 22 cuja metade é 11, o arcano de A Força XI. Outra mensagem parece estar se insinuando aqui: entre descobrir o poder da divindade interior e atingir a transcendência é preciso muito empenho, coragem e disposição para debruçar-se sobre si mesmo ao confrontar a fera interior! O arcano de A Força é a metade resultante de todas as somas transversais entre os números dos outros arcanos maiores. Para conferir continue somando A Sacerdotisa II com o Julgamento XX, A Imperatriz III com O Sol XIX, O Imperador IV com A Lua XVIII... E até nas cartas da mesma fileira a que o décimo primeiro arcano pertence, como A Justiça VIII com A Temperança XIV, e até dos dois vizinhos mais próximos A Roda da Fortuna X com O Enforcado XII. Parece que a reflexão central desse simbolismo aritmético é que a confrontação com a sombra dos instintos inferiores, a besta interna, e sua integração impulsiona o despertar da luz espiritual, dos dons e talentos latentes e a evolução do indivíduo. Que se dá dentro do modo indicado pelo significado das cartas que compõem a fórmula! Estas “coincidências” provam mais uma vez que a troca feita por Waite colocando a carta de A Justiça no lugar de A Força no ponto central do quadro dos 22 arcanos maiores, não se sustenta simbolicamente. Medite sobre essas relações, tire suas conclusões e reveja-as periodicamente. Você crescerá muito em suas percepções sobre a vida e em seu próprio desenvolvimento pessoal e espiritual.

Aprofundando as Perspectivas Verticais

A verticalidade é, sem síntese, a relação micro e macrocosmo, homem e universo. Mantendo sempre em mente que os números aqui conectam os arcanos simbolicamente. Na primeira fileira, já como vimos, O Mago, que simboliza o poder absoluto de fazer as coisas acontecerem e criar dinamismo onde se apresente através dos seus dons e habilidades aplicados com excelência, se conecta com o arcano de O Diabo que perverte, e subverte toda a emanação do poder oriundo da fonte superior. Nesse caso o Diabo seria a sombra do Mago que possui entre seus atributos mal dignificados a mente brilhantemente maligna, o gênio do mal. A solução para isso seria, como nos ensinou Buda, o caminho do meio. Entre esses dois poderosos arcanos está A Justiça. Símbolo da razão pacificadora e retificadora, da consciência plena e da mente que avalia, critica, e julga a fim de chegar ao cerne da verdade e do bom senso. Só essa postura crítica e autocrítica livrará O Mago de mergulhar na sua própria escuridão.

Na fileira seguinte vemos A Sacerdotisa, símbolo da espiritualidade intrínseca, e muito além da experiência religiosa, que se expressa na sabedoria interior revelada nas intuições profundas, nas visões interiores (clarividência) e na voz do altíssimo (a clariaudiência) que nos conectam aos planos superiores de consciência. Ou de suas bênçãos expressas em dons de cura, e outras habilidades mediúnicas, mediante o mergulho em si mesmo. Aqui também A Torre parece estar representando a sua sombra, que seria o efeito destrutivo de tais revelações quando proferidas por pessoas incautas, despreparadas e até mesmo mal-intencionadas. O antídoto para este perigo fica entre os dois trunfos. O Eremita que surge como a prudência, e foi Éliphas Lévi quem primeiro atribuiu esse significado a este arcano. Além da prudência ele enaltece o valor da sabedoria que é conhecimento + prática + observação. Muitos médiuns acham que não precisam estudar as leis herméticas para aplicar suas habilidades. O mesmo se dando com estudantes das artes oraculares que se acham prontos com seus cursos de poucas horas. Causam muito mais dano do que o benefício que pretendiam!

Em seguida o arcano de A Imperatriz surge como a expressão do amor cuidadoso que as mães nos dispensam e nos ensinam e que, por fim, aprendemos a ter com todas as coisas e pessoas que amamos. Apegada aos seus apetrechos de poder a sua sombra é justamente quando este amor e cuidado é diluído no amor às causas mais que às pessoas, e sua afetividade vira uma afinidade impessoal e mais mental que afetiva, tão bem representado na nudez de A Estrela. Onde uma donzela comunga com os astros distantes seu êxtase pela vida. Entre os dois arcanos a carta de A Roda da Fortuna surge dizendo que intercambiar as duas posturas é fundamental para a construção de relações saudáveis e harmônicas. Amar ao próximo sem esquecer de abraçar aqueles que estão ao nosso lado e que também precisam do nosso amor. Muitas vezes referida como a Mãe-natureza, a imperatriz também pode conectar os aspectos biológicos e naturais do corpo que precisam de interação e “troca” com os elementos naturais como são representados em A Estrela, o pássaro, árvores, água, terra e os próprios astros do sidéreo. A filosofia das tradições medicinais do oriente e nativas falam da importância dessa interação para a cura física e mental.

Na quarta fileira o arcano de O Imperador representa o poder delegado. As autoridades que comandam, gerenciam e movem este mundo! O poder que ele representa é o do líder das massas, aquele em quem se cofia para dirigir um lar, uma empresa, o país! A sua sombra também se expressa no arcano de A Lua. O perigo que todo governante tem de projetar em todo esse poder e confiança a sombra de seus próprios medos e frustrações não resolvidas, e o risco que corre ao enfrentar os antagonistas que se movem nos bastidores do jogo político, da bajulação, e das articulações dúbias do poder! O arcano de A Força é a resposta para esta escuridão abismal. Simboliza a necessidade de se preservar, com constância, a posição firme dos que comandam com integridade. Sem deixar nunca de marcar seu posicionamento, lembrando de seu papel e importância, ressaltando também a importância de cada um na integralidade de suas funções. A donzela de A Força segura firme e gentilmente a cabeça do leão mantendo um pé a frente, marcando sua posição com rigor. É, literalmente, a mão firme que mantém as coisas no seu devido lugar. O líder deve manter-se em seu papel e função sem oprimir, mas distinguindo a função de todos sob seu comando!

Na quinta fileira aparece uma conexão difícil. O arcano de O Hierofante representa as tradições e a sabedoria ancestral que pode justamente nos levar à iluminação! A palavra Hierofante quer dizer “aquele que leva ao sagrado”, muitas vezes na tradição oculta o sagrado é também referido como a presença da luz... Como isso poderia ser ruim, ou sombrio? O arcano de O Sol simboliza mesmo a iluminação espiritual, mas também o risco da vaidade ou da intensidade com que olhamos para nossa própria trajetória. O Enforcado surge como o caminho da humildade que nos faz reconhecer que todo saber deve estar a serviço de algo maior (de cabeça para baixo se olha para o céu!). A sua posição, que é simultaneamente de submissão e entrega, permite justamente olhar por outra perspectiva, a do outro, ou de outra forma que nos permita aceitar sem recriminar... Suas mãos estão para trás indicando abertura e receptividade. Um observador atento e amoroso que aprendeu com seus próprios sofrimentos e desilusões a considerar os erros como parte da trajetória rumo à luz na vida de qualquer um. A sombra de O Hierofante é justo o preconceito e o dogmatismo empedernido.

O sexto arcano mostra Os Amantes (ou O Enamorado em português) que na iminência de decidir com a pureza do seu coração é antes incitado pelo arcano de O Julgamento a mergulhar numa última avalição interior da sua decisão. O Julgamento é justamente o aprofundamento da consciência numa busca de ampliação de si mesma. Assim como o juízo final bíblico se refere a um chamado para que a humanidade retome à consciência correta (ou perspectiva) sobre o real valor e sentido da vida. A Morte surge entre os dois trunfos assinalando primeiro que as decisões causam mudanças irreversíveis na maioria das vezes, e que por isso devemos considerar o que estamos perdendo ao decidir. Por fim, a Morte revela-se como o verdadeiro moderador da vida. Tudo morre, por isso todo tempo perdido em ambiguidades, fruto da imaturidade, é o desperdício do bem mais precioso à vida: o tempo! A incapacidade de decidir ou de conviver com suas decisões é o mais explícito ato de uma alma imatura em seu desenvolvimento. Entender o propósito de estar neste mundo (O Julgamento) e fazer escolhas compatíveis com este propósito (Os Amantes) são os marcos de uma real evolução tanto pessoal quanto espiritual. E, de novo, a Morte como o regulador do existir, nos incita a encontrar o propósito de nossas vidas porque a Morte nos espera no fim desta jornada chamada vida.

Na última fileira o sétimo arcano do guerreiro intitulado O Carro mostra um jovem príncipe que se move em sua carruagem (uma biga) em direção ao mundo, à vida, e com a clara intenção de vencer tudo e todos para chegar no último arcano do caminho transcendente, O Mundo! Ele venceu todas as etapas anteriores e se sente mais que pronto para atingir seus grandes objetivos. Entretanto, o arcano intermediário, A Temperança aparece lembrando ao jovem herói que nada é conquistado sem constância, perseverança e metas e direções claras! O anjo de A Temperança nos lembra os processos alquímicos que pretendiam transmutar a matéria bruta do chumbo na nobreza do ouro. Um processo gradual e dificultoso em que a própria consciência seria depurada, sutilizada e elevada. Daí este décimo quarto arcano do tarot também representar todos os tratamentos curativos e medicinais, e também as jornadas tanto internas quanto externas (viagens/peregrinações) onde se almeja alcançar algo, quer seja concreto ou empírico. O anjo ensina ao jovem príncipe que sem isso nenhuma obra será completa ou satisfatória (O Mundo).

Aprofundando as Perspectivas Diagonais

Neste cruzamento onde os símbolos e os números se entrelaçam mais uma vez numa espécie de dança arquetípica, o simbolismo do arcano de A Força predomina. Todos os outros arcanos se abastecem de seu manancial simbólico durante esta viagem. Sua grande relevância se evidencia já na posição que ocupa dentro do quadro formado por três setenários. Colocado exatamente no centro dele este arcano mostra a sabedoria (a donzela) conduzindo a força (o leão), ou seja, a sutileza, a inteligência, a vontade serena, mas firme, constante e centrada encontram o êxito de sua empreitada... A autoconfiança é sem arrogância, o êxito sem exibicionismo! A fera interior está domada e a serviço do Si-mesmo. Os esforços lograram êxito e uma imensa satisfação! As distâncias, tanto angulares quanto aritméticas funcionam como o fio de Ariadne que conectam sentidos e simbolismos através do décimo primeiro arcano maior. Vamos às conexões:

O imenso talento de O Mago, só realizará a Magna Obra de O Mundo através do empenho vigoroso e contínuo de A Força!

O psiquismo e as visões de A Sacerdotisa só reverberarão em ampliações da consciência e na unificação de sentidos de O Julgamento se integrarem os aspectos humano e espiritual da vida como em A Força.

O amor e o cuidado de A Imperatriz só resultarão no amor maduro e feliz de O Sol, se houver a suplantação do ego humano e suas infinitas carências e ânsia de controle, a sombra de A Força.

O poder e a liderança de O Imperador não serão corrompidos pelas tramas ocultas do poder que ocorrem em A Lua se a severidade for combinada ao respeito às posições ocupadas (a hierarquia) como em A Força.

Os preciosos ensinamentos de O Hierofante não serão dispersados amplamente e em vão em A Estrela, se o respeito ao que se sabe for uma constante nas ações como em A Força.

As escolhas amorosas de Os Amantes, não serão destrutivas ou autodestrutivas em A Torre se tiverem como base a autorresponsabilidade e a disposição de enfrentar-se como em A Força.

Os objetivos de avanço e conquista de O Carro não irão descambar numa cobiça desmedida e sem consequências em O Diabo, se a vigília sobre si mesmo e suas sombras for constante como em A Força.

O equilíbrio de A Justiça só se transformará na harmonia pacificadora reorganizadora de A Temperança quando os baixos instintos do ego forem transmutados na luz da consciência como em A Força.

A busca pela sabedoria e a luz interior de O Eremita, não será barrada pelo medo do fim como em A Morte, se a atenção estiver plenamente focada no caminho escolhido como a donzela está focada no ato com seu leão em A Força.

Os ciclos do tempo e as intervenções do destino de A Roda da Fortuna, não prostrarão ou vitimizarão o buscador como em O Enforcado se ele assumir o seu poder pessoal de coautor de sua vida como em A Força.


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Devemos Ler o Tarot para Terceiros?

Os arcanos do Tarot, um mosaico de imagens
que expressam a alma humana em suas vivências

Eis uma questão que acompanha as sessões de Tarot e Cartomancia em geral pelo mundo a fora há pelo menos uns duzentos e cinquenta anos, e não parece ter uma resposta que sirva para todos igualmente até hoje. Há, inclusive, consultores que se especializaram em fazer leituras para filhos, sócios, parentes, vizinhos namorados/as e assim por diante. O que incialmente começa com mães (geralmente idosas) perguntando sobre a vida dos filhos (geralmente adultos) avança para uma verdadeira espionagem da vida alheia através dos arquétipos! Mães de um modo geral consideram um direito seu atropelar a privacidade de sua prole, isso virou tão aceito que nem questionamos mais. Na maioria das vezes achamos engraçadinho, ou meio bobo, e paramos por aí! Isso ocorre porque ainda estamos presos a um conceito que considera que uma vida de propósitos e projetos é impossível na terceira idade. Assim temos uma geração de mortos vivos depois dos 70 que, considerando que não possuem mais uma vida para si, voltam-se para a vida e a realização da sua prole, quando as tem. Pretendo levantar aqui algumas questões para reflexão e melhor compreensão de um tema tão casual, aparentemente, que ignoramos a gravidade de suas consequências em todos os âmbitos possíveis.

A Ética

O primeiro tópico é, com certeza, o mais evidente e obviamente o mais esquecido de todos! Quando o consulente indaga sobre alguém da sua convivência esquece-se na maioria das vezes de que estamos contando a história de alguém que não está presente, não procurou os serviços de consultoria daquele profissional, e está tendo sua intimidade invadida. Acontece também que o próprio consulente pode extrapolar os limites da sua própria privacidade e se revelar sem nenhum tipo de preservação de si mesmo, do profissional que ele procurou e das pessoas de suas relações. Dentro das minhas mais de três décadas de atuação na área de consultoria com linguagens arquetípicas como o Tarot, a Numerologia e a Astrologia tenho ouvido as histórias mais bizarras sobre pessoas que simplesmente mandaram para o espaço toda e qualquer consideração às regras de decência no tratamento dos sentimentos dos outros e dos próprios sentimentos. Uma cliente me contou que um ex namorado consultava uma profissional de tarologia para vigiar suas namoradas, e saber se elas lhe diziam a verdade sobre seus compromissos, pessoais, familiares etc. Até que a referida profissional alegou que ela havia mentido a ele sobre uma certa viagem, o consulente (seu namorado) a confronta com a revelação e ela pede para falar com a taróloga, que não só reafirma tudo o que disse como a chama de mentirosa! E ela não estava mentindo...  Num outro caso uma pessoa pergunta se o marido estava sendo fiel a ela, as cartas mostraram que ele estava muito atraído por uma mulher bem mais jovem que ele. A mulher leva ao marido a revelação das cartas, ao que o companheiro não só nega tudo como a faz se sentir uma completa idiota por acreditar nessas coisas, além de ameaçar ir até o cartomante que a atendeu numa discussão dramática. Tempos mais tarde ele a abandona por uma mulher dezenove mais jovem. Para consultores e consulentes vale lembrar que a confidencialidade de uma sessão oracular deve ser recíproca. Ética é um conjunto de regras que trata de estabelecer boa convivência entre as pessoas no dia a dia. E, num sentido mais simplificado, trata de reciprocidade nas atitudes. Seja respeitoso com as prioridades e regras dos outros como gostaria que respeitassem as suas. Mantenha o mesmo sigilo e discrição sobre uma sessão de leitura como o que gostaria que o leitor tivesse com sua história e intimidade. Simples assim. 

Carta do Jeu du Petit Oracle, ca.1795
BnF Bibliothèque Infernale

O leitor é, antes de tudo, uma pessoa passível de erros, se não por incompetência também pelo desejo de ajudar seu cliente, saindo do seu lugar de mero intérprete dos símbolos para um torcedor da causa daquele que confia nos seus talentos interpretativos das linguagens ancestrais. Para os consultores é preciso lembrar que a pessoa que o procura tem também suas debilidades de personalidade e poderá estar dando vazão aos seus padrões desequilibrados de controle, e obsessão por uma outra pessoa escapando de viver sua própria vida. Sem falar na miríade de possibilidades de relacionamentos tóxicos que podem estar por trás dessas incursões “preocupadas” pela vida de parceiros e filhos. De mães narcisistas à cônjuges afetivamente dependentes, abusadores e intimidadores disfarçados em pessoas que sofrem por seus entes amados.

O Propósito

Outro aspecto tão óbvio quanto ignorado é: qual o propósito de se ficar observando a vida de alguém que não está presente? Ou mais ainda, onde isso leva o consulente em seu processo de esclarecimento e crescimento interior? A consulta deve ser sempre focada na pessoa que procura o oráculo, e as revelações feitas sobre seus dilemas e preocupações devem ajudá-la a entender o propósito último desses dilemas para o desenvolvimento da sua personalidade e equilíbrio interior. Quando uma pessoa está muito obcecada em saber sobre filhos, vizinhos, colegas de trabalho, ou vigiar os passos do cônjuge, essa pessoa está com uma clara dificuldade de viver a própria história, e viver de forma fluída as suas relações. Tomada por medos inconscientes de rejeição, fracasso ou abandono, que limitam seu sentimento de satisfação plena. A Tarologia evoluiu muito para ser tratada como um mero observatório da vida alheia. Os Arcanos são, antes de qualquer coisa, um instrumento de investigação dos desafios cotidianos como vetores que apontam para suas fragilidades e condicionamentos dando a possibilidade de autotransformação! É claro que há casos em que isso é legítimo! Querer saber dos negócios do seu par amoroso, o que sempre afeta a ambos, o desempenho de um filho em seu desenvolvimento psicológico ou escolar, a predisposição de um sócio para um negócio que tocam juntos, as articulações de colegas ou de uma equipe nos projetos de trabalho, por exemplo... Tudo isso influencia diretamente a vida daquele que se consulta, sem ser uma intromissão agressiva na privacidade de ninguém! Afinal, é para isso que os oráculos existem. São também um guia para ações estratégicas de investimentos, empreendimentos e ações práticas. Cada consultor, profissional ou não, deverá encontrar seu modo de fazer isso usando do bom senso, e de seus próprios critérios sobre o deseja ou não abordar nas suas sessões de leitura.

Como disse há tarólogos que se especializaram em “marcar” outras pessoas nas suas leituras. Com isso atraem uma clientela que vem com uma lista de perguntas de outros indivíduos para uma consulta que deveria ser particular. O que é, a meu ver, totalmente improdutivo para todos os envolvidos. Quando me perguntam o que costumo fazer eu respondo que tiro uma carta de mensagem para cada pessoa da família, e só! Respondo as questões quando apresentadas do modo que citei no exemplo acima e, é claro, questões de relacionamento amoroso. Desde que não se trate de se espionar um ex, ou de uma obsessiva investigação da privacidade do outro. Isso não é amor, é apego e manipulação!

Cada intérprete do Tarot, e de qualquer outro instrumento oracular, deve criar seu próprio sistema para tratar desta questão, o que será profundamente influenciado pela maneira com que ele mesmo vê o que faz, e quais objetivos estabeleceu para si com seu trabalho. O Tarot é tanto um oráculo para a sondagem do presente e do porvir, como um instrumento para o profundo autoconhecimento, sendo um revelador de programações e condicionamentos inconscientes para a libertação da consciência plena. É também um veículo para a prática da magia, da meditação e do despertar criativo. Qualquer outra aplicação que ignore essa riqueza e profundidade é pura e simplesmente um desperdício!