quinta-feira, 15 de março de 2012

Arcanos Menores - Os Mensageiros da Alma

Os arcanos menores são o conjunto de 56 cartas, divididos em quatro grupos que podem corresponder ao simbolismo dos quatro elementos e que também se aplicam à natureza da psique humana. Como alguns pesquisadores propõe, os quatro naipes podem representar ainda as quatro estações do ano, e as classes sociais da Idade Média, entre outras analogias.
O naipe de paus representa a primavera e o desabrochar da vida. O naipe de copas o verão e a florada das emoções humanas. O naipe de espadas o outono com sua força de “fazer aparecer a verdade” e mostrar as coisas por dentro ou como são na realidade. E, por fim, o naipe de ouros o inverno, a estação onde se colhe e experimenta os frutos semeados ao longo do ano. É o naipe da riqueza ou do infortúnio dependendo do trajeto feito pela consciência! Seja como for esse naipe sempre sugere crescimento, amadurecimento e aprendizado de algum modo. Curiosamente um ano de 365 dias é dividido em 52 semanas que se subdividem pelas quatro estações. Logo, 52+4=56... Coincidência? As coincidências podem não significar nada para a mente lógica, mas dizem muito a mente imaginativa e intuitiva, e exercícios como este podem ajudar bastante a ampliar o escopo de relações entre o tarot e os ciclos da natureza. O que serve muito bem para definir períodos de tempo numa sondagem sobre um evento futuro, por exemplo. 
Paus é o símbolo dos camponeses que empregavam grande força e energia física em suas atividades e celebravam as estações com ritos agrícolas. Copas representava o clero que consagrava as uniões matrimoniais (era costume os casamentos serem feitos no verão) ao amor de Deus. O exército e a realeza eram simbolizados no naipe de espadas. No outono, a estação do naipe de espadas, as colheitas eram realizadas e a divisão entre o que era do agricultor e o que era do reino era feita com base em leis bem estruturadas, e severas, que eram outorgadas pelo rei e executadas pelos militares! Por fim o naipe de ouros era a poderosa classe dos comerciantes burgueses que ascendiam ao poder com grande capacidade de influenciar as leis e decisões reais. 

As quatro estações como estágios da evolução humana 
e seus diferentes níveis de personalidade.

Equivocadamente alguns tarólogos subjugam os arcanos menores a um papel secundário nas leituras. Chegam a afirmar categoricamente que o arcano maior define o sentido da leitura (quando as cartas são jogadas em pares, onde um arcano maior é seguido por arcano menor). O que quer dizer que se um arcano maior muito positivo como O Sol sair com um arcano menor muito negativo ou desafiador, como o 5 de ouros, o resultado não será tão ruim porque o simbolismo do arcano maior predomina... Baseado em que se convencionou isso? No Brasil se popularizou um sistema de leitura que combina sempre um arcano maior a um menor numa jogada. Eu já joguei assim e confesso aqui que o fazia por não ter muita segurança sobre o significado das cartas dos arcanos menores. É como andar numa bicicleta amparada por rodinhas, um ótimo recurso para crianças, mas algo bem idiota para um adulto! Menor não quer dizer menos importante. Significa apenas que o simbolismo dessas cartas é mais específico dentro dos elementos que elas representam no baralho. Enquanto os maiores permitem mais desdobramentos nos seus significados. A utilização do baralho completo com os arcanos dos dois conjuntos misturados, e usados assim durante toda uma sessão de análise dos símbolos, me parece mais justa e igualitária, além de fornecer uma leitura mais limpa, direta, objetiva e infinitamente mais precisa, sem tantas cartas na mesa! 
Os elementos relacionados aos naipes evocam suas características psicológicas dentro da personalidade humana e nas características de suas atividades:

Paus – O fogo é a ação, o empreendimento. O fogo das batalhas para a conquista de algo quer seja um objetivo material, um relacionamento, ou uma disputa esportiva. Confere força, disposição, agilidade e dinamismo. Como as labaredas estão sempre em movimento, esse vem a ser o naipe das viagens, da mudança e da evolução em todos os sentidos. Devemos lembrar que a descoberta do fogo pelo homem primitivo foi o passo que o e elevou acima de todos os outros animais da natureza! A energia física em sua expressão máxima também está sob sua influência. O fogo transforma a natureza das coisas e forja instrumentos através dessa transformação, por isso paus é o naipe da criatividade e do novo e da impaciência para a execução do que se apresenta. Os atributos da claridade o seguem, sendo por isso o naipe dos líderes e dos iniciadores.

Copas – A água, aquela que vai da superfície às profundezas. A dimensão do sonho, do oculto e do mistério da vida. Tudo o que é sagrado, místico, mediúnico (no sentido de mediar uma interação entre dois mundos), pertence ao naipe de copas. Por essa mesma relação rege também os sentimentos e os ideais humanos mais “profundos”. O amor e o sexo, onde literalmente “um penetra no outro” profundamente, são atributos deste naipe. O aspecto subjetivo da vida também é regido por ele. Todos queremos amar, por exemplo, mas todos amamos de modo diferente uns dos outros. Todos queremos ser felizes, mas o que nos faz felizes varia imensamente de pessoa para pessoa. Essa é a dimensão da água, onde a posição do observador permite ver reflexos diferentes que se espelham em sua superfície.

Espadas – O ar que seca a umidade, varrendo para longe a subjetividade. A busca pela verdade e pelo que é correto para todos. Enquanto a água une o todo pelo sentimento o ar une pela “aspiração” da verdade e da justiça para uma vida comunitária ordenada. Os primeiros conhecimentos foram passados oralmente, ou seja, a fala, as trovas, canções e mitos são atributos do ar em movimento em nossas gargantas que preservaram muitas culturas. Tudo o que nos é passado pelos pais, escola, amigos e sociedade em geral é um atributo do naipe de espadas. Tudo o que é conceitualizado e padronizado intelectualmente pertence a ele e poderá ser preservado de modo dogmático, ou reinventado de modo vanguardista conforme a necessidade ou maturidade de cada consciência.

Ouros – A terra, o corpo do planeta em que habitamos. Sua maior característica é a junção dos outros três elementos para compor a existência. A energia física e a disposição para vida do naipe de paus deve se unir a capacidade de sentir e sonhar o que vem a ser a própria felicidade, como o faz o naipe de copas, para depois acrescentar os aspectos críticos da mente de espadas. Assim os excessos são retirados e refletidos mais objetivamente para que então se alcance a realidade, o terreno onde tudo acontece! A realidade é um atributo do naipe de ouros. Também o é a solidez do corpo e suas necessidades, a densidade da vida material em seus aspectos de aquisição, posse e lucro. O comércio, as negociações (tanto materiais quanto afetivas), a manifestação, a construção e o desfrute da existência em sua totalidade! 

A interação entre todos esses naipes nos fornece a maravilha que só o tarot proporciona: a capacidade de revelar o universo interior de cada um de modo muito preciso. Com isso somos capazes de visualizar através dos símbolos o que sentimos de algum modo diariamente, de que todos vivemos a mesma realidade, mas a pensamos, sentimos, agimos e reagimos de modos diferentes uns dos outros, porque cada um de nós tem seus próprios papéis a cumprir na vida, e o tarot nos possibilita reconhecer esses papéis.

Cartas da Corte

Os arcanos menores dividem-se em dois grupos: o das cartas da corte e o das cartas numeradas. As primeiras atuam mais no nível psicológico da personalidade e as seguintes no nível prático dos acontecimentos e do que eles despertam em nós.

Aleister Crowley


Na antiga Ordem da Aurora Dourada, Golden Dawn, as cartas da corte foram associadas a elementos conforme a distribuição das quatro primeiras letras do nome de Deus, o Tetragrammaton. Os reis foram atribuídos ao ar por sua lógica estratégica. As rainhas ao elemento água por sua sensibilidade imaginativa. Os cavaleiros ao fogo, por sua impetuosidade e espírito aguerrido, e os valetes à terra, por representarem o chão onde as novas sementes (ideias, planos, etc) frutificarão. Nesse tempo da história do tarot muitos autores distorceram o seu simbolismo para que ele coubesse em sistemas mais antigos como a cabala. E nesse caso isso aconteceu de novo! No Tetragrammaton a primeira letra do nome de Deus yod corresponde ao fogo, a segunda letra he corresponde à água, vau ao ar e o último he ao elemento terra. Como vimos o fogo corresponde aos cavaleiros. Por isso em seu baralho, o Thoth tarot, Aleister Crowley colocou os cavaleiros na posição dos reis, antes das rainhas e iniciando a série de cartas da corte, enquanto os próprios reis foram rebaixados a príncipes. Essa arbitrariedade não influencia o significado das cartas. Caso você se utilize do baralho Thoth use as cartas como qualquer outro baralho, ignore essa excentricidade!

O Tetragrammaton, as quatro letras do nome sagrado e indizível de Deus. Lidas da direita para a esquerda (do modo hebraico e oriental como um todo): yod (fogo), he (água), vau (ar) e o último he (terra).


A partir deste método proposto pelos magos da Golden a relação entre os elementos ficou muito interessante, fornecendo uma rica combinação entre si.  Os reis sempre preservarão o elemento ar (seu regente), mas o combinarão com o elemento do naipe a que pertencem. Possibilitando a formação de uma ideia bem clara sobre a personalidade proposta no arcano. Fica assim:


O Thoth Tarot de Aleister Crowley, a sequência das cartas da corte alterada em função das letras hebraicas: Cavaleiro, rainha, príncipe (rei) e princesa (valete).

- Rei de paus = Ar do fogo. Rei de copas = Ar da água. Rei de espadas = ar do ar. Rei de ouros = Ar da terra. 

- Rainha de paus = Água do fogo. Rainha de copas = Água da água. Rainha de espadas = Água do ar. Rainha de ouros = Água da terra. 

- Cavaleiro de paus = Fogo do fogo. Cavaleiro de copas = Fogo da água. Cavaleiro de espadas = Fogo do ar. Cavaleiro de ouros = Fogo da terra. 

- Valete de paus = Terra do fogo. Valete de copas = Terra da água. Valete de espadas = Terra do ar. Valete de ouros = Terra da terra. 

Observe que sempre um arcano terá seu elemento dobrado, são eles: Rei de espadas, Rainha de copas, Cavaleiro de paus e Valete de ouros. O que indica uma clara acentuação de determinadas características e a debilidade de outras. O Rei de espadas (Ar do ar), por exemplo, não possui os elementos fogo, água e terra. O que denota uma personalidade dominante, firme, inteligente e organizada, com claras tendências para liderança, mas com pouca sensibilidade empática (água), baixo senso de limites (terra), e um tanto fria e sem espontaneidade (fogo). Tudo isso é bom para algumas coisas e muito ruim para outras!  E assim o é para com todos os arcanos da corte! 
Agora vamos vê-los em suas expressões de modo mais abrangente, definindo o que eles trazem para dentro das famílias de cada naipe a que integram:

Reis (Ar) – São os racionais. Costumam representar os líderes e administradores de cada elemento. São, de certa forma, controlados e controladores. Possuem a missão de reunir e organizar o que estava disperso de algum modo. Criam os planos e medem as consequências de tudo, criando as bases para que outros possam seguir por um novo caminho ou se beneficiar de sua criação. São os pesquisadores que conhecem a fundo alguma coisa segundo a regência de seus naipes. Representam os pais.

Rainhas (Água) – São as emotivas e sensitivas de cada naipe. Elas avaliam sempre o elemento humano, segundo as características de cada naipe a que elas se relacionam. Sua função é conservar o que foi criado ou o que existe há muito (a tradição). São acolhedoras, ouvintes, profundas e um tanto alienadas de si mesmas. Vivem a realidade sempre de uma perspectiva mais interior e ligada aos seus valores. São as artistas influenciadas por seus respectivos naipes. Representam as mães.



Cavaleiros (Fogo) – Os guerreiros de cada elemento. Trabalham melhor com metas pré-estabelecidas e bem definidas. Gostam de se empenhar ao máximo ao realizar qualquer coisa. Como são os representantes do temperamento juvenil, eles são apressados e idealistas, não medem consequências dos seus atos a longo prazo. Cada cavaleiro traz força para a leitura e para as demais cartas ao redor. São os portadores da energia para mudar uma realidade.



*Valetes (Terra) – As crianças ou aprendizes. Esses estão sempre abertos a conhecer pessoas, situações e coisas estranhas ou simplesmente diferentes! São os seguidores do novo, o seu problema é não ter consistência o suficiente para levar adiante o que se apresenta. Assim como as crianças, que devem ser bem cuidadas para que se criem, os valetes trazem novidades e perspectivas que devem ser desenvolvidas cuidadosamente para que não se percam!

Observe que há uma circularidade no simbolismo das cartas da corte! Depois da energia incipiente e inorganizada do valete fecha-se o círculo que volta para o rei que ordenará tudo a fim de ser usufruído por todos

Cartas Numeradas

As cartas numeradas são os estágios de desenvolvimento da energia de cada naipe, expressões arquetípicas que se evidenciam no cotidiano de modo muito significativo e reconhecível para aquele que se consulta. Essa relação entre imagens e números é que torna todo o arcabouço simbólico do tarot muito inteligente e coerente! As imagens e cores relacionam-se com o inconsciente, enquanto os números e as palavras atuam de modo mais efetivo no consciente. O tarot permite então uma abrangência de visão e conscientização muito grande ao ser disposto numa leitura, tornado-se o mediador entre o mundo consciente e inconsciente de modo lúdico e profundo ao mesmo tempo!

O Um – (Ases). A grande força motriz que expressa todo o poder e natureza do elemento enfatizado pelo naipe. Traz grande influxo interno e externo para que algo aconteça ou se manifeste. São os começos impactantes que sinalizam mudanças ou inícios grandiosos.

O Dois – A percepção do outro e a atração natural exercida entre duas forças compatíveis ou até mesmo antagônicas. A assimilação ou adaptação ao outro ou ao que está fora de “eu”. Adaptação, entretanto, não significa corrupção interior, mas justamente o contrário! É a arte da permanência interior mediante a influência alheia.

O Três – A expressão concreta da energia de cada naipe no mundo físico. Explicando de outro modo seria a expansão súbita de uma energia como uma explosão, ou uma ação do tipo “Algo tinha de ser feito!” e que prospera a partir disso.



O Quatro – Os estabilizadores. Servem para concentrar a energia de cada naipe com o objetivo de realizar ou preservar algo. Sua influência atua no sentido de trazer calma, centramento e fluidez, mas podem paradoxalmente levar à estagnação! 

O Cinco – A crise. As forças estáveis do quatro são dissolvidas ou rompidas de modo brutal no cinco. Este forte abalo pode levar a consciência à reflexão, ou a olhar para o mundo ao seu redor estabelecendo uma ponte para entender os sinais que ligam o indivíduo ao todo.

O Seis – A reintegração. Enquanto o dois fala de uma conexão mais próxima e particular o seis propõe uma interação mais coletiva ou social mesmo! O indivíduo se pretende inserido num contexto social ou familiar para restabelecer seu equilíbrio perdido.

O Sete – O número da profundidade também sugere um excesso. É o ir além do que foi visto ou conquistado, testar os próprios limites, ou perdê-los de vez! Propõe desafio, superação e refinamento da percepção interior.


Tarot, cabala e números, numa interação muito ilustrativa 
e enriquecedora em termos simbólicos.

O Oito – O reajustamento. Depois do excesso do sete o oito traz um movimento radical para colocar as coisas no seu devido lugar. Sendo este também o número de A Justiça, seria o "equilibrar os pratos da balança" de modo assertivo e contundente.

O **Nove – A expressão de uma energia atinge o seu ápice, o que pode trazer grandes gratificações e ou grandes sofrimentos. O nove é o número máximo entre os dígitos, simbolizando maturidade ou decadência conforme cada naipe.

O Dez – Os dez reúne a perfeição do divino (0) com a inteireza do mundo físico (1), o que pode trazer realizações ainda maiores que os nove, e até mesmo a transcendência do nível humano e individual, ou a derrocada como uma forma de induzir a uma reciclagem do que não foi bem aproveitado internamente. 
Uma tradução possível para a palavra naipe vem do árabe naib, que significa mensageiro. Uma linda palavra que a meu ver faz um sentido absoluto com a função dos arcanos menores numa leitura. Eles trazem mensagens sobre a vida prática de quem se consulta de forma muito detalhada e específica, permitindo uma pronta identificação consciente do que está sendo revelado na leitura. São os mensageiros da alma humana, traduzindo o modo como está sendo vivido cada aspecto mais palpável da vida e o modo como isso está influenciando a evolução pessoal.

*Os valetes também são chamados de pajens ou princesas (o elemento terra também é feminino), outra inovação do Thoth tarot de Aleister Crowley, e esta sim foi muito bem vinda! Enquanto os reis são o aspecto maduro do masculino, os cavaleiros são o aspecto juvenil. As rainhas ficaram sem seu correspondente jovem, o que foi corrigido com essa modificação.

**Qualquer número somado ao nove volta a ele mesmo 9+5=14 1+4=5. E qualquer número multiplicado por ele não o ultrapassa 6x9=54 5+4=9. Assim o nove vem a ser o número do pico mais elevado da maturidade e realização humana.

2 comentários:

  1. Fiquei extasiada com essa leitura, Jaime! Muito esclarecedora, e mudou minha visão dos arcanos menores.
    Você tem o dom da palavra, e não é poeta por acaso.
    Muito obrigada!

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    1. Fico feliz que tenha contribuído com seus estudos de tarot Beth! Sou fascinado pelos arcanos menores, para mim eles são os mais próximos do homem e revelam o significado e o propósito das vivências dos 22 arcanos maiores! Um grande abraço!

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