segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Os Mistérios do Osho Zen Tarot

Lançado em 1995 por Ma Deva Padma o Osho Zen Tarot é um baralho bastante incomum, uma releitura ousada do simbolismo tradicional do tarot à luz da filosofia do zen budismo segundo os ensinamentos do mestre indiano Osho. A autora, como outros tantos compositores de baralhos de tarot, cometeu algumas arbitrariedades muito radicais em determinadas cartas, ao mesmo tempo que muito inspiradoras em outras. As belas imagens dos seus desenhos tornam o Osho Zen um baralho que, definitivamente, não é indicado para iniciantes. É preciso certa intimidade com as obras de Osho e com a própria filosofia zen, além de um conhecimento bem aprofundado sobre o simbolismo do tarot para perceber o que está sendo enfatizado em cada arcano. 

O Mago, aparece enfatizado
em sua conexão com o todo.
A primeira ousadia de Padma foi a de retirar o nome tradicional dos arcanos maiores. Assim O Mago virou Existência, A Sacerdotisa, Voz Interior, A Imperatriz, Criatividade, O Imperador, Rebelde e por fim uma das mais polêmicas, O Hierofante virou Não-materialidade. Nessa carta especificamente ela desenhou um quadro negro absoluto com o título abaixo. No zen o negro representa a experiência do vazio como a mais profunda vivência espiritual. Parece mais do que claro que ela enfatizou as qualidades de valorização do mundo sutil e dos valores intrínsecos de O Hierofante. Deixando as características de amigo, sábio, conselheiro e terapeuta para uma outra carta intitulada de O Mestre. A autora bifurcou o significado do quinto arcano do tarot para homenagear seu mestre. Eu desconsidero totalmente essa carta, que seria uma espécie de 23º arcano maior não numerado, assim como O Louco. Embora a estrutura geral do tarot seja mantida essa carta a mais deixa o baralho com 79 e não 78 cartas. Mais um motivo para descartá-la! Ela não ocupa nenhuma posição realmente necessária a não ser a de atender a um capricho de sua criadora.

As ousadias continuam, depois de Os Amantes, que junto com O Louco são as duas únicas cartas que mantém o seu nome tradicional, vem O Carro, rebatizado de Consciência (em inglês awareness, no sentido de estar ou tornar-se consciente). Aqui o sentido de avanço e novos começos proposto pelo sétimo arcano ganha uma conotação mais espiritual com o despertar do Buda interno que rasga os véus de maia, a ilusão. Em seguida A Justiça é transformada em Coragem e uma frágil margarida toma o lugar da mulher firme e determinada empunhando uma espada e uma balança. A mensagem de verdade e retificação aqui é transferida para o sentido de “seja você mesmo, assuma sua verdade interior!”. A pequena flor brota em meio às pedras enfrentando as intempéries. Os outros arcanos maiores ficam assim: O Eremita/Solitude. A Roda da Fortuna/Mudança, A Força/Ruptura, O Enforcado/Nova Visão, A Morte/Transformação, A Temperança/Integração, O Diabo/Condicionamento, A Torre/Relâmpago. A Estrela/Silêncio, A Lua/ Vidas Passadas, O Sol/Inocência, O Julgamento/Além da Ilusão, O Mundo/Completude e O Louco, como ele mesmo.

O Enforcada sob uma Nova Visão.
Especialmente rica foi sua reinterpretação de O Enforcado, onde um homem não aparece enforcado, mas sim prostrado no chão e em seguida erguendo-se às alturas do universo. Um novo símbolo para o significado de que a angústia e o sofrimento encarados sob nova perspectiva ampliam nossa introvisão, uma Nova Visão. O mesmo ocorre no arcano de O Diabo, onde a besta assustadora e chifruda dá lugar a um leão em pele de ovelha, representando nossa fera interior castrada e amordaçada pelas condutas sociais repressoras. Aqui ela é uma vítima e não a vilã. Está condicionada, como diz o seu título.
Nos arcanos menores os nomes dos naipes foram renomeados para Fogo, o naipe de paus, Água, o naipe de copas, Nuvens, naipe de espadas e Arco-íris, o naipe de ouros. Os dois primeiros não precisam de muita explicação, mas os dois últimos sim. A mente é oscilante e enganadora e por vezes nubla nossa perspectiva ao ponto de imaginarmos que os problemas não têm fim, assim como as nuvens quando toldam a luz do sol criando uma falsa noite. A mensagem é: não ligue para isso, é só uma armadilha da mente. No naipe de ouros o arco-íris serve como a imagem da integração do céu com a terra. No zen budismo é muito comum a ideia de que é aqui no mundo prático que se dá toda evolução. Sendo assim o naipe de ouros não é apenas o arauto da riqueza material, mas também da espiritual. O elemento mais holístico, que sintetiza as melhores possibilidades dos outros.

O cinco de espadas do Osho Zen 
Tarot comparado ao Rider-Waite

Há duas cartas dos arcanos menores que para mim simbolizam bem a genial "sacação" de Ma Deva Padma, são o Cinco de espadas e o Seis de copas. Nesse arcano de espadas muitos autores enxergam a imagem da negatividade humana, da derrota e da cobiça. Padma desenhou isso na forma de um bambu e um carvalho que parecem estar se comparando e seu o nome é justamente Comparação. Palavra que sintetiza o que foi antes descrito com a clara ideia de inveja, mas com a mensagem de que devemos aceitar nossas diferenças, valorizando nossa singularidade.

O seis de copas do Osho Zen Tarot 
comparado ao Rider-Waite.

No Seis de copas, normalmente interpretado como lembranças do passado ou busca por prazer, ela desenhou uma moça divagando sobre um provável romance e deu a carta o nome de O Sonho, significando uma idealização irreal do passado, do futuro ou mesmo do prazer e da felicidade. Ideal esse quase nunca alcançado e que por isso mesmo impede a realização no aqui agora... Excelente reflexão.
O livro que acompanha o baralho é despretensioso, e por isso mesmo pouco explicativo sobre a simbologia apresentada. Ainda assim eu aconselho o Osho Zen Tarot como um desafio à percepção mais profunda e como um mergulho nos ensinamentos do zen budismo.

Confira a apresentação o baralho no Clube do Tarot
Veja a galeria completa dos arcanos do  Osho Zen Tarot
Leia a entrevista com a autora Ma Deva Padma

4 comentários:

  1. Ganhei esse baralho ano passado, tenho achado muito interessante em certos questionamentos, ou melhor, como forma de taroterapia.

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    1. Desde que conheci o Osho Zen tarot eu não uso mais outros! Tem sido minha paixão mais duradoura... Obrigado por seu comentário! Um grande abraço!

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  2. É difícil não correlacionar esse baralho ao seu trabalho, Jaime. Você é referência no mergulho nessas cartas, sempre. Abraços e parabéns!

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    1. Obrigado meu querido, semre tão generoso comigo! Por onde anda você?... Não o encontro mais no Facebook? Um grande abraço!

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