sexta-feira, 13 de março de 2015

Cartas da Corte - As Máscaras da Psique


O Valete de ouros, do
Visconti-Sforza tarot.
Elas compõem o conjunto dos arcanos menores e representam uma dificuldade para quem está se iniciando na linguagem simbólica do tarot. Como interpretá-las? As Cartas da Corte podem representar nossas posturas diante dos grandes acontecimentos arquetípicos simbolizados pelos 22 arcanos maiores. Em outro momento podem representar pessoas com quem contatamos em nossa rotina e que representam as qualidades que temos dificuldade de incorporar em nossas vidas! E podem ainda representar acontecimentos práticos, como as quarenta cartas numerados dos quatro naipes nos arcanos menores. A dúvida então permanece: como encarar seu aparecimento numa leitura? Qualquer professor ou leitor sincero de tarot dirá que não há outro meio de distinguir a definição de um símbolo a não ser intuitivamente! Os sistemas de leitura podem ajudar caso as cartas da corte apareçam, por exemplo, nas casas de ar ou água numa mandala astrológica. Sabemos, porém, que isso tem variáveis bem significativas. Já identifiquei pessoas sendo representadas nas casas IX. X e XII... No trabalho com uma linguagem simbólica tão propensa a sugerir infinitamente quanto o tarot qualquer emprego de artifícios técnicos terá limitações. A ideia de que uma técnica de leitura pode ser desenvolvida e funcionar sempre, como ocorre com a leitura do mapa astrológico, é bem difundida por ser comercialmente interessante. Ela vende cursos, atrai alunos! Deparei-me dias desses com um anúncio na internet que dizia que não era preciso ser sensitivo para ler o tarot, bastava ter boa vontade! Como sempre reafirmo que todos nós podemos aprender a desenhar, mas ninguém como Da Vinci. Todos nós podemos escrever versos, mas ninguém como Dante! Haverá, é claro, aqueles que dirão que não têm essa pretensão... A eles digo: já viram aqueles programas de calouros musicais? Onde candidatos fazem quase chorar os jurados com suas vozes esganiçadas nas primeiras eliminatórias e, ao serem rejeitados e confrontados com o fato óbvio de que não possuem nenhum talento, caem aos prantos dizendo: “Mas esta é minha vida! Nasci para fazer isso!”? Pois é, durma-se com um barulho desses! Os aprendizes de sistemas simbólicos são assim também. Dois bons termômetros para testar essa capacidade é a prática com as pessoas, e o retorno que elas lhe trazem, e a sua capacidade ir ampliando o significado dos arcanos não só racional e intelectualmente, mas também através de suas percepções intuitivas. Nunca deixe de ler sobre tarot, mas nunca deixe de ouvir sua Voz Interior, esse é meu conselho!
O Rei (Homem) de copas,
do Voyager tarot.
Voltando para as cartas da corte, eu costumo sempre encará-las como uma postura do indivíduo sobre uma situação, mas esse é só um começo. Sua posição no jogo, sua interação com os demais arcanos, e meus “saltos” intuitivos me dirão se é outra coisa ou algo mais! Na antiga ordem inglesa Golden Dawn eles associaram as Cartas da Corte aos quatro elementos. E assim, Reis foram associados ao elemento Ar, as Rainhas ao elemento Água, os Cavaleiros ao Fogo e os Valetes, ou Pajens ao elemento Terra. Porém, como cada um desses personagens da corte aparecem em todos os quatro naipes haverá uma interação simbólica muito interessante dos elementos entre si. Já explorei esta relação simbólica no artigo Arcanos Menores - Os Mensageiros da Alma, mas é sempre bom rever e refrescar a memória não é?

- Rei de paus = Ar do fogo. Rei de copas = Ar da água. Rei de espadas = ar do ar. Rei de ouros = Ar da terra. 

- Rainha de paus = Água do fogo. Rainha de copas = Água da água. Rainha de espadas = Água do ar. Rainha de ouros = Água da terra. 

- Cavaleiro de paus = Fogo do fogo. Cavaleiro de copas = Fogo da água. Cavaleiro de espadas = Fogo do ar. Cavaleiro de ouros = Fogo da terra. 

- Valete de paus = Terra do fogo. Valete de copas = Terra da água. Valete de espadas = Terra do ar. Valete de ouros = Terra da terra. 

Ilustração medieval sobre os quatro
símbolos alquímicos dos elementos.


Esta relação, que também envolve ciclos astrológicos que não explanarei aqui neste texto, fará com que cada arcano da Corte seja regido por um ou dois elementos. O Rei de paus, por exemplo, é o Ar do Fogo, ou seja, o pensamento (Ar) expansivo (Fogo). Inteligente, ativo, franco, direto, autoconfiante. Regido por dois elementos masculinos, Ar e Fogo, que enaltecem essas suas qualidades. Falta-lhe, porém, a Água e a Terra, e isto fortalece suas deficiências.  A falta de Água o torna pouco sensível à subjetividade emocional dos outros, do tipo que diz: “Pare com isso, é frescura!”. A falta de Terra o faz desconhecer limites, o que é muito bom para que ele cresça e se desenvolva por um lado, mas por outro lado o torna intransigente e arrogante. Assim acontecerá com todas as demais Cartas da Corte e seus respectivos elementos regentes.


As Cartas da Corte do baralho espanhol.

Quatro cartas terão apenas um elemento regente. São elas o Rei de espadas (Ar do Ar), a Rainha de copas (Água da Água), o Cavaleiro de paus (Fogo do Fogo) e o Valete de ouros. (Terra da Terra). Nesses casos as qualidades do elemento em questão ficarão muito exaltadas. Mas as deficiências aumentam. Se tomarmos como exemplo o Valete de ouros, teremos a Terra da Terra, com profundidade, cautela, seriedade, capacidade de desenvolvimento e aprendizado, por um lado, mas com falta de agilidade mental e rapidez (Ar), criatividade e impetuosidade (Fogo), e a carência de uma sensibilidade mais profunda para ver um propósito maior nos seus investimentos (Água). A relação com os elementos e a compreensão dos seus significados tornarão esse entendimento mais fluente, por isso releia o texto sobre os arcanos menores clicando no link do título que aparece mais acima.

                     O que O Louco Faz Aí?

O Louco, um membro
desgarrado da corte.
Do 1 JJ Swiss tarot.
É interessante notar que dentro das cortes medievais a figura do bobo integrava a corte como um serviçal do rei, mas no tarot ele está entre os arcanos maiores, o que denota a complexidade do seu arquétipo. Ele representa o próprio viajante ao longo dos arcanos maiores, e por que não dizer também dos menores! Uma grande, mas pouco comentada contribuição para a interpretação dos arcanos menores do tarot, foi dada por Juliet Sharman-Burke e Liz Greene em seu Tarot Mitológico. Elas mostram neste baralho que a viagem de O Louco continua ao representar uma sequência de acontecimentos no simbolismo das cartas de naipe. Assim, cada naipe conta a aventura de um herói grego. Paus conta a história de Jasão, copas o mito de Eros e Psique, espadas a tragédia da Casa de Atreu, e do herói Orestes. Ouros, por fim conta o mito do maior inventor do mundo, Dédalo. As personagens das Cartas da Corte são outros heróis míticos que de alguma forma estão relacionados ao mito principal dos arcanos menores. O Rainha de copas, por exemplo, é Helena de Troia, prometida à Paris pela deusa Afrodite que é também a iniciadora de toda a trama ocorrida neste naipe, e assim por diante. Vemos deste modo que existe uma viagem arquetípica pelo simbolismo dos arcanos menores, e que O Louco transita por entre esses mundos como a própria consciência tem a propriedade de acessar dimensões que o corpo não pode, mas que no plano espiritual pode ser definida como uma jornada de evolução!

O texto abaixo foi publicado no Clube do Tarot em Novembro de 2008, e complementa bem o texto acima. E não, não deu pra ser mais criativo no título!
Cartas da Corte 
- As Máscaras da Alma -

Entre os setenta e oito arcanos do tarot há um delicado equilíbrio entre os três níveis de seu corpo simbólico que deve ser entendido e respeitado para que seu máximo potencial de análise, diagnóstico psíquico, ou predição seja aproveitado.

O Rei (Pai) de espadas (vento),
do Tarot of The Spirit.
O primeiro conjunto de arcanos (Mistério ou segredo em latim) tem vinte e dois trunfos e simbolizam os grandes estágios de desenvolvimento tanto espiritual quanto psicológico. Seu simbolismo complexo e profundo alude às vivências humanas de maior significância e poder transformador: Morte, paternidade, amor, sexo, ego, lutas, conquistas, decisões, ruínas, etc. O segundo nível de símbolos são as dezesseis cartas da corte, elas são as máscaras que nós homens usamos para enfrentar esses grandes acontecimentos. Seriam as múltiplas personas (Máscaras em grego) das quais nos utilizamos em diferentes momentos da vida. Isso pode ser verificado no seguinte questionamento: Você é a mesma pessoa no convívio familiar e profissional? Claro que não! Usamos uma faceta doce e amorosa quando estamos apaixonados, que não é a mesma quando temos de falar com um funcionário sobre uma atuação sua que nos contrariou. Se na primeira situação usamos uma Rainha de paus, amorosa quente e sensual, na segunda usamos um Rei de espadas, firme e objetivo exercendo a sua liderança.
Por fim há as quarenta cartas dos arcanos menores numerados de um a dez nos quatro naipes (Há uma tese que diz que essa palavra vem do árabe e sua tradução é mensageiro). Esses últimos revelam o impacto deixado na vida prática pela combinação de eventos mais a atuação pessoal.


Arcanos maiores e menores interagem
livre e intensamente na leitura.

Um exemplo pode ilustrar melhor esse fato. Digamos que a carta de A Morte revele uma perda muito dolorosa na vida profissional, um ciclo terminou num local de trabalho que a pessoa em questão amava muito e nenhum novo começo se apresenta. Contudo essa pessoa agiu como um Rei de paus, extremamente otimista agradeceu as homenagens que recebeu, despediu-se dos colegas e, com certeza agiu assim porque sentiu naquele momento que se lamentar poderia ser piegas e a típica atitude de um fracassado! Como consequência essa pessoa passou a viver um Cinco de copas, lamentado o passado, mas sempre apegada a ele fazendo com que a vida presente se tornasse insípida e sem nenhum prazer. É evidente que as cartas não saem nessa sequência, mas esse exemplo demonstra bem a interação dos símbolos tarológicos em suas respectivas funções.
Existem ainda outras funções das cartas da corte, elas podem, por exemplo, representar pessoas que se relacionam com o cliente, amigos, pais, irmãos, colegas, amantes... Uma outra visão desses arcanos, aplicada principalmente por quem se utiliza do tarot apenas como um instrumento de cartomancia, vê na corte acontecimentos análogos aos naipes que pertencem bem como ao seu perfil psicológico. Vamos mais uma vez nos utilizarmos do Rei de espadas, que no início desse artigo mostrou sua faceta firme e autoritária, ele pode também revelar a assinatura de contratos ou acordos. Vemos aqui a combinação do elemento ar, cujo representante esotérico no tarot é o naipe de espadas e que tem como atributos a palavra escrita ou falada, a razão, a lógica, e o esclarecimento, com a figura do rei, forte, importante e decisivo.


As cartas do naipe de ouros do baralho espanhol.

Com certeza você deve estar pensando que as coisas ficaram complicadas agora. Bem, a interpretação dos arcanos tem lá o seu grau de complexidade. Essa dificuldade pode ser atenuada pelo sistema de leitura escolhido, as posições dentro do contexto do jogo definirão do que as cartas da corte estão falando afinal.
A abordagem da qual você se utilizará para aplicar as cartas também será de grande ajuda. Vale lembrar que o tarot serve tanto os propósitos de elevação da consciência e reflexão dos acontecimentos dentro de uma perspectiva de desenvolvimento e evolução, quanto para uma sondagem puramente factual e prática sobre os eventos do passado e do futuro para resoluções bem materiais. Por fim a intuição é o guia decisivo e insubstituível que distinguirá mais precisamente a função do arcano da corte e sua interação com os demais símbolos tarológicos.

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