quinta-feira, 17 de março de 2016

Qual Tarot Você Usa?


O Diabo XV, Condicionamento, 
do Osho Zen tarot 
de Ma Deva Padma.
Por mais que se tenha explicado isso, e por mais irritante que seja essa pergunta, ainda há aqueles que a façam, e mais do que isto, a fazem com ares professorais! Como se quem não soubesse de nada é quem está sendo inquirido! Embora essa pergunta impertinente pareça merecer uma resposta assertiva do tipo: "O que interessa que baralho eu uso se afinal quem vai fazer a leitura sou eu?", a questão é mais profunda. Bem, então vamos lá... Exploro esse tema melhor no meu livro Tarot para a Autotransformação e a Cura, mas posso começar dizendo que todos os baralhos de tarot se originam de um mesmo baralho, concebido provavelmente na Idade Média, e que representava toda a sociedade e o mundo da época. Essa despretensão em tornar esse baralho um oráculo fez com que ele funcionasse como um instrumento projetivo das imagens do inconsciente de toda a humanidade em todos os tempos! O tarot de Marselha é o remanescente mais próximo desse conceito original de todos os baralhos que vieram a seguir. Mais adiante suas imagens foram “modernizadas” e também a expressão do seu simbolismo. 
O 5 de ouros do
1JJ Swiss tarot.
O 5 de ouros do
Rider-Waite tarot.
Uma excelente contribuição nesse sentido foi dada por Arthur Edward Waite ao lançar em 1910 o seu o Rider-Waite em que foram modificadas as representações usuais dos arcanos menores dos jogos medievais, como no cinco de ouros, por exemplo, que era apresentado friamente com cinco moedas desenhadas na carta. Foi então substituído por uma imagem dramática em que um casal de mendigos vaga pela neve sem sequer o amparo espiritual ou altruísta da igreja. De fato uma imagem mais condizente com os significados de perda, carência e debilidade deste arcano. A partir disso inúmeros baralhos de tarot começam a carregar em si as “releituras” de seus autores dos símbolos tradicionais dos tarots ancestrais, e do próprio trabalho de Waite. Inicia então a confusão! Os autores passam a enfatizar os significados que lhes parecem mais pertinentes ao simbolismo dos arcanos. Em meados do século XX o tarot ganha nuances psicológicas e logo há os que afirmam que ele é apenas um instrumento de investigação do inconsciente mais do que de divinação... Surgem os baralhos que são "destinados" ao trabalho de autoconhecimento.


A Saída das Sombras

As muitas releituras do simbolismo do tarot ampliaram as possibilidades
de interpretação de seus significados sem, no entanto, ter o poder
de fazer qualquer uma delas se tornar a visão definitiva, "verdadeira"
ou a única a ser considerada ou aceita.

Por um lado esse movimento ajuda a tirar do tarot os ares obscuros a que ele vinha sendo associado nos séculos anteriores, mas mudou muito da sua representação. Os autores ao enfatizar os significados aos quais eram mais simpáticos mudavam também sua representação artística. O que acabou fazendo com que muitos baralhos ao serem comparados entre si, ou a uma imagem clássica do tarot, não lembrassem em nada seu ancestral da Idade Média. Com a demanda do mercado por cada vez mais novidades na área da tarologia, que teve uma explosão nos anos 70 e 80 do século XX, aparecem os baralhos temáticos e multiculturais como o Xultún, o primeiro transcultural na verdade, o Mitológico, o Nórdico, Xamânicos de toda a espécie, Xintoísta, etc. Os livreiros para venderem seus produtos começam a descrever na capa de apresentação dos seus lançamentos coisas como: “O verdadeiro tarot da tradição”, “Um jogo transcendental”, “O tarot sagrado da Deusa”, e coisas assim. Aumentando ainda mais a confusão na cabeça de leigos tanto quanto na dos interessados no tema. Dias desses uma mulher me ligou pedindo informações sobre meus atendimentos (embora esteja tudo explicado no meu blog na página “Consultas”). Na verdade ela queria saber qual o baralho que eu usava nas minhas sessões. Respondi que usava já há muitos anos o tarot Zen, ao que ela complementou, “do Osho”? Sim respondi, ela seguiu com seu desfile de ignorância, mas com a entonação de uma grande conhecedora: “Mas esse tarot é mais para reflexão, não é? Não trabalha com o Crowley?”. Respirei fundo e tentei explicar para ela que eu já tinha trabalhado com uma miríade de baralhos diferentes, e que isso não interferia na leitura. Ela concluiu com um ar jocoso dizendo: “Ah tá, depois te ligo então pra marcar”. E nunca mais...! O mesmo tarot de Crowley que ela preferia é justo um dos que tem mais resistência das pessoas pelo mesmo tipo de ignorância quanto à linguagem simbólica.

O Thoth tarot, alvo constante tanto de ataques
quando de adoração... Ambas reações exageradas!

Conversando com uma pessoa interessada em tarot ela me disse que se sentia muito atraída por esse baralho, mas que amigos e conhecidos diziam para ela o evitar porque ele era denso, que o mago que o fez era um louco, viciado e devasso, e de fato era! Mas e daí? Todos os símbolos que compõem o Thoth tarot de Aleister Crowley não são dele. Crowley parecia obcecado pela ideia da grande Besta e das sombras, todos conceitos que nasceram com o monoteísmo e com a Inquisição. Os símbolos do pentagrama, dos chifres e do cetro, por exemplo, que aprecem inúmeras vezes nesse tarot, são pré-cristãos e, portanto, politeístas. Foram os inquisidores que viram no pentagrama invertido os chifres do diabo. Muito antes disso Pitágoras via nesse mesmo símbolo o homem em desequilíbrio. O que Crowley fez foi dar a sua visão sobre esse símbolo, o que não o limita de modo algum. Isso é impossível! O inconsciente reconhece os seus símbolos e responde a eles. O que pode ocorrer é o leitor se limitar por sua própria consciência obstruída por seus conceitos críticos equivocados, o que já não tem nada a ver com a tarologia!


A Linguagem Simbólica 
em sua Totalidade

A liberdade artística na criação de
baralhos foi tão longe que muitos
não lembram em nada o simbolismo
original do tarot como este: A Sacerdotisa II, 

do Wooden tarot de A.L. Swartz.
No Osho Zen tarot sua criadora, Ma Deva Padma, apresenta o arcano de O Diabo como um leão com pele de ovelha. Essa imagem se refere a uma antiga história zen em que um leão é criado com um rebanho de ovelhas e assim vive por anos, até que um dia um leão mais velho vendo aquilo se choca. Avança sobre aquele iludido que berra como uma ovelha assustada. O leão velho então o coloca de cara a um espelho d’água e o faz olhar para seu reflexo, dizendo: “Olha, você é isso, um leão! Não uma ovelha!”. Essa história alude aos condicionamentos em que muitos vivem, negando sua real natureza e potencial intrínsecos. Uma linda história e simbologia que nos faz ver que O Diabo do tarot tradicional também tem um lado lúdico e divertido que devemos explorar e brincar com ele. Que precisamos de nossa fera interior para realizar coisas, e que ela pode nos trazer muito prazer e diversão. Nem por isso deixo de ver nas leituras que O Diabo também representa muitas vezes servidão aos instintos inferiores, abuso de poder, malícia e maldade. O mesmo leão que simboliza força e nobreza, também é a imagem arquetípica dos instintos brutais da natureza humana, tão bem representado em histórias míticas mais antigas que a da tradição zen, como a do Leão de Nemeia da mitologia grega. Uma fera violenta e implacável que habitava uma caverna escura. A leitura feita por Deva Padma traz a tona um viés luminoso desse símbolo, mas de modo algum elimina sua totalidade arquetípica! E se eu me limitasse a ver esse arcano apenas como a autora o apresenta, faria também leituras limitadas!
Romper com os próprios
paradigmas pode ser
perturbador, mas também
libertador. A Torre XVI,
do Soprafino tarot.
Sendo assim reitero mais uma vez que NÃO IMPORTA O TAROT QUE VOCÊ USA, ou que qualquer tarólogo use, o que importa mesmo é o uso que se faz dele e a afinidade com suas imagens! Você pode fazer uma leitura puramente psicológica usando o tarot de Marselha, por exemplo. Como pode fazer previsões usando o Osho Zen tarot! Quem define isso é você, e não o autor do baralho e muito menos o livreiro que só queria mesmo é criar uma frase de efeito para vender seu produto. A propósito, eu mesmo faço prognósticos com o tarot Zen! Voltando ao exemplo do Thoth tarot, veja que seu criador era um homem obcecado pelo lado obscuro da magia e do poder. Curiosamente seu baralho foi usado como base para a abordagem terapêutica do tarot por autores como Gerd Ziegler, Veet Vivarta e Veet Pramad em seus respectivos livros: Tarot – Espelho da Alma, O Caminho do Mago – Uma Visão Contemporânea do Tarot e Curso de Tarot e seu Uso Terapêutico.  Todos excelentes, e que não possuem absolutamente nada da obscuridade de Crowley porque seus autores se detiveram na totalidade da visão simbólica, e não nas releituras do seu criador!
Por esse motivo é que muitos autores e professores de tarot, como eu, insistem para que se inicie a aprendizagem do tarot por sua linguagem clássica original, e depois se vá explorando as reinterpretações feitas por criadores de outros baralhos. Suas releituras sempre são enriquecedoras, mas não podem ser alienadas da origem simbólica do tarot do qual, enfim, todos descendem.  E você, que acha inteligente saber que tarot um tarólogo usa em seu trabalho, saiba que isso é um atestado de pura ignorância e preconceito que só mostra o quanto você ainda precisa estudar, refletir e ampliar sua visão interior sobre a simbologia, tanto quanto sobre as linguagens do saber oculto.

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