quarta-feira, 5 de abril de 2017

Lilith - A Senhora das Sombras

O texto que se segue foi publicado pela primeira vez no jornal Athame, de Porto Alegre, em Agosto de 1998. Um amigo o encontrou na internet nas "Melhores respostas do Yahoo" e então pude resgatá-lo! O apresento hoje sem nenhuma reedição ou retoque na ideia original, mas com apenas algumas correções ortográficas. Continuo concordando com o motivo central que exalta a urgência da transformação de uma arcaica consciência masculina ainda dominante, mas reconheço que um gigantesco passo já foi dado na direção dessa transformação, haja visto a grande quantidade de homens que tem me procurado para leituras de tarot e trabalhos terapêuticos; e mais do que isso, se envolvido ativamente na transformação planetária... 
Espero que os leitores de hoje o apreciem!  
Eva, a segunda esposa de Adão...

A Senhora das Sombras...

Pesquisar o mito de Lilith foi uma das experiências intelectuais mais instigantes e fascinantes de minha vida. Nesse mito encontrei muitas respostas para o comportamento humano, extremamente manifestado no sexo masculino, de temer o mundo oculto e perverter a sexualidade. No estudo, que conclui há três anos fiz questão na ocasião, como faço agora, de buscar uma analogia com parâmetros históricos na formação das grandes religiões mundiais e seus conceitos morais intrínsecos.
Lilith é mais abordada no Talmud, o sagrado Livro do Judaísmo. Lá encontramos um Adão diferente do que a cultura cristã nos fez acreditar. Seu nome era Adão-Enkidu, andrógino, meio animal e sem par. Esse Adão pouco aceitável para nós, mantinha relações sexuais com animais, andava nu e solto pelo mundo do Criador. Após um longo período de solidão ele sente falta de uma parceira, esta lhe aparece em sonhos e comunga com Adão nos impulsos bizarros para o sexo. Outra versão conta que Deus estava com sua criação quase pronta, então ele criou os répteis, os insetos e por ultimo os demônios, pois já era o fim do sexto dia. Assim sendo, Lilith nasceu no cair da noite de uma Sexta feira e dissipou-se da criação antes do raiar do dia de Sábado. Sua ruptura com a criação se deu devido a um fato insólito, aparentemente, mas com uma grande riqueza simbólica: Adão-Enkidu foi deitar-se com sua parceira tão sonhada. Na hora da cópula, ela recusou-se a submeter-se ao seu parceiro, o homem. Segundo as escrituras, a primeira mulher questionou porque deveria ficar por baixo durante o ato da cópula. "Não sou eu também filha dele, por que devo ficar por baixo e tu por cima?" E o primogênito de Deus retrucou: "Porque meu Pai assim o quis". Nesse momento nasceu a Senhora das Sombras, aquela que desejava ser igual ao primogênito do Senhor e não aceitava ser subjugada, nem por ele nem por ninguém. Aquela que desejou transgredir a ordem, que não aceitou as explicações dadas, nem os fatos apresentados.

Conflito Alma e Corpo

Este trecho da historia oferece mais do que aparenta. Entendo o ficar embaixo mais do que uma posição para o ato sexual; aparentemente trata-se da natureza animal do homem querendo tomar sua consciência espiritual. O mito de Lilith é uma figuração (em minha opinião) do eterno conflito entre a alma humana que busca a ascensão, por ser esse seu propósito maior, e o corpo primitivo, cheio de impulsos bestiais. Esse drama é inerente ao contexto humano e as religiões monoteístas apenas acentuaram esse ponto de discórdia.
Lilith, a representação mágica,
e bestial, da noite...
Conta-nos o Talmud que o Adão-Enkidu, antes do aparecimento de Lilith e posteriormente de Eva, mantinha relações sexuais com os animais. Deus por sentir-se repugnado com o comportamento daquele que deveria ser a sua maior obra, o proibiu de fazê-lo. Pessoalmente, duvido que uma forca criadora, responsável pela criação e manutenção de bilhões de estrelas e de mundos diferentes do nosso, estivesse preocupado com a estrutura moral de cada sociedade. A moral apenas é um conceito que mantém sob controle a besta em cada um. A mitologia em todas as culturas e religiões sempre segue o mesmo padrão: criar símbolos para comunicar um fato real adornado em todas as sensações que dele derivam. Os pastores nômades do Oriente Médio mantinham relações sexuais com animais quando não tinham condições de ter uma esposa. Esse impulso sem nenhum freio tornou-se uma compulsão.
Nenhum homem totalmente livre é administrável no plano físico; porém, se colocarmos a par dos desígnios superiores, de uma força ou Deus que tudo vê, ele irá refletir. No caso dos pastores, eles temeram. A moralidade é exatamente isso, um profundo sentimento de que esse ou aquele comportamento estão errados, não são normais. Normal é tudo aquilo que anda conforme as normas sociais. As normas de Deus na boca dos profetas antigos era igual a nossa.
A energia sexual, por seu enorme poder energético incontrolável fez do homem primitivo um ser grotesco, portanto penso que o lamentável evento da culpa sexual foi o meio mais próximo, na época, que os antigos lideres espirituais dos clãs encontraram para fazer parar a fúria dos fornicadores. Até que a humanidade encontrasse outra forma de trabalhar essa energia.

Não Somos Animais, 
Somos Homens!

O sexo com animais manifestou o lado mais obscuro dessa força dentro de cada homem e mulher no planeta. Os que se acharam incomodados com esse comportamento não estavam sob o efeito de nenhum preconceito embutido pela sociedade em suas mentes, já que isso era inexistente. Muito provavelmente foram tomados por uma intuição: Não somos animais, somos homens! E quem de nós poderá afirmar que essa intuição tenha ou não vindo de uma mente superior? Somos almas que se individuaram do grande coração divino e não há nada de errado com o sexo, o erro está na perversão de qualquer força. O instinto e a animalidade começaram a ser temidos. No Antigo Egito os deuses com cabeças de animais podiam ser bem mais cruéis do que os representados em forma humana unicamente. A maior parte dos demônios (que eram entidades espirituais) eram representados por metade feras, metade homens.
Essas entidades amorais foram largamente adoradas na Arcádia e na Suméria. Propunham prazer, êxtase e poder a qualquer um e a qualquer custo. Essa era a manifestação do homem-besta, que vivia apenas externamente como quem luta pela sobrevivência. Obviamente surgiram aqueles que tentaram (e conseguiram) usar esse temor do Deus único como uma forma de extorsão de outra grande forca, a Fé. Assim sendo o homem foi deixando para trás sua natureza mais livre e sua profunda identificação com a natureza.


Muitas representações de animais simbolizam as experiências
internas do homem. O Cavalo alado assinala a ampliação
da consciência a um patamar superior.

Pouco a pouco seus deuses com formas animais deixaram de ser importantes, dando lugar à idolatria do próprio homem. Chegamos, então, a uma Era em que não mais nos sentimos irmanados com a natureza, e os animais, destruindo-os sem a consciência plena de que destruímos a nós mesmos.
Conta, ainda, a alegoria mítico-religiosa que logo após a rebelião Lilith fugiu para as praias do Mar Vermelho, e lá, dentro de cavernas paria cem demônios por dia. Lutou contra os anjos do Senhor e amaldiçoou a humanidade... Realmente, os conflitos e dramas gerados entre o espírito humano e seu veiculo físico foram uma verdadeira maldição por milhares de anos e talvez ainda o seja. Resta ainda aqui uma última indagação a qual não encontrei respostas: Lilith também foi criada só em espírito, não tendo lhe sido dado um corpo. Seria a questão da elevação da energia sexual uma questão inerente ao trabalho evolutivo do espírito? Ou somente uma inspiração da mente superior da atormentada raça humana que busca sensações em meio a rompantes profundamente destrutivos? A concepção de elevação da energia sexual mais perfeita nasceu na Índia e foi chamada Kundalini. Os iogues orientais comprovaram que, mais do que orgias, se podia também elevar a consciência a um ponto nunca alcançado pelo homem mediano, obtendo assim conhecimento superior.

O Feminino Incompreendido

Como pesquisador, uma duvida perseguiu-me por muito tempo: Por que a mulher foi de tal forma associada a todas as forças malignas do mundo? Lilith era um espírito feminino e, mesmo Eva encarnada teve como responsabilidade uma espécie de traição a Deus. Buscar apoio nas pesquisas históricas nem sempre é o que basta. Haja visto que a Historia não é um estudo de alta precisão dos fatos. Quando se busca um fato histórico deve-se tentar pensar sem o esclarecimento intelectual do agora, somente assim nos aproximamos da consciência, inúmeras vezes mais pura, do homem primitivo.
A alienação das experiências do feminino
fez com que por muitos séculos o
homem também se alienasse da
essência espiritual da vida.
Imaginemos esse homem em suas primeiras ações para formar uma sociedade. Com mais tempo com seus iguais e já possuidor de algumas faculdades intelectuais ele pode observar mais atentamente alguns fenômenos da vida. A gravidez, a menstruação, o aleitamento e o crescimento dos homens que saiam de dentro das mulheres, provavelmente o intrigava. Completamente inconsciente de sua participação nesse fenômeno, começou a atribuir as mulheres um poder mágico, uma faculdade secreta que lhe era negada. A presença do sangue na menstruação o apavorava, o sangue era visto nas caçadas e nas lutas tribais como signo da morte. A ideia do sangramento causava-lhe pânico. Como aquele ser podia sangrar sem morrer? Seria uma criatura aparentada com a morte, e mesmo assim possuidora de poderes sobre a vida? Em minha opinião esse era o inicio do patriarcado feroz. Mesmo nas sociedades embasadas no culto a uma Deusa como entidade maior, era o homem que regrava a disposição geral da família. Toda ideia da mulher traiçoeira, mentirosa e fútil nascia ai. Também de que os poderes místicos que elas possuíam eram exclusivamente femininos.
A imagem arquetípica do feminino passou por muitas projeções do homem que, afinal, sentia-se atraído por elas. Esse ser misterioso deveria ser domado antes de possuído. Mulheres, mães, prostitutas, bruxas e serpentes foram uma só; e assim foram esmagadas com sua beleza também. Hoje essas histórias mais parecem um retrato bizarro do passado, e realmente o é. A feminilidade está desmitificada e sabemos que seus poderes não funcionam sem os atributos masculinos e vice versa. A intuição e o psiquismo são atributos da mente cósmica, abertos a todos que desejarem comungar com essa poderosa força. A vida e a morte estão dentro de todos nos. As bruxas, místicas e feiticeiras tão renegadas ao papel de projeção do lixo emocional dos homens, hoje buscam sua faceta mais sagrada. Aos homens cabe encontrar o seu lugar nessa dança cósmica. A Mãe Misericordiosa do Universo os aguarda de braços abertos. Para finalizar quero sublinhar meu respeito à esse mito fantástico da Lilith que retrata com clareza o feminino incompreendido do mundo. 

Leia também: Anjos & Demônios no Tarot   


Observação: Na astrologia Lilith é um aspecto que revela nosso poder oculto, e também as vivências infantis não desenvolvidos! É conhecida como Lua Negra. No tarot tem relação com os arcanos de O Diabo XV, e de A Lua XVIII que, respectivamente, representam a sexualidade primal da psique, os medos inconscientes e os temas não resolvidos da alma. Na numerologia relaciona-se com o número 11, que tanto rege a aspiração da alma às alturas quanto seu aspecto transgressor, já que o 11 é a cifra que decidiu existir após o 10, que representa a perfeição do Deus Criador!

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