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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Tarot e o Caso Sharon Tate


O sistema completo de A Cruz Celta com os mesmos arcanos que
foram interpretados por Patricia McLaine, prevendo o
crime terrível contra Sharon Tate em 1969.

O caso mais emblemático da história recente do tarot foi a leitura de *Patricia McLaine para uma amiga próxima da atriz Sharon Tate uma semana antes do seu assassinato, em começo de agosto de 1969. Ela já havia mencionado esta leitura no documentário Strictly Supernatural, de 1996, que está à venda na Amazon. O episódio referente ao tarot está disponível no YouTube, com o título Strictly Supernatural – A History of Tarot, e também aqui no Blog na página Vídeos. Achei a imagem da disposição completa (uma Cruz Celta) no grupo Tarot History, do Facebook, numa publicação de novembro deste ano. Há neste caso uma série de perspectivas sobre leituras de tarot que quero trazer para discussão aqui. Todas elas, porém, revelam o quanto os arcanos falam de modo diferente com diferentes pessoas. E isso não é exatamente uma constatação nova, mas é sempre surpreendente vê-la em ação! Costumo dizer que o processo mais rico para cada tarólogo é o de descobrir o que, afinal, as cartas querem com ele.

Neste caso em especial, a primeira coisa que chama a atenção é o fato de que Pattie, como era conhecida, estava lendo para uma pessoa e fez uma previsão para outra! Conheço inúmeros casos assim, e é mais comum entre os leitores psíquicos, leitores que agregam sua mediunidade às sessões de leitura das cartas, mas é importante salientar que não ocorre com todos os tarólogos. Os leitores psíquicos costumam sentir e prever fatos para membros colaterais de quem se consulta, de parentes à colegas de trabalho.  Não tenho registro na minha jornada com o tarot de algo assim ter acontecido, e sou grato por isso. Considero as leituras focadas no indivíduo mais eficientes e edificantes. Já escrevi aqui sobre os quatro tipos básicos de leitores de tarot, e deixarei o link do artigo no fim da página. Isso é um dos inúmeros exemplos de como pessoas extraem experiências diferentes na sua interação com os arcanos. Outro aspecto importante é que toda a carreira de Patricia McLaine foi focada na divinação. Não me interesso tanto assim por previsões, embora as faça na prática oracular diária, onde elas são uma parte e não o todo do meu trabalho. Nas minhas leituras eu entendo que as vivências do momento estão sempre requerendo do consulente um movimento para o seu crescimento e desenvolvimento pleno da consciência.

O Desenvolvimento do Tarólogo

Essa diferença, ou particularidade oculta, costuma frustrar os iniciantes na tarologia, pois na maioria das vezes eles chegam inspirados por um ou outro autor ou celebridade midiática que lida com o tarot, ou até mesmo por consultores específicos com quem tiveram contato com as cartas. Eles querem fazer como eles fazem, ler como eles leem. Ao perceberem que não o fazem ou que são bem diferentes isso os faz crer que sua visão dos arcanos está errada ou é limitada. Costumo dizer que não há certo ou errado, há diferenças. Isso, é claro, não exime que o leitor tenha autocrítica no aprimoramento do seu trabalho, ou de que esteja sempre estudando e aprendendo tanto com suas próprias leituras (anotando-as, relendo-as, e posteriormente verificando se a sua percepção sobre elas aumentou, mudou ou segue a mesma). Como também que invista tanto quanto o máximo possível em livros que possa encontrar na vida, e cursos que possa e queira fazer. Os três vetores do desenvolvimento nos quais qualquer tarólogo, ou qualquer outro intérprete de símbolos ocultos, deve focar são: a busca da precisão, da clareza e da fluência em captar e comunicar o que vê. Isso é fundamental! Depois deve priorizar a fidelidade ao que vê. Isso significa que deve sim usar seu cabedal de conhecimento, suas referências e experiências e vivências para deixar claro ao cliente suas visões. Nunca, nunca, porém, dê sua opinião. Diga o que os arcanos revelam. Eles são os portadores da sabedoria ancestral que se comunica com o cliente através dos seus símbolos, e você é um intérprete, ponto final. Ah, mas não tem como ser isento. Tem sim! Costumo dizer que se uma pessoa vai em mais de um tarólogo ela vai ouvir os mesmos relatos, porque a vida dela e uma só. O que muda são as referências, o padrão, a experiência, a cultura e desenvolvimento do próprio leitor. Isenção é sobre você entender que sua “opinião” é pura manipulação, ainda que bem-intencionada, para interferir no que erroneamente entendeu como sendo da sua conta. Essa é uma confusão que muitos fazem, e que gera todo tipo de equívoco, ego inflacionado, e credibilidades dizimadas tanto para os intérpretes, quanto para o oráculo em si. Foram inúmeras as vezes em que presumi, ao conhecer a história das pessoas durante uma sessão, que o melhor caminho era a direção “A” numa situação e as cartas apontaram para a direção “W”, e foi o melhor! Entendo que essa postura guarda em si o desejo íntimo de ajudar, e o medo de orientar erroneamente aquele que veio buscar sua ajuda. O erro, entretanto, está justamente em se esquivar da orientação transpessoal do símbolo para dirigir-se à finitude da sua opinião sobre temas que, na grande maioria das vezes, não domina. Sem dizer que opinião é algo que se pede a pessoas íntimas, de confiança, e que conhecem a trajetória de quem a solicita. Se pede a um tradutor que leia uma mensagem escrita num outro idioma que desconhece, e ele começa a selecionar ou trocar o sentido do que está escrito porque quer “ajudar”, ele não só estará mentindo, como manipulando e interferindo na comunicação. Seja o melhor e mais honesto tradutor que puder ser, sempre! Exatamente por isso que se desaconselha a leitura das cartas para pessoas muito próximas, ou com quem estejamos envolvidos pessoalmente.

Leituras oraculares são um caminho de
constante observação e aprimoramento.

Certa vez, há uns 20 anos atrás, atendi uma jovem beirando aos 30 anos e já no apogeu da sua carreira. Os arcanos revelavam sua intenção de fazer uma grande mudança, que envolvia carreira, casa e até troca de cidade ou estado. Muitas cartas de espadas, no entanto, mostravam uma intensa e tensa discussão mental sobre se aquilo era viável, ou uma loucura sem fim! Ela então disse que era justamente isso o que estava acontecendo, e era o que a trouxe até mim. Contou que fez uma viagem para Alto Paraíso, em Goiás, e que lá conheceu uma comunidade de Calendário Maia, que era objeto de seu estudo há algum tempo. Dito isto revelou que estava sentindo imensa vontade de largar tudo e se mudar para lá! Era uma jovem publicitária trabalhando numa das maiores agências do estado na ocasião, tinha contas interessantes sobre sua responsabilidade, o seu apartamento, seu carro, e tudo parecia estar indo na direção certa, mas essa vontade despontou avassaladora. Como sou humano fiz meus julgamentos, era jovem, estava deslumbrada com o que havia recém descoberto, e seria tolice se jogar nisso. Felizmente lembrei a tempo de que não veio pedir minha opinião, mas minha análise como um intérprete dos símbolos do tarot. E ele foi categórico em afirmar que aquele era o seu caminho, e que nunca mais voltaria atrás depois de partir. Com o coração na mão comuniquei isso a ela. Cerca de seis anos depois as pessoas que a haviam indicado me avisaram que “aquela amiga” estava na cidade fazendo a interpretação da Onda Encantada para quem quisesse. Depois de seis anos, e um único encontro, é claro que não lembrava mais dela, e muito menos sua história. Agendei um horário e fui para minha sessão. Chegando lá fui recebido com um grande abraço, um daqueles que se dá em amigos de longa data sem se encontrar. Fiquei meio sem jeito, mas retribui afetivamente. Ela, notando que eu não a reconheci, começou a me falar de suas lembranças, o que me fez recordar de toda nossa sessão! Disse também que pensava em mim com frequência, pois não tinha absolutamente nenhuma intenção de sair de lá. Mesmo quando conheceu e se apaixonou por um rapaz do interior de São Paulo que a convidou para se mudar com ele, o que ela rejeitou! Ainda que passado todo aquele tempo senti aquela maravilhosa sensação de missão cumprida, fiz bem em ficar estritamente no meu lugar de intérprete e canal da sabedoria profunda e ancestral dos arcanos.

Nuances Simbólico-Intuitivas

Voltando para a leitura de Pattie McLaine, um dos moderadores do grupo Tarot History, Tero Goldenhill, mencionou o fato de arcanos como o 9 de espadasA Lua, ou de A Morte não surgirem para esse tipo de revelação, e de nem sempre isso ser necessário, e eu concordo. Ele acrescenta à sua narrativa o fato de que uma ideia recorrente por lá nos anos 80 e 90 era de que o arcano de A Morte representaria uma mudança interna, enquanto que A Torre representaria então uma mudança externa. Aqui, no lado debaixo do Equador, nunca houve esse consenso. Entendem quando eu digo que o que molda as vivências com o tarot são nossas próprias perspectivas sobre o simbolismo dos arcanos? Goldenhill arremata sua observação dizendo que provavelmente Pattie usasse essa ideia já nos anos 60. É bem verdade, e já tratei deste tema no artigo Estados Alterados de Consciência no Tarot, que as cartas se sintonizam com nossa compreensão sobre elas, e começam a representar isso nas leituras que fazemos para nós mesmos e para os outros. Os grandes símbolos do inconsciente coletivo se moldam às nossas introvisões para que possamos entabular uma comunicação para nós mesmos, e para outros quando necessário. Então sim, o tarot é uma linguagem simbólica com uma estrutura própria e bem definida, porém a sua compreensão e aplicação é totalmente empírica.

Em janeiro deste ano fiz uma mandala astrológica para um cliente. Tenho usado as mandalas para obter uma perspectiva e prognósticos para o ciclo de um ano. Aconselho a abertura desta disposição no início do ano ou em ocasião do aniversário, que é o ciclo pessoal de desenvolvimento. Ao final da leitura tirei uma foto da mandala e o cliente perguntou se eu poderia mandar também uma síntese das casas por escrito, já que não havia gravado a sessão. Eu o fiz, um conjunto de frases breves que mandei pelo Whatsapp mesmo. Em meados de novembro ele me procurou dizendo que aconteceu o que eu havia previsto sobre a saúde da mãe dele. Como não fazia mais nem ideia do que havia dito fui procurar no histórico das nossas conversas, e eu havia escrito lá: “Foco na Família, apoio ou suporte para a figura materna, algum tipo de fragilidade física pedindo cuidados”. Ele me contou então que no começo do mês anterior, outubro, a mãe dele fez uma viagem ao exterior onde sofreu uma queda e fraturou de modo crítico o fêmur. Com mais de 80 anos, e com um acidente desta magnitude, sua recuperação estava sendo, além de sofrida, lenta! Fui verificar os arcanos que revelaram este prognóstico e estavam lá na casa quatro do signo de Câncer, representando as origens, a ancestralidade, os pais e a família o arcano de O Sol acompanhado da Rainha de copas. Já devem ter notado que as cartas mais desafiadoras, e que poderiam assinalar fragilidade ou perigo, como O EnforcadoA Torre, o 10 de paus, ou o 9 de espadas não estavam lá! Na minha jornada com o tarot O Sol dentro da mandala representa tanto o foco da consciência naquele ciclo anual, quanto a saúde e a disposição física, além de amor, êxito e alegria, tudo dependendo da casa que ocupe na leitura. A Rainha de copas, assim como todas as rainhas, pode se referir à uma figura materna. Especialmente delicada, sensível, servil e frágil conforme cada caso, tanto quanto uma mulher sedutora, misteriosa ou mediúnica com acentuados poderes de intuição, vidência e cura, conforme aparece na disposição.

Para os que observam estes mistérios que a prática com as cartas traz, fica claro o quão profundo e misterioso é este processo. E o quanto há aspectos totalmente fora, ou além, do controle e compreensão do próprio leitor. Os modos como os temas ou revelações se apresentam parecem ser graduados conforme a própria capacidade do consulente de absorver e lidar com os temas levantados. Mesmo que ainda haja aqueles que relutem ou neguem num primeiro momento.

Com este último relato quero explicitar ainda mais o quanto as leituras de tarot envolvem processos muito interiores e empíricos que precisam ser observados, tanto quanto os arcanos precisam ser estudados com disciplina em sua estrutura simbólica, para que sua linguagem não fique restrita a um conjunto excessivamente personalizado de impressões e percepções que podem então se tornar instáveis. Enfim, é aquela regra de ouro que diz que leituras eficientes são aquelas que unem racionalidade e disciplina a uma intuição acurada.

Sharon Tate (1943/1969), fim brutal de
uma carreira promissora

A Leitura de Pattie

Em outra sequência do documentário Patricia McLaine aparece fazendo uma outra interpretação aleatória de uma Cruz Celta, e sua explanação deixa claro que ela se utiliza da abordagem tradicional deste método de leitura. Não pretendo fazer uma avaliação completa desta tiragem histórica, pois afinal, teve a ver com aquele momento e com aquela pessoa que estava sendo atendida. Do mesmo modo que os arcanos de O Sol e da Rainha de copas não representariam para outra pessoa o que eu vi para aquele meu cliente. Há um contexto de leitura, outros arcanos e casas relacionadas com outros arcanos envolvidos. Além disso, como ocorreu no caso da leitura de Pattie, tudo o que se sente é o que nos é inspirado naquele momento, e nada mais pode ser acrescido a ele. Enfim, cada leitura é única!

Quero apenas comentar o que a mim fez imenso sentido, a começar pela Rainha de ouros, uma mulher linda e sedutora, como também rica, abrindo a leitura. Ela está cruzada pelo 3 de espadas que normalmente representa dor, conflito e sofrimento íntimo dentro de uma perspectiva psicológica, por um lado, como também o enfrentamento de um destino inescapável, pesado e cheio de apreensão por outro. A sequência de O Diabo (magia negra/satanismo), O Hierofante invertido (ritos pervertidos), e A Torre (desastre) mostram bem o que se deu...  O final não poderia ser mais aterrador, o 8 de espadas fala de um tormento prolongado, na maioria das vezes apenas moral e mental, mas Pattie com certeza percebeu nisso um prolongado tormento físico, como de fato foi o que aconteceu.

Leia também:

Que Tipo de Tarólogo Você É?  &

Estados Alterados de Consciência no Tarot    

*Patricia McLaine nos deixou em 2017. 


sábado, 22 de junho de 2024

Sobre Leitores e Instrutores de Tarot...

                                           Uma Indicação Ética

O leitor de tarot só é mesmo bem-sucedido quanto menos houver de si na interpretação dos arcanos. Oráculo quer dizer “ouvir a grande voz”, e essa não é a voz de quem lê, mas a voz da grande sabedoria transpessoal do inconsciente coletivo e superior que se expressa no simbolismo das cartas. “Ora, mas não há como não intervir, leitores são pessoas com opiniões”, me dizem alguns, e é verdade! Porém, quando se atém ao que faz com foco muitas vezes um leitor será confrontado com questões que vão contra suas opiniões e valores. Não é NADA ético, porém, que esse intérprete conduza a resposta dentro de seus próprios valores. Tem ali uma sabedoria oriunda de uma fonte superior, apenas leia o que diz sua voz através dos arcanos, eles costumam apontar a melhor direção. Uma cliente no auge da carreira parecia estar na iminência de dar uma virada, seguindo outra direção, dizia o tarot. Ela confirmou dizendo que sim, estava disposta a largar a sua bem-sucedida carreira como publicitária para viver numa comunidade holística em Alto Paraíso... Minha porção humana arregalou os olhos e exclamei para mim mesmo: “isso é uma loucura!”, mas me dirigi às cartas que foram categóricas em afirmar que aquele era o seu real caminho, e que deveria seguir por ele. Nunca mais voltaria à velha vida. A encontrei seis anos depois se dizendo realizada  e que lembrava da nossa sessão de tarot,  pois não se imaginava vivendo outra vida!  Tarólogos são canalizadores da alma, suas influências devem se restringir aos métodos indicados para auxiliar seus clientes, e ao seu cabedal de conhecimento e experiência para exemplificar situações, além da própria forma ou viés com que lê o que os arcanos revelam. Uns mais práticos, outros mais psicológicos ou mágicos, mas nunca opinativos ou manipulativos. Isso não é nem ético e nem Espiritual.

Dos Bem-Intencionados 

Instrutores de Tarot

Já ouvi dizer que pessoas bem-intencionadas podem ser uma porta para o inferno! E cheguei à conclusão de que é verdade! Entrei numa das lojas esotéricas mais antigas da minha cidade e ouvi uma menina se dirigindo a um vendedor que foi chamado quando souberam que ela buscava um baralho de tarot. Ela estava interessada em adquirir um tarot de Marselha, pois que haviam dito a ela que era por onde devia começar, o que o bem-intencionado vendedor desaconselhou completamente... Entre a enxurrada de bobagens que ele disse mencionou que se tratava de um tarot arcaico, cheio de "preconceitos medievais". E, além de tudo, tinha outro “defeito”, não tinha imagem nos arcanos menores como o Rider-Waite tarot. Que esse sim, e também o Mitológico, de Juliet Sharman-Burke, eram os melhores para iniciantes... Enfim, como tarólogo o cara não serve nem como vendedor! Primeiro que o tarot de Marselha tem mesmo a origem das suas imagens e simbolismo na Idade Média, mas os arquétipos da alma se mantiveram intactos. A ponto, inclusive, de serem reconhecidos pelos maiores ocultistas da modernidade e pelo Dr. C. G. Jung, que foi quem forjou a teoria dos arquétipos, e os reconheceu no simbolismo deste baralho! Segundo que foi o seu simbolismo que deu origem a todos os outros baralhos modernos, inclusive o Rider-Waite que ele admira, mas que, no entanto, tem inúmeras distorções simbólicas que ameaçaram a integridade do tarot como um todo, e confundiram muitos estudiosos da tarologia... Sendo assim não é nada aconselhável se iniciar os estudos do tarot por ele, e sim pelo tarot de Marselha. Simbologia oculta não é concurso de beleza ou design, é o reconhecimento do manancial de símbolos ancestrais para dialogar com a alma. Aprende a essência, depois escolhe o baralho que quiser.


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Desvendando a Carta Significadora no Tarot

A Carta Significadora, ou Carta Testemunha, é um representante simbólico do consulente na mesa, e um guia para o leitor. Esta carta é escolhida dentre as cartas da realeza dos arcanos menores, e é complementada ao sistema de leitura selecionado. Se utilizar o sistema da Cruz Celta, ela deverá ser adicionada às dez cartas escolhidas pelo consulente. Assim é possível saber sobre os traços de personalidade mais em evidência no momento de quem vem buscar a orientação dos arcanos. Para aquele que indaga o oráculo essa é uma oportunidade de autoconhecimento, de ver a si mesmo sob outra perspectiva, em manifestações muitas vezes inconscientes dentro das circunstâncias que o envolvem, e o desafiam de algum modo. Um cliente representado pelo Rei de paus, por exemplo, pode estar num estado de espírito positivo, progressista e diligente. Uma mulher representada pela Rainha de copas pode estar denotando um momento de mais sintonia com os seus sentimentos, e a busca por um alinhamento interior, de bem-estar e conexão íntima com o que está se vivendo, mais do que de valorização de aspectos extrínsecos como a busca por vantagens materiais ou estratégicas. A questão seguinte é: como se faz a escolha da Carta Significadora? Os métodos tradicionais separavam os reis para os homens e a as rainhas para as mulheres. Essa escola era muito focada, em princípio, na descrição da aparência física do consulente. Uma forma de atrair, através da imagem, a força e a presença do cliente para a leitura em si. Isso fica bem claro em obras clássicas como O Tarot Adivinhatório (1909), de Papus, onde as características físicas como cor do cabelo e provável posição social que ocupa reis e rainhas é escrita em cada carta. Com o tempo a descrição dos aspectos psicológicos passou a ter preponderância, justamente por permitir vislumbrar as motivações e possíveis expectativas que cada pessoa traz para a sessão de leitura de tarot.

O modo de se fazer esta escolha também passou por uma evolução. Se anteriormente as figuras dos reis eram naturalmente escolhidas para representar homens e as rainhas as mulheres, hoje isso se amplificou! Neste sentido uma das visões que mais aprecio é a de Gail Fairfield em seu livro Choice Centered Tarot (1982) que sustenta que qualquer uma das dezesseis cartas da corte pode representar pessoas de ambos os sexos. Isso faz muito mais sentido dentro de tudo que sabemos sobre psicologia humana. Um homem pode ter dentro de si uma atuação mais marcante da sua porção feminina (a anima, como definiu Jung) e assim expressar o arcano de uma rainha, da mesma forma uma mulher pode estar mais intensamente envolvida com a porção masculina da sua psique (o animus) e assim expressar as qualidades dos reis do tarot. Ambos por sua vez podem ativar o arquétipo do guerreiro dentro de si, e um cavaleiro se apresentar como a carta significadora neste caso. Da mesma forma a criança interior de homens e mulheres pode se evidenciar num momento de muita criatividade, necessidade de atuação, aventura, leveza ou imaginação, e um valete (ou pajem) ser um melhor representante na leitura. Lembrando que quem decide isso é a sincronicidade! As cartas da corte devem estar previamente separadas, em seguida embaralhadas e abertas em leque para que o consulente escolha uma. Esta carta é o espelho do momento de quem vem consultar as cartas, pode se falar sobre ela. Se preferir, pode indagar ao próprio consulente, depois de explanar seu simbolismo, sobre como ele mesmo sente o arcano, impressões e sentimentos que sua imagem evoca em si.

O Rei de paus do Tarot Adivinhatório, de Papus:
"Chefe masculino; Homem de vontade e
empreendimento; Homem castanho".

Existem outras possibilidades de escolha da Carta Significadora. Um método astrológico é utilizado por alguns tarólogos. Sua aplicação mais simples é a de combinar o signo solar de uma pessoa ao seu ascendente. Assim sendo um indivíduo do signo de Áries com ascendente em Peixes teria como arquétipo um Cavaleiro de copas. Essa escolha segue a relação entre os elementos que compõem cada um dos arcanos da realeza, segundo a regência astrológica estabelecida na Ordem Hermética da Aurora Dourada, a Golden Dawn. Já tratei aqui dessa tabela nos meus textos sobre os arcanos menores. Existem variações ainda mais complexas sobre este método astrológico de escolha desta carta na mesa. Para mim todos eles são inválidos e totalmente fora da própria natureza da tarologia! O tarot é um instrumento de avaliação do momento, e de possíveis influências do passado, tanto quanto de sondagem de prognósticos futuros. Seres humanos apresentam diferentes reações a eventos similares entre si. A mesma pessoa pode ter comportamentos diferentes dentro de situações semelhantes em momentos diferentes, porque é da natureza humana amadurecermos e aprendermos com nossas experiências, ainda mais quando compreendemos que elas representam um desafio ao nosso crescimento pessoal em algum momento. Sendo assim, não vejo sentido nenhum em a mesma carta sempre representar a mesma pessoa em situações diversas. Isso é estanque demais! O tarot é um reflexo dinâmico de uma personalidade em movimento e evolução, essa é a a sua essência. A astrologia é um estudo da proposta do Ser, o tarot do Estar, como definiu muito bem Nei Naiff em se livro Tarot, Ocultismo e Modernidade (2006). Além do que é muito estranho o consulente não participar dessa seleção, afinal o objetivo da Carta Significadora é desvendar o que ele traz, consciente ou inconscientemente, para as demandas do seu momento e de que modo isso interfere, ou não, nos eventos.

Eu já me utilizei do recurso da Carta Significadora nas minhas leituras, e com o tempo a deixei. Senti ao longo da minha jornada com os arcanos que deveria experienciar todas as suas possibilidades. Não senti necessidade de seguir com este recurso, porém há quem o utilize como uma prática usual em suas leituras. Trata-se não só de técnica e estilo, mas também de percepção pessoal e intuitiva de que informações são necessárias para aquilo que se entende como uma leitura bem-feita, com profundidade e consistência. Faça a sua experiência!


terça-feira, 26 de março de 2024

Cartas Aleatórias nas Leituras de Tarot

Quais são os limites de uma leitura de tarot? Todas as cartas que caem na mesa servem à leitura em curso? Como não acredito em generalizações, no que tange ao trabalho com linguagens simbólicas, eu diria que isso varia de leitor para leitor e de cada momento. Muitas vezes as cartas que caem não significam necessariamente uma mensagem para quem se consulta. Há outras vezes, porém, que isso funciona magicamente. Certa vez conversando com uma cliente que estava com muitos pensamentos sobre o porvir, e com seus planos de morar nas praias ensolaradas do Nordeste, e já nos trâmites finais da sua sessão, eu me preparo para tirar a carta de mensagem final para aquele momento. Isso é algo que já faço há muitos anos, a carta final é uma síntese sobre as melhores direções a serem seguidas pelo cliente a partir daquele ponto. Enquanto faço o embaralhamento das cartas uma delas salta, literalmente, do maço e vai ao chão. Abaixo-me para colher o arcano, e quando viro a imagem para cima vejo que se trata de A Estrela, arauto da esperança, dos sonhos com o amanhã, e da ampliação da visão e das perspectivas da vida. Rio, e comento com a cliente que era muito interessante aquele arcano ter se pronunciado naquele momento. Enquanto converso, já tenho a carta de volta ao maço, recomeçando a embaralhar, e fazendo isso digo à moça a minha frente que aquela bem que podia ser sua mensagem final, pois combinava muito bem com tudo o que havia sido dito até então. Quando disponho as cartas viradas para baixo em leque, e peço para que retire uma, adivinhe quem veio? Pois é, ela mesmo: A Estrela! Rimos da “bruxaria” contida naquele sincronismo. O arcano se pronunciou como quem dissesse “Hei, eu já estou aqui” e confirmasse com isso os desejos dela para o futuro.

A Roda da Fortuna, do
Ancient Italian tarot.

Em outra ocasião estou lendo as cartas para outra moça que estava preocupada com o andamento do seu relacionamento com o namorado, e pede para marcar a relação dela com a sogra, com quem tinha problemas de entrosamento. Alguém que ela considerava uma pessoa de difícil trato. Enquanto misturo as cartas, e me concentro na sua pergunta, uma delas salta ao chão. Saio da mesa, pois que saltou com certa distância, e quando a recolho vejo que se trata do arcano de A Roda da Fortuna. Senti naquele momento que sua mensagem era sobre uma virada de 180º no comportamento da sogra, e disse isso à minha cliente: Ela já não é mais assim, mudou muito. Era uma consulta on-line, via WhatsApp, e eu tinha saído do campo de visão dela, mas a ouvi dizer sorrindo “Sim, ela mudou muito! Estou perguntando justamente para saber se ela continuará assim”. Então resta saber se tudo o que acontece numa sessão de leitura de tarot faz mesmo parte da leitura. Acredito que uma consulta oracular é uma das coisas mais mágicas que a ancestralidade nos legou, e acredito, pela minha própria experiência, de que isso pode acontecer sim. Só não creio que seja uma regra, embora reconheça que se trata, mais uma vez, de um reflexo da minha própria experimentação com o caminho oracular, e do meu entrosamento com as linguagens simbólicas. Sinto que isso muda significativamente de pessoa para pessoa que vem para o atendimento. 

O leitor deve sentir isso dentro da sua sensibilidade, sem tentar fazer disso um atrativo dramático para suas leituras, embora seja de fato impressionante quando acontece. Creio que esse fenômeno se deve única e exclusivamente à sincronicidade, não trabalho com a invocação de entidades e muito menos com elementais. O sincronismo é algo que nos conecta a uma fonte muito maior que tudo isso, e nos torna verdadeiramente UM. O trabalho com oráculos, e em especial com o tarot, não tem como se tornar fastidioso justamente pela diversidade que cada pessoa traz em si e reporta à sessão através dos arquétipos que a representam. Cabe ao leitor perceber a sutileza de cada pessoa, e como ela se evidencia durante uma sessão de leitura. O mais importante disso tudo é ainda desvendar o propósito possível para este evento sincronístico. E, mais uma vez, atribuo seu significado ao propósito que cada intérprete dá ao seu trabalho. Para mim as cartas saltantes, como as chamo, são uma manifestação de uma parte da consciência que parece ressaltar uma mensagem, fortalecer uma perspectiva ou salientar uma possibilidade de reintegração interior que poderá orientar a um tratamento terapêutico que conduza a essa reintegração. O misterioso salto “acidental” de certos arcanos é tão misterioso para mim hoje quanto foi da primeira vez em que aconteceu, mas respeito aqueles que nunca foram acometidos por interesse ou revelações nesses incidentes arquetípicos. O tarot fala de formas diferentes com cada pessoa, e isso é igualmente fascinante! Costumo dizer aos clientes que as leituras de tarot são um acesso à porção mais sábia e elevada de si mesmos, seja lá qual for o nome que se dê a ela. Poder ser Eu Superior, EU Maior, Self, o subconsciente etc. Seja como for não a contatamos de modo direto e consciente, e precisamos dos símbolos para fazer esse intercâmbio. Essa comunicação tem como único propósito a harmonização do todo: corpo, mente, sentimento, plano vibracional e espiritual, que uma vez atingido impulsiona o indivíduo para outro patamar do seu próprio processo evolutivo... Se ele fizer um bom proveito do impulso interior que lhe é dado através das revelações do tarot, é claro! 


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Devemos Ler o Tarot para Terceiros?

Os arcanos do Tarot, um mosaico de imagens
que expressam a alma humana em suas vivências

Eis uma questão que acompanha as sessões de Tarot e Cartomancia em geral pelo mundo a fora há pelo menos uns duzentos e cinquenta anos, e não parece ter uma resposta que sirva para todos igualmente até hoje. Há, inclusive, consultores que se especializaram em fazer leituras para filhos, sócios, parentes, vizinhos namorados/as e assim por diante. O que incialmente começa com mães (geralmente idosas) perguntando sobre a vida dos filhos (geralmente adultos) avança para uma verdadeira espionagem da vida alheia através dos arquétipos! Mães de um modo geral consideram um direito seu atropelar a privacidade de sua prole, isso virou tão aceito que nem questionamos mais. Na maioria das vezes achamos engraçadinho, ou meio bobo, e paramos por aí! Isso ocorre porque ainda estamos presos a um conceito que considera que uma vida de propósitos e projetos é impossível na terceira idade. Assim temos uma geração de mortos vivos depois dos 70 que, considerando que não possuem mais uma vida para si, voltam-se para a vida e a realização da sua prole, quando as tem. Pretendo levantar aqui algumas questões para reflexão e melhor compreensão de um tema tão casual, aparentemente, que ignoramos a gravidade de suas consequências em todos os âmbitos possíveis.

A Ética

O primeiro tópico é, com certeza, o mais evidente e obviamente o mais esquecido de todos! Quando o consulente indaga sobre alguém da sua convivência esquece-se na maioria das vezes de que estamos contando a história de alguém que não está presente, não procurou os serviços de consultoria daquele profissional, e está tendo sua intimidade invadida. Acontece também que o próprio consulente pode extrapolar os limites da sua própria privacidade e se revelar sem nenhum tipo de preservação de si mesmo, do profissional que ele procurou e das pessoas de suas relações. Dentro das minhas mais de três décadas de atuação na área de consultoria com linguagens arquetípicas como o Tarot, a Numerologia e a Astrologia tenho ouvido as histórias mais bizarras sobre pessoas que simplesmente mandaram para o espaço toda e qualquer consideração às regras de decência no tratamento dos sentimentos dos outros e dos próprios sentimentos. Uma cliente me contou que um ex namorado consultava uma profissional de tarologia para vigiar suas namoradas, e saber se elas lhe diziam a verdade sobre seus compromissos, pessoais, familiares etc. Até que a referida profissional alegou que ela havia mentido a ele sobre uma certa viagem, o consulente (seu namorado) a confronta com a revelação e ela pede para falar com a taróloga, que não só reafirma tudo o que disse como a chama de mentirosa! E ela não estava mentindo...  Num outro caso uma pessoa pergunta se o marido estava sendo fiel a ela, as cartas mostraram que ele estava muito atraído por uma mulher bem mais jovem que ele. A mulher leva ao marido a revelação das cartas, ao que o companheiro não só nega tudo como a faz se sentir uma completa idiota por acreditar nessas coisas, além de ameaçar ir até o cartomante que a atendeu numa discussão dramática. Tempos mais tarde ele a abandona por uma mulher dezenove mais jovem. Para consultores e consulentes vale lembrar que a confidencialidade de uma sessão oracular deve ser recíproca. Ética é um conjunto de regras que trata de estabelecer boa convivência entre as pessoas no dia a dia. E, num sentido mais simplificado, trata de reciprocidade nas atitudes. Seja respeitoso com as prioridades e regras dos outros como gostaria que respeitassem as suas. Mantenha o mesmo sigilo e discrição sobre uma sessão de leitura como o que gostaria que o leitor tivesse com sua história e intimidade. Simples assim. 

Carta do Jeu du Petit Oracle, ca.1795
BnF Bibliothèque Infernale

O leitor é, antes de tudo, uma pessoa passível de erros, se não por incompetência também pelo desejo de ajudar seu cliente, saindo do seu lugar de mero intérprete dos símbolos para um torcedor da causa daquele que confia nos seus talentos interpretativos das linguagens ancestrais. Para os consultores é preciso lembrar que a pessoa que o procura tem também suas debilidades de personalidade e poderá estar dando vazão aos seus padrões desequilibrados de controle, e obsessão por uma outra pessoa escapando de viver sua própria vida. Sem falar na miríade de possibilidades de relacionamentos tóxicos que podem estar por trás dessas incursões “preocupadas” pela vida de parceiros e filhos. De mães narcisistas à cônjuges afetivamente dependentes, abusadores e intimidadores disfarçados em pessoas que sofrem por seus entes amados.

O Propósito

Outro aspecto tão óbvio quanto ignorado é: qual o propósito de se ficar observando a vida de alguém que não está presente? Ou mais ainda, onde isso leva o consulente em seu processo de esclarecimento e crescimento interior? A consulta deve ser sempre focada na pessoa que procura o oráculo, e as revelações feitas sobre seus dilemas e preocupações devem ajudá-la a entender o propósito último desses dilemas para o desenvolvimento da sua personalidade e equilíbrio interior. Quando uma pessoa está muito obcecada em saber sobre filhos, vizinhos, colegas de trabalho, ou vigiar os passos do cônjuge, essa pessoa está com uma clara dificuldade de viver a própria história, e viver de forma fluída as suas relações. Tomada por medos inconscientes de rejeição, fracasso ou abandono, que limitam seu sentimento de satisfação plena. A Tarologia evoluiu muito para ser tratada como um mero observatório da vida alheia. Os Arcanos são, antes de qualquer coisa, um instrumento de investigação dos desafios cotidianos como vetores que apontam para suas fragilidades e condicionamentos dando a possibilidade de autotransformação! É claro que há casos em que isso é legítimo! Querer saber dos negócios do seu par amoroso, o que sempre afeta a ambos, o desempenho de um filho em seu desenvolvimento psicológico ou escolar, a predisposição de um sócio para um negócio que tocam juntos, as articulações de colegas ou de uma equipe nos projetos de trabalho, por exemplo... Tudo isso influencia diretamente a vida daquele que se consulta, sem ser uma intromissão agressiva na privacidade de ninguém! Afinal, é para isso que os oráculos existem. São também um guia para ações estratégicas de investimentos, empreendimentos e ações práticas. Cada consultor, profissional ou não, deverá encontrar seu modo de fazer isso usando do bom senso, e de seus próprios critérios sobre o deseja ou não abordar nas suas sessões de leitura.

Como disse há tarólogos que se especializaram em “marcar” outras pessoas nas suas leituras. Com isso atraem uma clientela que vem com uma lista de perguntas de outros indivíduos para uma consulta que deveria ser particular. O que é, a meu ver, totalmente improdutivo para todos os envolvidos. Quando me perguntam o que costumo fazer eu respondo que tiro uma carta de mensagem para cada pessoa da família, e só! Respondo as questões quando apresentadas do modo que citei no exemplo acima e, é claro, questões de relacionamento amoroso. Desde que não se trate de se espionar um ex, ou de uma obsessiva investigação da privacidade do outro. Isso não é amor, é apego e manipulação!

Cada intérprete do Tarot, e de qualquer outro instrumento oracular, deve criar seu próprio sistema para tratar desta questão, o que será profundamente influenciado pela maneira com que ele mesmo vê o que faz, e quais objetivos estabeleceu para si com seu trabalho. O Tarot é tanto um oráculo para a sondagem do presente e do porvir, como um instrumento para o profundo autoconhecimento, sendo um revelador de programações e condicionamentos inconscientes para a libertação da consciência plena. É também um veículo para a prática da magia, da meditação e do despertar criativo. Qualquer outra aplicação que ignore essa riqueza e profundidade é pura e simplesmente um desperdício!


quinta-feira, 13 de maio de 2021

Os Quatro Modos de Leitura do Tarot

Pajem de ouros, do Mystical Moments tarot.
O aprendiz que aspira ao mestrado!

A seguir um breve relato dos quatro modos mais frequentes de se consultar os arcanos do tarot em utilização hoje pelo mundo! Cada forma de “ler” as cartas reflete a relação dos leitores com os arcanos dentro de sua perspectiva intuitiva. Os métodos escolhidos refletem o modo como cada um aprendeu a lidar com seu processo intuitivo na interpretação do tarot. Absolutamente nenhuma é melhor, mais eficiente ou mais precisa que a outra. O que define isso é o olhar do intérprete! Assim sendo não se deixe intimidar por comparações das pessoas que o procuram para fazer leituras, mas que comparam seu estilo com esse ou aquele leitor dizendo coisas como: “fulano(a) lia diferente (assim ou assado), ele(a) era excelente”! Mande procurar o fulano(a)! Leia do seu jeito, honre quem e o que você é e o que aprendeu com o tarot, simples assim! Eu, por exemplo, nunca me utilizo das leituras interativas, embora as considere fascinantes, simplesmente porque não tem nada a ver comigo! Sempre preferi as leituras holísticas por tudo o que enumero no texto abaixo, faz mais sentido para mim. Por outro lado aprecio o trabalho vivencial, e desenvolvi uma vivência com o tarot que inicialmente chamei de “Tarot Circular”, mas que recentemente rebatizei de “Roda de Tarot”. Enfim são aplicações que não qualificam o trabalho de interpretação do simbolismo do tarot, mas que captam diferentes ângulos da vida e do momento de vida de quem procura a sabedoria do tarot para se orientar.

Vamos a eles:  

A LEITURA HOLÍSTICA

“Se as portas da percepção estivessem limpas,

tudo apareceria ao homem tal como é: infinito.”

William Blake

Consiste na abertura inicial de um método de leitura geral para avaliar como estão, e como se conectam no momento, os vários aspectos da vida de uma pessoa. A Cruz Celta e a Mandala Astrológica são os sistemas mais empregados para essa abordagem. Embora outros como a leitura dos Chakras, a leitura Cabalística, e o método da Estrela também sejam bem populares. Independente de a leitura ter fins divinatórios ou terapêuticos essa perspectiva ampla nos permite avaliar como estão e se relacionam diferentes setores tais como família, trabalho, dinheiro, vida afetiva, social, e íntima (tanto psicológica quanto espiritual), bem como os anseios que movem consciente ou inconscientemente o indivíduo. Assim como as influências do passado, ou as tendências futuras, que por vezes se refletem no momento. É uma espécie de mapeamento da vida do consulente para ele mesmo, mas com um olhar integrativo, mais profundo e que conecta sentidos muitas vezes ignorados! Daí se chamarem “holísticas”, uma visão do todo com novos significados!

Ex: O Jogo do Espelho criado por mim, ou a Leitura Terapêutica desenvolvida pelo tarólogo Veet Pramad.

A Cruz Celta, um dos métodos de leitura
holística mais populares.

A LEITURA PARTICIPATIVA

“A formulação da pergunta é muito 

mais importante do que a resposta.”

Albert Einstein

Nesta abordagem o cliente participa dirigindo perguntas objetivamente ao tarot, ou apontando temas que gostaria de aprofundar. Historicamente este é o método mais tradicional de consulta aos oráculos. Na antiguidade, em Delfos e Amon, os consulentes caminhavam quilômetros só para fazer uma ou duas perguntas. Embora não tenha a mesma possibilidade integrativa do método anterior, ela permite que o cliente eleja suas prioridades e se aprofunde nos seus significados, ou nos desafios propostos numa determinada contenda! A aplicação do tarot coaching cabe dentro desta perspectiva de trabalho. Com frequência as pessoas precisam apenas elucidar um certo aspecto da vida, aquele que repetidas vezes parece o fazer tropeçar em sua jornada, ou que se apresenta de modo realmente disfuncional com relação ao seu contexto de vida num dado momento de sua trajetória! Esse método, mais focado, costuma ser mais objetivo e utilizar menos tempo a cada sessão.

Ex: As leituras de tarot coaching desenvolvidas por James Wanless.

A LEITURA INTERATIVA

“O próprio do simbolismo é sugerir indefinidamente;

cada um verá o que o seu olhar permita perceber.”

Oswald Wirth

Essa forma de ler pode ser aplicada tanto por quem se utiliza das leituras holísticas quanto das leituras participativas. Consiste em chamar quem se consulta a trocar percepções sobre certos arcanos durante a sessão. Para dar um exemplo uma amiga numa consulta de tarot com um outro tarólogo, há muitos anos atrás, se surpreende quando ele ergue da mesa a carta de O Eremita e pergunta: “se fosse este cara aqui, sozinho num deserto escuro, você esperava amanhecer ou seguia só com sua lanterna?”, ao que ela respondeu: “seguia com minha lanterna!”. Ele então volta a colocar a carta na mesa e diz: “sim, acredito que sim, você aprendeu a contar só consigo mesma, nunca sentiu possibilidade de amparo de quem quer que fosse, você é mesmo muito só!”. Diante disso ela se põe a chorar com muito sentimento, pois até aquele instante nunca tinha percebido o quanto era sozinha, e de fato era! As leituras interativas possuem grande possibilidade de aplicação terapêutica, mais do que oracular na maioria das vezes.

Ex: As leituras interativas desenvovidas no trabalho de Mary K. Greer.

Leituras de tarot, diferentes formas de imersão
nos símbolos da alma humana!

A LEITURA VIVENCIAL

“Existe algo mais importante que a lógica: a imaginação.”

Alfred Hitchcock

As leituras vivenciais não possuem caráter oracular, são, antes de mais nada, um mergulho na simbologia dos arcanos como uma forma de fazer as pessoas perceberem a si mesmas nas qualidades arquetípicas de cada carta. Servem também para desenvolver a intuição e a sensibilidade dos participantes; auxiliar a reconhecer as imagens que projetam para o mundo ou os papéis que representam em seu meio, e que muitas vezes desempenham de modo inconsciente! As leituras vivencias podem se utilizar dos arcanos maiores exclusivamente, ou de todos os setenta e oito arcanos do tarot simultaneamente. Não há também limites ou regras para as formas que podem ser utilizadas, pois quando o objetivo é a imersão nos arcanos pode se empregar desde meditação com suas imagens, até trabalhos artísticos de colagem, pintura, desenho, músicas e danças que incorporam o simbolismo dos arcanos, ou a inspiração literária e poética dentro deste simbolismo. Quando o objetivo é o desenvolvimento intuitivo e da percepção interior as vivências também podem ocorrer na forma de leituras coletivas, ou seja, como uma dinâmica de grupo! Geralmente os métodos empregados têm muito a ver com o caminho de aprendizado e desenvolvimento interior dos tarólogos que as criaram em sua relação com a tarologia!

Ex: As Danças do Tarot, criadas pela taróloga Maria Aché.

Leia também: As Aplicações do Tarot & 

Que Tipo de Tarólogo Você É? 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Tarot e a Paternidade

A relação com o pai estimula na criança uma interação com o mundo prático dos limites e da realidade.  Quando este relacionamento é saudável o indivíduo sabe como se posicionar no mundo, não se sentindo ameaçado por figuras de poder e autoridade. Confia em si mesmo e em seus potenciais, e por isso não precisa de autoafirmação constante do seu ego. Sente-se bem consigo mesmo e, se for um homem, vive sua masculinidade de modo muito saudável e tranquilo. No caso dessa relação ser desequilibrada o indivíduo não consegue estabelecer regras para seu próprio crescimento, tem dificuldade em se organizar no mundo prático e de confiar no sistema, nas pessoas e em si mesmo. Podendo vir a se tornar desajustado ou violento, inclusive com aqueles que ama. Apresento aqui as relações paternas sob a perspectiva do simbolismo do tarot. Como nunca é demais lembrar, uma leitura de tarot se resume na capacidade de se ver a interação entre todos os arcanos presentes, perceber suas nuances dentro dessas interações, e acrescentar a isso a indispensável orientação intuitiva para a interpretação dos seus símbolos. Dito isto lembre que o que é apresentado aqui varia de intensidade de pessoa para pessoa, e conforme cada caso. Vamos aos arcanos na paternidade:

Arcanos Maiores


Arcano de O Imperador, do 
Druid Craft tarot.
IV O Imperador
O próprio arquétipo do Pai. Realista, prático e protetor, o que apresenta a criança ao lado real da vida e a ajuda a ir para o mundo. Protetor e provedor, mas estimula a ação, a autoconfiança e o autodesenvolvimento.

VII O Carro
O pai competidor. O que impele o filho a superar a si mesmo, ou aos seus próprios feitos (dele o pai). Se for imaturo acaba rivalizando com o filho e tenta deixá-lo para trás, ou o faz se sentir inapto o tempo todo.

IX O Eremita
Pai mais velho, ou muito sério e interiorizado. Pode também representar outro homem que exerceu a função de pai, como um padrasto, avó ou tio mais velho. Com esse pai a criança pode ter aprendido a ser cautelosa com as coisas e as pessoas na vida, e com dificuldade de confiar na proteção e no cuidado dos outros.

XVI A Torre
Pai ausente afetiva ou fisicamente, o que pode ter gerado insegurança ou ansiedade na criança. Conforme os outros arcanos pode indicar uma presença paterna perturbadora, como um pai violento, alcoólatra ou com distúrbios psiquiátricos.

Arcanos Menores


O Rei de paus, do
Osho Zen tarot.
Rei de paus
Pai positivo, caloroso, forte e realizador, não mima, mas estimula a crescer e se desenvolver. É um provedor, mas também um ser livre! Estimula a iniciativa, a independência e o enfrentamento das questões da vida. Pode ficar impaciente com as necessidades sempre urgentes dos filhos.

Rei de copas
Pai amigo, bom ouvinte, mas é mais um conselheiro, companheiro ou analista do filho do que propriamente um provedor no mundo prático. Pode representar um indivíduo imaturo ou esquivo nas funções paternas, por fragilidade ou incompetência mesmo.

Rei de espadas
Pai duro, firme. É um disciplinador e educador eficaz, estimula nos filhos a busca por altos ideais. Ensina a criança a seguir regras, quer ser ouvido ou obedecido (ou ambos). No seu aspecto negativo é afetivamente distante, podendo ser autoritário ou opressor.

Rei de ouros
Pai empreendedor, disciplinado que acredita que crescer é prosperar materialmente. Estimula disciplina, boa formação e compostura social. Negativamente pode ser um materialista arrogante que oprime os filhos com seu poder material ou os incita a segui-lo.

Ás de paus
Indica fertilidade masculina, e pode alertar para o risco de o consulente se tornar pai em breve. Um símbolo positivo para homens que desejam a paternidade.

Leia também: O Tarot e a Maternidade 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Tarot e a Maternidade

A relação com a mãe define a expressão afetiva da criança. Quando bem equilibrada cria pessoas capazes de cuidar afetivamente de si mesmos e daqueles que amam. Quando esta relação, porém, sofre distorções cria todo o tipo de dificuldade de vínculos, entrega e medo das emoções profundas! A relação com o materno é um verdadeiro culto na sociedade ocidental, veneradas e sobrecarregadas as mães são motivo principal de mais de 90% das terapias psicanalíticas de desenvolvimento pessoal. Aqui apresento as possíveis relações com a maternidade e a gravidez sob a perspectiva simbólica do tarot. Sempre lembrando que ler as cartas não é um processo matemático, e por isso as interações com os outros arcanos numa leitura, mais a capacitação intuitiva do leitor de fazer mais conexões, ampliarão e enriquecerão esses simbolismos. Podendo também intensificá-los ou suavizá-los conforme cada caso. Vamos a eles:

Maternidade
Arcanos Maiores


III The Empress - Tarot Series -
Artist Odessa Sawyer
III A Imperatriz
A mãe biológica ou adotiva. O próprio arquétipo materno, e a qualidade da maternação de cuidar, amar e proteger, presente até mesmo na personalidade de alguns homens.

VIII A Justiça
A mãe prática e objetiva ensina desde cedo a criança a assumir responsabilidades por si e por sua vida.

XI A Força
Mãe controladora e ou opressora. Sua ânsia por cuidar a torna uma castradora da espontaneidade da criança. Pode representar outra mulher que entrou para desempenhar o papel de mãe, como uma madrasta ou avó, e com quem a criança teve de se adequar. O que pode ter estimulado a repressão da sua expressividade.

XVIII A Lua
Uma figura materna ausente, afetiva ou fisicamente. Uma presença vaga na vida da criança, fonte de medos e carências que se manifestam na vida adulta. Dependendo dos outros arcanos pode indicar mãe problemática, desequilibrada ou violenta.

Arcanos Menores

Rainha de paus
Mãe amorosa, nutridora e cuidadora. Valoriza a troca afetiva, a presença e o bem estar dos seus. Negativamente é invasiva e opinativa demais.

A Rainha de copas,
do Alchemical tarot,
by Rober Place.
Rainha de copas
Também amorosa e cuidadora, mas mais espiritual e um tanto frágil. Difícil para ela colocar limites e dizer não aos seus filhos. Podendo ser fraca, doente, ou subjugada por outro membro da família.

Rainha de espadas
Essa mãe é crítica, dura e exigente. Valoriza e instiga o intelecto e o desenvolvimento acadêmico dos seus filhos. Ensina disciplina organização e regras.

Rainha de ouros
Mãe forte e protetora. Estimula a relação dos filhos com a realidade e com o corpo, e também a valorização e o cuidado com o que possuem. Cuida de sua aparência e exige o mesmo deles. É também cuidadosa e protetora, mas negativamente pode se tornar apegada aos filhos disputando-os com o mundo. Ou pelo contrário pode se apegar ao que possui e se tornar mesquinha com eles.

Gravidez
Arcanos Maiores

Ás de copas, do Silver 
Witchraft tarot

III A Imperatriz
Gestação tranquila, maternidade suave e ideal. A nutridora. Ama intensamente a gravidez e toda a gestação. A gravidez como a realização de uma importante etapa do feminino.

XVI A Torre
Interrupção da gravidez. Aborto espontâneo ou provocado voluntariamente.

XVIII A Lua
Gestação complicada, com muitos problemas de ordem emocional ou mesmo física. Dependendo do resto do jogo pode indicar o desconhecimento de se estar grávida, ou ainda esterilidade ou dificuldade de engravidar.

Arcanos Menores

Rainha de copas
Indica gravidez vivida profundamente. Conexão com a criança, seja afetiva ou psiquicamente. Aceitação plena da gravidez. Gestação que transforma a mulher de algum modo muito íntimo.

Valete de ouros
Gestação em fase inicial. Gravidez que se confirma. Pode indicar ponderação sobre a continuidade ou não da gravidez, ou sobre a vida a partir desse fato.

Ás de Copas
Indica a fertilidade feminina, podendo avisar sobre um período fértil, ou um risco de gravidez. Um bom sinal para mulheres em tratamento de fertilidade.

Leia também:  O Tarot e a Paternidade