terça-feira, 21 de abril de 2026

Interpretando um Sonho

Os sonhos, complexos simbólicos que
resumem as vivências da alma.

Uma amiga está passando por um luto que desencadeou uma série de reflexões, revisões e ressignificações da sua trajetória tanto pessoal quanto profissional. Ela me conta que está sonhando muito e um destes sonhos a deixou especialmente intrigada e quis compartilhar comigo, disse que me enviaria por áudio. Falei a ela que eu usava o tarot para a interpretação de sonhos, e que os resultados sempre foram muito surpreendentes e satisfatórios! Ela me enviou seu relato e depois retornei os áudios com as fotos das cartas e seus respectivos significados.

O sonho: Estava em casa e na porta de entrada, que tem uma saída para uma praça, e duas janelas por onde entra sol na entrada – detalhe real que ela acha muito bonito na sua residência – então entra um colega de profissão de quem ela gostava muito, uma pessoa querida que entra para lhe pedir dinheiro, e ela disse não ter para lhe dar. Eles desconversam e assim que ele sai ela observa que na praça em frente está cheio de meninos de todas as idades, de pequenos à adolescentes, e eles começam a atirar pedras na sua casa. Ela pede a eles que parem com aquilo, pois não era certo, e parecia que eles estavam brigando entre sim, ela os enfrentava sem medo. Quando volta para dentro de casa encontra um tapete verde cheio de joias que se põe a juntar, eis que surge uma apresentadora, que também era uma influencer, e diz que aquilo tudo era dela! Ela diz que tem debaixo do guarda roupa – e este móvel ficava no quarto que era do ente que ela acabara de perder – um colar de pedras preciosas que minha amiga se põe a puxar, porém ele parece não ter fim! E ela comunica isso à apresentadora e sugere que ela termine de retirar a peça. Quando ela volta para a sala, mais uma vez, ela encontra uma amiga de faculdade de muito tempo atrás, e de quem tinha se afastado, e esta amiga conta que estava indo para São Paulo encontrar o grupo de faculdade. Já faziam mais de 15 anos que haviam se formado, e diz que não a convidou porque ela não participava do grupo, o que minha amiga encarou bem e concordou, pois de fato, não participava mais do grupo. Essa sua amiga conta em seguida que tinha um podcast para o qual ela a convida a participar. Porém, minha amiga é levada a um outro lugar, um palco onde pedem a ela que fale seu trabalho. Ao sair deste lugar ela vai tomar café com outra pessoa quando descobre que esta amiga de faculdade, a que tinha um podcast, tinha também uma loja! Ela se sentiu muito feliz em descobrir que a amiga tinha se dado bem em sua jornada, e então acorda.

Sobre o rapaz que pede dinheiro: 9 de paus e 6 de ouros.

O 9 de paus representa uma exaustão de energia oriunda das muitas concessões que fez e que nem sempre foram espontâneas ou fáceis de realizar, coisa do 6 de ouros. Essa disposição em ajudar, ouvir e dar suporte às pessoas, tanto na vida pessoal quanto profissional, tem esgotado suas energias psíquicas. Há uma clara dificuldade em dizer não e impor limites, mas depois desta perda recente uma nova consciência surge, representada pelo “não” que conseguiu dar no sonho a uma pessoa muito estimada.

São as inúmeras possibilidades do tarot para trazer
compreensão sobre si mesmo, a vida e o tempo!

Sobre as crianças da praça apedrejando sua casa: A Temperança, Valete de paus e 6 de espadas.

As crianças são representadas primeiramente com A Temperança, simbolizando cura e reintegração da espontaneidade, atributo do Valete de paus. Porém, a ideia de ser espontânea como pede este Valete está carregada de pensamentos negativos, pesados de se lidar. Como   se a ideia de autonomia e autenticidade fosse impregnada de negativismo quanto a essas posturas naturais, o 6 de espadas. A brincadeira das crianças cria preocupação e apreensão. Essa atuação das crianças a tira da casa, como um convite selvagem da vida para ela cruzar as próprias fronteiras. A Temperança também simboliza viagem e movimentação.

Sobre a joias do tapete, a apresentadora e o colar: Cavaleiro de paus, 7 de ouros, Roda da Fortuna e O Eremita.

As cartas que representam as joias no tapete têm a ver com todo o foco e empenho de longa data da minha amiga em conquistar sua ascensão material e profissional, representados pelo Cavaleiro de paus. Este empenho nunca é coroado com um êxito à altura de seu esforço e expectativa, o 7 de ouros, como se lhe fugisse o tempo todo com golpes inesperados do destino, representados pela apresentadora que subitamente invade sua casa, e simbolizados no tarot pelo arcano de A Roda da Fortuna, que representa a referida apresentadora. O colar, por fim é representado pelo arcano de O Eremita, mostrando essa longa labuta e jornada solitária em busca deste ponto de destaque no seu desenvolvimento que, porém, nunca se realiza. O topo nunca é atingido!

Sobre a amiga do podcast: Rei de ouros, 4 e ouros e Valete de copas.

A amiga é representada como o sucesso financeiro, a prosperidade, o Rei de ouros. O convite para participar do podcast – tanto quanto para falar do seu trabalho – representa a busca por mais suporte e segurança, o 4 de ouros, já que sua jornada tem sido erma. A reclusão também é um atributo do 4 de ouros. E isso tem pesado muito, como também nos mostrou anteriormente O Eremita. O Valete de copas vem mostrar essa busca por este lugar de mais fluência, leveza, e esse contato com outras pessoas na mesma sintonia. Este valete também nos fala não só de socializar, mas conhecer outras realidades que proporcionam crescimento em todos os âmbitos. A amiga a convida para alguma coisa fora da casa onde vive. Fica claro aqui, outra vez, que a casa simboliza os limites em que minha amiga confinou a si mesma.

A perda recente da minha amiga foi de uma pessoa que sempre a impulsionou para a vida, seus estudos e trabalho. Com a perda deste ente, que era além de um ser querido também um motivador, a sua psique se moveu no sentido de ressignifcar propósitos e direções em sua vida. Além de, finalmente, vencer limitações e desvendar o enigma que a afasta dos seus objetivos mais elevados! Ela reconheceu estas mensagens como representantes fidedignos dos seus embates internos e os desafiadores do seu crescimento pessoal.

Leia também: Sonhos & Tarot


terça-feira, 31 de março de 2026

A Casa Interior

A Casa de Deus, do Tarot
de Marselha (1499/1859).

A casa é a mais perfeita representação da estrutura psíquica. Seus cômodos são análogos aos setores da consciência e suas funções. Todos nós possuímos uma parte espiritual/filosófica, político/ideológica, sexual, sociável, cultural/intelectual, artística/criativa, científica e assim por diante. O que muda de pessoa para pessoa são os tamanhos destes cômodos psíquicos e a intensidade com que nos envolvemos com eles. Para alguns os setores espiritual/filosófico são muito importantes e evocativos para a alma. Para outros os temas político/ideológico ocupam este lugar de importância. Entretanto, todos os demais setores ou cômodos da psique, por assim dizer, continuam existindo, porém com menor intensidade ou importância. A casa enquanto elemento arquetípico, como aparece na carta 4 do baralho Lenormand, traz segurança, estabilidade emocional, pertencimento, e equilíbrio. O envolvimento e o desenvolvimento de setores específicos da psique movimentam a vida tanto do indivíduo quanto de todos aqueles que cruzam seu caminho. Esses setores trazem para a consciência as qualidades antes citadas de estabilidade, segurança, pertencimento... A casa interior é vitalizada e harmonizada quando sabemos, internamente, o lugar de cada coisa e suas respectivas importâncias. No tarot aparece o arcano de número 16, La Maison Dieu, ou A Casa de Deus como aparece nos baralhos franceses, e que depois se popularizou com o nome de A Torre. Era uma referência, na Idade Média, aos hospitais e presídios, lugares onde a casa interior foi desrespeitada ou deturpada. Brincando com os números é interessante notar que no Lenormand a carta 4 mostra a casa interna em plena funcionabilidade, e no tarot o arcano 16 (4 x 4) mostra suas funções sendo extrapoladas ou pervertidas. Existe entre os arcanos menores do tarot uma outra carta que mostra a casa interior perfeitamente íntegra e funcional, e este arcano é o 10 de copas.

A Casa de Deus do Tarot Cabalístico,
de Oswald Wirth (1889).

Dito isto vem à mente a pergunta: o que seria a perversão ou extrapolação das funções da casa interna? Para responder isso temos de voltar ao simbolismo da casa em si. Imaginemos uma construção com dois pisos, em geral os cômodos superiores são onde se encontram os quartos de dormir, as bibliotecas particulares, e o sótão onde se guardam as coisas que se aprecia, onde se observam as paisagens ou vistas que nos agradam. Os cômodos inferiores é onde se localizam as peças em que usamos para as lidas da vida cotidiana, a cozinha onde preparamos os alimentos, a sala onde recebemos os amigos e convidados, a copa onde comemos todos juntos. Enfim, os temas comuns, sociais e básicos estão na parte inferior da casa e os íntimos e mais “elevados” na sua porção superior.  Se nunca descemos à sala de estar, ou de visitas como dizem alguns, porque preferimos viver no sótão com nossos livros, e janelas para luares ou copas de árvores à luz do sol, isso indica uma incapacidade interior de se relacionar com os outros, mas não significa uma não atuação ou contribuição para a vida. O exemplo de Arthur Schopenhauer (1788/1860) mostra bem isso, viveu uma vida solitária até o fim, sem praticamente nenhuma socialização, e ainda assim seu trabalho foi de grande influência e impacto sobre o mundo moderno. Ele dizia que a solidão era a mais elevada condição para o desenvolvimento intelectual. Isso, com certeza, deve ter tido um grande custo emocional.

A Casa, numa das muitas versões
do baralho Lenormand (1840).

Outro bom exemplo que o simbolismo da casa nos traz é o de que no local onde defecamos não é onde fazemos nossas refeições, ou o local onde dormimos não é onde recebemos nossas visitas, e assim por diante. Quando algo assim ocorre é sinal de que alguma coisa está indo muito mal! Da mesma forma há um delicado equilíbrio entre aproximar áreas distintas da psique relacionando-as, e misturá-las sem respeitar suas diferenças e funções. Quando como, por exemplo, envolvemos assuntos político/ideológicos na senda da espiritualidade, ou quando sexualizamos todas as nossas relações sociais. Isso é sinal de que valores foram mal desenvolvidos, ignorados ou pervertidos. E esse comportamento cria uma desordem em nós mesmos e naqueles com quem nos relacionamos! Então, como bem nos mostra o arcano de A Torre, a casa de Deus explode. Essa casa somos nós, o lugar onde a divindade interna habita, e merece toda nossa atenção, cuidado e reverência.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Tarot e o Tempo

Três arcanos do tarot falam claramente sobre o tempo, e nossa relação com ele. O primeiro deles é O Eremita. Hoje este arcano nos remonta à imagem de um velho sábio, e da disposição de aprender com os eventos desafiadores de nossas vidas. O nome Eremita só aparece mais tardiamente nos baralhos franceses, como ‘l’Ermite”, no tarot de Marselha. Entre os séculos XV e XVI era chamado de “il Gobbo”, o Corcunda, como no baralho Minchiate de 1534. Já no “Strambotti di Triunphi”, ou Canção do Tarot, de 1500 e no Tarot Bolonhês era chamado de “il Vecchio” ou “Vechiarello”, o Velho. Nos sonetos de Teófilo Folengo de 1527 era chamado de “il Tempo”, o Tempo. Antes era representado segurando uma ampulheta, simbolizando a passagem do tempo. A imagem do velho segurando uma ampulheta nos remete à Cronos, o senhor do tempo dos gregos, que para os romanos era Saturno, senhor da colheita e também da passagem do tempo! Como o Eremita antecede a carta de A Morte na sequência dos arcanos maiores, fica claro a ideia de que ele não nos fala do tempo como um conceito abstrato, mas sim do efeito do tempo sobre nosso corpo, vitalidade e desenvolvimento pessoal. A ampulheta foi substituída por uma lanterna, ou seja: “o tempo está passando, ilumine-se!”. O termo corcunda talvez seja o mais deslocado de seu simbolismo. Os corcundas eram considerados de certa forma mágicos, e dizia-se que dava sorte passar a mão em sua corcova. A sorte como um recurso para se desviar ou transformar um destino indesejado, e o destino é um conceito muito relacionado ao tempo! Da mesma forma muitos velhos acabavam ficando curvados ou corcundas! O Eremita está nos falando de aproveitar o tempo que nos é dado para aprender, e compreender a vida e o sentido próprio de crescer, encontrar seu propósito de ser e de existir. O que mais tarde Jung chamaria de individuação. A igreja católica teve muitos de seus santos vivendo como eremitas, e que ficaram conhecidos por suas reflexões, penitências, caridade e uma elevação de si mesmos nesta busca de comunhão com Deus. Entre eles São Paulo de Tebas, que viveu 113 anos, e é venerado tanto na Igreja Católica quanto na Ortodoxa e Copta como santo. São Leonardo de Noblat, devotado à oração e ao auxílio aos necessitados na França. Santo Arsênio, conhecido por sua profunda sabedoria, viveu no deserto do Egito. São Marino, que se retirou à uma floresta, e há muitos relatos lendários da sua relação espiritual com a natureza. No local onde ele morreu ergueu-se a República de San Marino. Retiro, a procura por profundidade, solidão, o encontro das dificuldades, restrição, e também da sabedoria, resiliência e a busca por iluminação em suas vidas expressam muito bem os atributos superiores e inferiores do arcano de O Eremita que conhecemos hoje!

O Eremita, do Visconti-Sforza Tarot
(1440-1470) segurando a ampulheta.

Com o arcano de O Mundo, com sua dançarina central representando a humanidade, temos a ideia dos ciclos setenários nos quais nos desenvolvemos tanto biológica quanto psicologicamente. Aos sete anos saímos da primeira infância e exploramos o mundo, aos 14 entramos na adolescência e ampliamos esta exploração, e aos 21 somos seres humanos legal e biologicamente aptos a viver e nos posicionar neste mundo! Assim sendo sucessivos ciclos de crescimento e de desenvolvimento se desenrolam. Estes ciclos terão diferentes tempos e serão carregados, cada um, do seu próprio significado! Muitos questionam porque a Morte, com sua foice análoga à Saturno, o senhor da colheita e do tempo, não aparece nesta relação de arcanos que representam a passagem do tempo e nossa relação com ele. Isto acontece simplesmente porque vivemos muitas mortes (perdas) antes de nossa própria morte. Parentes, empregos, amores, locais que amamos ou nos identificamos, e na maioria esmagadora das vezes tudo isso é involuntário! Haja visto o tanto que a história está pontilhada de sinfonias e teoremas inacabados. Seus autores não puderam completar seus ciclos de realização com essas obras. A Morte não fala da possibilidade de interação com o tempo, e sim da realidade de que estamos morrendo todos os dias, e de que o modo e a hora exata do momento final não estão sob nosso controle. Assim o tempo é a esteira onde esta morte, diária e regular, acontece aos poucos em nós, e subitamente em coisas e pessoas ao nosso redor. O Mundo nos fala do fechamento perfeito de ciclos que marcam nossa passagem terrena, e nosso próprio processo evolutivo, seja em toda uma vida, seja em uma obra. É um momento em que tempo, função e propósito se fecham em si, e por isso mesmo este arcano encerra a jornada dos 22 arcanos maiores do tarot! Sua associação com o planeta Saturno, atribuída na antiga ordem inglesa Golden Dawn, é perfeita. Ele era o antigo deus da semeadura e da colheita, do trabalho bem executado que resultava em bons frutos. Ao fim de cada colheita uma nova colheita se pressupõe, com todo um novo ciclo de semeadura, cultivo e colhimento. Assim O Mundo fala de um fechamento que leva a outro nível de amadurecimento, realização e novo engajamento em outros processos de evolução, até a transcendência. A evolução não tem fim, seus ciclos se refinam e se elevam, do mais básico ao sagrado ou divino. É o arcano da excelência no aproveitamento do tempo que nos é dado nesta vida, e neste mundo. A morfologia da palavra desenvolvimento é “deixar de envolver-se com”. Com o quê? Com tudo que é inferior, denso, limitante e incompatível com nossa proposta evolutiva, de realização e autorrealização.

O Universo (O Mundo) do Thoth Tarot, os
ciclos evolutivos da vida ao longo do tempo.

O 7 de ouros encerra essa tríade. Sua regência, segundo a Hermética Ordem da Aurora Dourada, é de Saturno em Touro. O senhor do tempo encontra o signo mais fixo e conservador do zodíaco! Se no Eremita somos chamados a aprender com o tempo e o envelhecimento, e no Mundo vamos passando por suas etapas significando, ressignificando e evoluindo com os ciclos temporais, e elevando a nós mesmos no processo, no 7 de ouros temos de aprender com o ritmo da passagem do tempo em nós e nos outros. Existe um tempo de agir e outro de esperar, de fazer e de descansar, de agarrar e soltar, de persistir e outro de se retirar. Muita sabedoria advém de saber distinguir entre eles, mas essa sabedoria nunca vem sem algum tipo de sofrimento. Este é um aprendizado que decorre da conscientização de nossa limitação – atributo saturnino de medidor do tempo e do destino e o definidor de tudo o que nos delimita, desde a cronologia ao Karma, até pele, ossos e dentes na relação física – e de nossa resistência – atributo taurino que representa a proteção da terra que envolve a semente até que ela brote, mas que ao fazê-lo terá de lutar com a própria resistência da terra em liberá-la. Touro representa o medo da mudança, o apego ao já conhecido que nos mantém na inércia, o lugar onde a evolução não acontece! Não é à toa que o título esotérico atribuído a esta carta na antiga Golden é de o Senhor do Fracasso, não como um vaticínio, mas como a consequência natural daqueles que se recusam a considerar o tempo das coisas, e o respeito ao própria tempo e ritmo em relação a elas. Nos atributos superiores deste arcano constam a paciência e a tolerância, e nos inferiores a condescendência e a resignação.

O 7 de ouros do Zen Tarot de Osho, e o
tempo intrínseco de todas as coisas.

Ao considerarmos os números, os símbolos arquetípicos mais antigos, dos respectivos arcanos temos o 9 do Eremita, dígito da sabedoria, da amplitude de perspectiva, da sabedoria transcendente, e do serviço ao mundo. O 21, de O Mundo, onde a dualidade da consciência (2) encontra a grande unidade do espírito (1), o que resulta na expansão de si mesmo, e na expressão de uma nova realidade que possibilita novas realizações (3). E, por fim, o 7 da profundidade, do discernimento, da reflexão e da análise crítica e autocrítica relacionada à terra, o símbolo do mundo manifesto, concreto e real, e do plano físico (naipe de ouros). O elemento onde a passagem do tempo é mais visível, transformável e possível de averiguação.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Reiki - Resgatando a Conexão Espiritual

Desde que teve o grande boom entre os anos 80 e 90 o reiki virou a prática terapêutica complementar mais aplicada do mundo! Em 2007 a ONU, através da OMS, reconheceu o reiki como uma prática complementar de saúde que se mostrou eficiente no tratamento da dor, do estresse e da ansiedade. É o único sistema de imposição das mãos que conquistou este reconhecimento, o que tornou possível que fosse disponibilizado e aplicado nos sistemas públicos de saúde no mundo todo! Mais uma vez sua perspectiva terapêutica foi exaltada e, paradoxalmente, sua essência espiritual colocada mais de lado. Milhões de pessoas no mundo todo tiveram acesso à técnica desenvolvida pelo Dr. Mikao Usui (1865/1926) de imposição das mãos. Seu legado de cuidado e desenvolvimento humano. Em sua origem o reiki veio mesmo do desejo do Dr. Usui de curar as enfermidades dos doentes e dos desvalidos socialmente. Para todos que conhecem a história do reiki sabem que logo ele percebeu que as pessoas não valorizam aquilo que vem como caridade e destituído de propósito ou reflexão. Assim nasceu, inspirado pelos versos e reflexões do Imperador Meiji (1852/1912), os cinco princípios reiki. Já falei deles aqui e vou deixar o link no final deste artigo. Com a aplicação do sistema do Dr. Usui o reiki mostrou possuir outras perspectivas de crescimento e desenvolvimento pessoal e espiritual, que passaram batido por aqueles que estavam mais interessados em ensinar a técnica do que em desenvolver um despertar interior.

De todas as técnicas modernas de imposição das mãos o reiki é a mais simples, difundida e totalmente livre de dogmas religiosos. Também está livre do controle e da exploração comercial da marca de copyright, que garante direitos exclusivos de uso da marca, suas metodologias e cobranças. Sem falar que os praticantes do copyright “espiritual” nunca são de fato iniciados por direito. Muitos dos atuais métodos requerem revalidação a cada ciclo de quatro a cinco anos. O que é no mínimo confuso, como pode ser tirado de alguém algo que lhe foi ensinado, sintonizado ou aberto, seja intelectual ou energeticamente? Nem preciso dizer que as técnicas copyright são norte-americanas... Não ter proteção de exclusividade comercial, por outro lado, deixou o reiki à mercê de todo tipo de maluquice, exploração e enganação. Não pretendo entrar neste tema neste momento, seriam muitos itens a serem analisados, mas o maior de todos os engodos é o da formação a distância. Isso simplesmente não existe! Não foi apresentado nada parecido com isto pelo Dr Usui, e tem constituído como a maior e mais propagada mentira sobre o reiki. Uma mentira dessa natureza só se espalha desta forma porque quem a divulga e se beneficia – o “iniciador” – tanto quem a compra para seu benefício comercial – o “terapeuta” – estão unidos para propagar uma farsa para o simples e descarado lucro pessoal. O que denota a total de falta de comprometimento com a preservação da cultura reiki, quer seja como um método terapêutico, quer seja como uma prática espiritual! Não à toa ouvirmos com certa frequência relatos de pessoas que se trataram com reiki e não sentiram diferença... Com pessoas obtendo suas formações a quilômetros de distância não é exatamente de se surpreender!

O Zen

O reiki como prática espiritual tem princípios muito parecidos tanto com o Taoísmo chinês quanto com o Zen budismo japonês. O Zen surge na China no século VII levado pelo monge indiano Bodhidharma que enfatiza a prática do Zazen. Chega ao Japão somente no século XII, e cria ali raízes profundas. Lembrando que nenhuma dessas práticas eram aplicadas pelo Dr. Usui, ele e sua família eram afiliados ao Budismo Tendai. Enquanto o budismo Tendai como filosofia crê no Sutra do Lótus como o ensinamento supremo do Buda, e toda sua verdade, o Zen budismo, por outo lado, acredita que a prática direta e pessoal está acima de qualquer escritura ou ritual. O Zen acredita também que todas as coisas no universo estão interconectadas. Todos os seres, fenômenos, e elementos são uma unidade. Esta interconexão e experiência de unidade seria obtida através do Zazen, a meditação sentada, que seria o centro e a essência da própria prática búdica. No século XX o trabalho do grande Mestre Zen vietnamita Thich Nhat Hanh (1926/2022) nos mostrou que além do Zazen podemos extrair momentos de meditação – através da atenção plena – no nosso dia-a-dia. Caminhadas, lidas da rotina como varrer a casa, cozinhar, etc estariam a serviço de uma presença plena. O reiki fala exatamente dessa presença plena, um momento para deixar a mente, entrar em sintonia com o todo e fluir com a prática, sentindo e alargando com esta percepção tanto do fluxo da energia Ki universal, animadora de tudo, quanto a interconexão com a existência!

O Tao

Embora de origem chinesa, e bem mais antigo que o Zen, o Taoísmo sustenta conceitos que também se aplicam bem à prática reiki. A sua origem está associada ao filósofo Lao Tzu, autor do Tao Te Ching. Ele viveu no século VI a.C. um tempo onde viveram também outros grandes filósofos e iluminados da história como Pitágoras na Grécia e Buda na Índia. O Taoísmo tem uma vertente filosófica e outra religiosa, que surgiu bem depois. Aqui nos interessa a filosofia taoísta. O Tao é em si um conceito misterioso, seria a própria essência cósmica que rege todas as coisas, e que se expressa nos ritmos e ciclos da natureza. Nos ensinamentos taoístas são feitas muitas alusões aos movimentos naturais, como o das estações e ao fluxo do tempo. Aquele que atinge sua harmonia interior atinge o Tao. No reiki a energia ki pode ser considerada como parte deste todo, já que sua definição natural é a de força animadora de tudo que existe! O “ki” japonês tem sua origem no “chi” dos chineses. E a ideia de integração com todas as coisas, assim como no Zen, se dá através desta consciência de que estamos imersos num mesmo fluxo de vida, o mar da energia ki universal.

Outro conceito taoísta que se adequa muito bem à prática reiki é Wu-wei, que seria um fazer sem fazer. Basicamente significa que tudo o que é feito sem a ideia de esforço, sacrifício ou pesar está dentro do Tao. Seria a sintonia do empenho humano com a espontaneidade, a fluência e a leveza. Tudo o que exige demais, ou altera o que somos em essência, não vale a jornada. Segundo o Taoísmo uma vida em harmonia tem de observar três pilares: a simplicidade, a modéstia e a afetividade. Nada me parece mais conectado à prática reiki do que isso. O reiki é uma ação sem esforço ou empenho extenuante, e isso para muitas pessoas é um problema. Nossa cultura valoriza tudo o que custou horas e anos de dedicação e construção – embora tudo isso possa ser feito sem sofrimento quando em sintonia com o que somos – e isso não é exatamente o que se espera de qualquer atividade, seja ela qual for! Inúmeros praticantes do reiki como terapia já ouviram coisas como “mas faz só isso?”, “tá, mas além do reiki faz mais o quê?”. Há muitos dos próprios terapeutas que sintonizam com esta lógica e saem buscando algo que “complemente” o reiki. Estamos vivendo a Era da insegurança terapêutica, pessoas que fazem uma variada gama de formações confundindo formação com graduação espiritual, e assim seguem sem nunca entender exatamente sobre discipulado espiritual, campos de consciência e energia, e acabam misturando muitas técnicas numa mesma sessão. Por fim vão ficando todos muito iguais, com os mesmos recursos e sem nenhum diferencial, e muito menos conteúdo e reflexão sobre o que fazem. A cultura ocidental como um todo tem sérios problemas com a simplicidade. A afetividade é um dos primeiros planos de consciência a despertar na prática reiki, ficamos cada vez mais compassivos com a entrega daqueles que se põe sobre nossos cuidados e, se nos sintonizamos mesmo com este sentimento, nos tornamos mais despojados e humildes com o tempo. Para isso, porém, há de se ter dedicação, entrega e observação. Lembre-se que o reiki começa dentro.

Reiki – Além da Terapia

São inúmeros os relatos de a terapia reiki ser um recurso valioso no tratamento dos distúrbios da vida moderna como ansiedade, estresse, déficit de atenção... A prática reiki tem sido aplicada também nos processos de cicatrização, e de convalescença, como tem sido aplicada com eficiência como tratamento complementar tanto para pré quanto pós-operatórios. O reiki, entretanto, vai além disso. Com os exemplos que citei anteriormente espero que tenha deixado claro que a prática reiki funciona como uma forma de meditação, e introspecção. Assim como funciona como um purificador natural de nossa mente e campo energéticos, podendo ser autoaplicado todo os dias pela manhã ou ao anoitecer, antes de dormir. Um exercício que gosto de praticar, e que se utiliza do princípio da Haja Yoga, de usar as imagens da mente para doutrinar apropria mente, é o de ao realizar a autoaplicação imagino estar sendo sintonizado com as árvores, pássaros, nuvens, espaço, sol, estrelas... Outras vezes me imagino sendo conectado às águas, e outras vezes ainda às montanhas, florestas, pedras preciosas e às águas tranquilas do fundo do chão. Essa vivência tem me ajudado muito a melhorar meu foco, a me centrar em momentos difíceis, a experimentar aquela conexão com o todo que afasta toda a sensação de desorientação que por vezes nos toma em certos momentos. Faça a sua experiência, descubra como você pode se relacionar com o reiki de uma forma íntima, profunda e espiritual. Não há fórmulas prontas! 

Use o reiki para tratar seus animais de estimação, para mandar para pessoas queridas distantes que sente que precisam. Use o reiki na sua horta ou jardim. Aplique a energia reiki à sua agenda da semana, ou à alguma situação tensa do futuro, como uma conversa difícil com alguém. Reiki é para a vida! Uma aluna contou que o filho, que é músico e reikiano nível II, envia reiki antecipadamente para seus locais de apresentação. Com o tempo começou a se sentir mais tranquilo e confiante nos seus shows. Quando dificuldades de entrosamento com os membros da banda surgiram passou a enviar reiki para eles e logo se realinharam. Soube de uma reikiana que organizou com um grupo de amigos uma prática coletiva de envio de reiki para o planeta, estados e cidades que tomavam conhecimento de estarem passando por problemas. Em seguida começaram a enviar coletivamente para pessoas enfermas e ou familiares em dificuldades. Faziam isso em reuniões quinzenais com até 3 horas de duração que acabavam virando eventos sociais e espirituais entre eles. Todos alegavam, segundo ela, que as coisas pareciam fluir melhor em suas próprias vidas depois que deram início às reuniões. É sempre bom lembrar que parte da energia ki que enviamos em tratamentos terapêuticos, ou não, fica conosco para que possamos nos autoaplicarmos para nosso próprio equilíbrio pessoal.