Três arcanos do tarot falam claramente sobre o tempo, e nossa relação com ele. O primeiro deles é O Eremita. Hoje este arcano nos remonta à imagem de um velho sábio, e da disposição de aprender com os eventos desafiadores de nossas vidas. O nome Eremita só aparece mais tardiamente nos baralhos franceses, como ‘l’Ermite”, no tarot de Marselha. Entre os séculos XV e XVI era chamado de “il Gobbo”, o Corcunda, como no baralho Minchiate de 1534. Já no “Strambotti di Triunphi”, ou Canção do Tarot, de 1500 e no Tarot Bolonhês era chamado de “il Vecchio” ou “Vechiarello”, o Velho. Nos sonetos de Teófilo Folengo de 1527 era chamado de “il Tempo”, o Tempo. Antes era representado segurando uma ampulheta, simbolizando a passagem do tempo. A imagem do velho segurando uma ampulheta nos remete à Cronos, o senhor do tempo dos gregos, que para os romanos era Saturno, senhor da colheita e também da passagem do tempo! Como o Eremita antecede a carta de A Morte na sequência dos arcanos maiores, fica claro a ideia de que ele não nos fala do tempo como um conceito abstrato, mas sim do efeito do tempo sobre nosso corpo, vitalidade e desenvolvimento pessoal. A ampulheta foi substituída por uma lanterna, ou seja: “o tempo está passando, ilumine-se!”. O termo corcunda talvez seja o mais deslocado de seu simbolismo. Os corcundas eram considerados de certa forma mágicos, e dizia-se que dava sorte passar a mão em sua corcova. A sorte como um recurso para se desviar ou transformar um destino indesejado, e o destino é um conceito muito relacionado ao tempo! Da mesma forma muitos velhos acabavam ficando curvados ou corcundas! O Eremita está nos falando de aproveitar o tempo que nos é dado para aprender, e compreender a vida e o sentido próprio de crescer, encontrar seu propósito de ser e de existir. O que mais tarde Jung chamaria de individuação. A igreja católica teve muitos de seus santos vivendo como eremitas, e que ficaram conhecidos por suas reflexões, penitências, caridade e uma elevação de si mesmos nesta busca de comunhão com Deus. Entre eles São Paulo de Tebas, que viveu 113 anos, São Leonardo de Noblat, devotado à oração e ao auxílio aos necessitados na França. Santo Arsênio, conhecido por sua profunda sabedoria, viveu no deserto. São Marino, que se retirou à uma floresta, e há muitos relatos lendários da sua relação espiritual com a natureza. No local onde ele morreu ergueu-se a República de San Marino. Retiro, a procura por profundidade, solidão, o encontro das dificuldades, restrição, e também da sabedoria, resiliência e a busca por iluminação em suas vidas expressam muito bem os atributos superiores e inferiores do arcano de O Eremita que conhecemos hoje!
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| O Eremita, do Visconti-Sforza Tarot (1440-1470) segurando a ampulheta. |
Com o arcano de O Mundo, com sua dançarina central representando a humanidade, temos a ideia dos ciclos setenários nos quais nos desenvolvemos tanto biológica quanto psicologicamente. Aos sete anos saímos da primeira infância e exploramos o mundo, aos 14 entramos na adolescência e ampliamos esta exploração, e aos 21 somos seres humanos legal e biologicamente aptos a viver e nos posicionar neste mundo! Assim sendo sucessivos ciclos de crescimento e de desenvolvimento se desenrolam. Estes ciclos terão diferentes tempos e serão carregados, cada um, do seu próprio significado! Muitos questionam porque a Morte, com sua foice análoga à Saturno, o senhor da colheita e do tempo, não aparece nesta relação de arcanos que representam a passagem do tempo e nossa relação com ele. Isto acontece simplesmente porque vivemos muitas mortes (perdas) antes de nossa própria morte. Parentes, empregos, amores, locais que amamos ou nos identificamos, e na maioria esmagadora das vezes tudo isso é involuntário! Haja visto o tanto que a história está pontilhada de sinfonias e teoremas inacabados. Seus autores não puderam completar seus ciclos de realização com essas obras. A Morte não fala da possibilidade de interação com o tempo, e sim da realidade de que estamos morrendo todos os dias, e de que o modo e a hora exata do momento final não estão sob nosso controle. Assim o tempo é a esteira onde esta morte, diária e regular, acontece aos poucos em nós, e subitamente em coisas e pessoas ao nosso redor. O Mundo nos fala do fechamento perfeito de ciclos que marcam nossa passagem terrena, e nosso próprio processo evolutivo, seja em toda uma vida, seja em uma obra. É um momento em que tempo, função e propósito se fecham em si. Por isso sua associação com o planeta Saturno atribuída na antiga ordem inglesa Golden Dawn é tão perfeita. Ele era o antigo deus da semeadura e da colheita, do trabalho bem executado que resultava em bons frutos. Ao fim de cada colheita uma nova colheita se pressupõe, com todo um novo ciclo de semeadura, cultivo e colhimento. Assim O Mundo fala de um fechamento que leva a outro nível de amadurecimento, realização e novo engajamento em outros processos de evolução, até a transcendência. A evolução não tem fim, seus ciclos se refinam e se elevam, do mais básico ao sagrado ou divino. É o arcano da excelência no aproveitamento do tempo que nos é dado nesta vida, e neste mundo. A morfologia da palavra desenvolvimento é “deixar de envolver-se com”. Com o quê? Com tudo que é inferior, denso, limitante e incompatível com nossa proposta evolutiva, de realização e autorrealização.
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| O Universo (O Mundo) do Thoth Tarot, os ciclos evolutivos da vida ao longo do tempo. |
O 7 de ouros encerra essa tríade. Sua regência, segundo a Hermética Ordem da Aurora Dourada, a Golden Dawn, é de Saturno em Touro. O senhor do tempo encontra o signo mais fixo e conservador do zodíaco! Se no Eremita somos chamados a aprender com o tempo e o envelhecimento, e no Mundo vamos passando por suas etapas significando, ressignificando e evoluindo com os ciclos temporais, e elevando a nós mesmos no processo, no 7 de ouros temos de aprender com o ritmo da passagem do tempo em nós e nos outros. Existe um tempo de agir e outro de esperar, de fazer e de descansar, de agarrar e soltar, de persistir e outro de se retirar. Muita sabedoria advém de saber distinguir entre eles, mas essa sabedoria nunca vem sem algum tipo de sofrimento. Este é um aprendizado que decorre da conscientização de nossa limitação – atributo saturnino de medidor do tempo e do destino e o definidor de tudo o que nos delimita, desde a cronologia ao Karma, até pele, ossos e dentes na relação física – e de nossa resistência – atributo taurino que representa a proteção da terra que envolve a semente até que ela brote, mas que ao fazê-lo terá de lutar com a própria resistência da terra em liberá-la. Touro representa o medo da mudança, o apego ao já conhecido que nos mantém na inércia, o lugar onde a evolução não acontece! Não é à toa que o título esotérico atribuído a esta carta na antiga Golden é de o Senhor do Fracasso, não como um vaticínio, mas como a consequência natural daqueles que se recusam a considerar o tempo das coisas, e o respeito ao própria tempo e ritmo em relação a elas. Nos atributos superiores deste arcano constam a paciência e a tolerância, e nos inferiores a condescendência e a resignação.
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| O 7 de ouros do Zen Tarot de Osho, e o tempo intrínseco de todas as coisas. |
Ao considerarmos os números, os símbolos arquetípicos mais antigos, dos respectivos arcanos temos o 9 do Eremita, dígito da sabedoria, da amplitude de perspectiva, da sabedoria transcendente, e do serviço ao mundo. O 21, de O Mundo, onde a dualidade da consciência (2) encontra a grande unidade do espírito (1), o que resulta na expansão de si mesmo, e na expressão de uma nova realidade que possibilita novas realizações (3). E, por fim, o 7 da profundidade, do discernimento, da reflexão e da análise crítica e autocrítica relacionada à terra, o símbolo do mundo manifesto, concreto e real, e do plano físico (naipe de ouros). O elemento onde a passagem do tempo é mais visível, transformável e possível de averiguação.



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