![]() |
| A prática da tarologia requer mais do que só sensibilidade psíquica e aptidões mediúnicas... Estudo constante e diversificado, além de leituras constantes e revisões do saber são essenciais! |
Eu não havia sentido, até aqui, a necessidade de escrever sobre a ética no tarot. Depois de encontros recentes com outros buscadores que estão, inclusive, se apresentando como profissionais da tarologia, achei que devia salientar alguns pontos sobre a prática. Vale lembrar que a ética é por definição, o reconhecimento de quais regras são corretas ou incorretas para a boa convivência entre as pessoas, tanto em contexto pessoal como social. E isso inclui desde a interação com vizinhos e colegas de trabalho, até o trato direto com clientes e alunos. A ética visa o convívio respeitoso e harmonioso entre as pessoas. Diferente da moral, que preserva um conjunto de valores, crenças e regras sociais pertinentes a uma sociedade ou cultura que são passados adiante por gerações. A moral se aplica a um todo, a ética e a um âmbito mais particular. A ética profissional, por sua vez, é o conjunto de regras de determinada categoria de trabalho que visa preservar o bom andamento de determinada prática para o bem-estar e preservação tanto de clientes quanto de profissionais. Então, baseado tanto em minhas trocas diretas com outros profissionais, mais o que tenho visto pelas redes sociais nos últimos tempos, este texto se faz mais do que urgente. Vamos aos tópicos que achei mais pertinentes à prática oracular, e sobretudo com o tarot, na atualidade:
1) Definitivamente não é ético cobrar por uma leitura, ainda que seja apenas uma tiragem, se não tem domínio do método de leitura escolhido ou do significado das cartas como um todo. A sintonização com o simbolismo dos arcanos demora um tempo, assim como a compreensão do seu próprio estilo ou viés de leitura. Como eu costumo dizer a quem está se iniciando, leva um tempo até descobrir o que o tarot quer de nós. Com a prática é que se descobre se nosso olhar revela mais vivências práticas, psicológicas ou espirituais mesmo. Se temos mais facilidade com sistemas e leituras mais complexos e elaborados ou mais simples e diretos... Tem um tempo de experimentação, auto-observação e autodescoberta que deve ser respeitado. Demorei quatro anos antes de me sentir apto para essa etapa. Antes de saber disso você simplesmente não está pronto! E cobrar por isto, assim como não avisar que você está treinado porque está no início da sua jornada é antiético, mercenário e desrespeitoso com o tarot e muito mais ainda com aquele que confiou em você!
2) Da mesma forma é simplesmente irresponsável e inconsequente, se utilizar de termos que desconhece! O Instagram e o TikTok estão cheios de vídeos de pessoas falando em Karma, sombra, egrégora, psique com definições totalmente erradas ou distorcidas. Esta obsessão ridícula e ignorante de achar que a “intuição sabe de tudo” faz com que muitos tarólogos não estudem outros campos teóricos da espiritualidade, do hermetismo, e mesmo das teorias psicológicas. Sem falar naqueles que têm uma evidente falta de cultura geral se predispondo a ler oráculos. Já ouvi cartomantes com vidência acurada dizendo coisas como “não estudo nada destas coisas para não atrapalhar minha vidência!”. Sim, isto existe. Como se a vidência de alguém dessa autorização para falar de coisas que a consciência não está habilitada. Aqui no estado teve o caso de um vidente que orientava as pessoas com câncer a parar a medicação, parar de tomar água, e comer certos tipos de alimentos de modo mais contínuo, e até mesmo pingar limão no olho! Ele não tinha formação em nenhuma área médica ou da nutrição, era um praticante do veganismo há muitos anos, que se achou pronto para estas recomendações por causa das suas visões... Pessoas com vidência, mais que as intuitivas, podem cair neste tipo de “viagem do ego”, mas todos devemos ter cautela com este tipo de fantasia. Quem não tem alguma base de autoconhecimento, preparo e um mínimo de auto-observação não discernem sobre o que é intuitivo ou mediúnico de uma ilusão da mente. Repetir palavras de efeito não ajuda ninguém, e podem causar mais danos. É desonesto. Não é demérito dizer que não sabe, ou de que não pode ajudar. Tem vezes que é preciso indicar terapias, médicos, fisioterapeutas, psiquiatras, isso é responsabilidade e cuidado legítimo com o outro. Reconhecer os próprios limites é infinitamente mais honroso, e muito menos danoso, que dar uma resposta genérica que não esclarece nada, não acolhe o sofrimento do outro, e nem aponta caminho nenhum para a libertação!
3) Não permita que sua opinião pronta sobre determinado assunto interfira na nitidez e honestidade da sua interpretação! Tenho dito sempre, e terei de dizer até que se compreenda, que a leitura não é sobre você e sua vida. Além de assuntos morais, como relações homo afetivas ou extraconjugais, tem temas da própria senda espiritual que podem evocar preconceitos intrínsecos como o uso da a ayahuasca ou recursos de magia. Pessoas com enfoques mais conscienciais em filosofias como zen budismo ou taoísmo tendem a não ver com bons olhos o uso de enteógenos, ou de quaisquer abordagens tidas como mágicas, e vice-versa! Para ambos os casos vale a mesma regra: isto não é sobre você!
4) Evite sempre jogar para pessoas muito próximas, como familiares ou parentes, isso afasta o desejo de intervenção que muitas vezes é motivado por um instinto de proteção de ajudar ou poupar o outro. Nem preciso dizer que abrir as cartas para alguém com quem você já se relacionou, ou para a pessoa com quem ele ou ela está se relacionando no momento, é impensável! Suas respostas, ainda que totalmente honestas com as revelações do tarot, podem soar para o outro como intervenção, opinião, ressentimento ou experiência própria sendo relembrada. Para evitar este tipo de constrangimento diga que isso o compromete eticamente, e que ficará mais confortável se ela ou ele procurar outro intérprete para se orientar. Da mesma forma evite os namorados ou namoradas de amigos ou parentes. Muitas pessoas usam recursos manipulativos do tipo: “o seu amigo(a) disse isso do nosso relacionamento”...
5) Por fim, a mais básica das recomendações, mas não menos importante: mantenha absoluto sigilo de tudo o que lhe é confiado na hora da sessão. Essa é uma postura que muitos seguem mais pelas implicações sociais que qualquer outra coisa. É comum se contar casos de clientes para ilustrar aulas e palestras, sem nunca citar o nome de ninguém, é claro! Porém, é importante também cuidar para não contar a história perto de alguém que conheça a pessoa e que poderá a reconhecer pela história apresentada. Esta pode ser justamente aquela pessoa que o consulente não gostaria que soubesse nada seu.
A postura ética nas leituras de tarot preserva a prática e enaltece o trabalho do leitor. Muitas pessoas tiveram experiências de tal modo desagradáveis com as leituras de tarot que as fizeram rechaçar novas consultas. Um mau profissional não detona somente a sua reputação, mas a do próprio sistema que ele utiliza e de todos que fazem o mesmo. A tarologia praticada com seriedade, conhecimento profundo, clareza intuitiva, mais prática e estudo continuados, aliados a uma conduta ética apropriada pode ser reveladora e transformadora, além de eficaz e iluminadora!


Nenhum comentário:
Postar um comentário