sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os Amantes - Arcano VI

Título Esotérico – Os Filhos da Voz; O Oráculo dos Deuses Poderosos (A mente dual sempre aberta a sugestões e indicações externas; A consulta ao coração – mestre ou guia interior – que reflete planos superiores de consciência que nos dirigem à evolução).

Analogia Astrológica – Gêmeos (O 3º signo), o signo que assinala o fim da primavera no Hemisfério Norte, quando enfim as flores já brotaram e os insetos e animais saem do casulo e do ventre, ou dos ovos. Uma vez livres eles começam a explorar e conectar-se com o mundo que os cerca. Por isso este é o signo da curiosidade, da comunicação e das relações interpessoais com o meio, bem como da multiplicidade de possibilidades que confundem, muitas vezes, a razão.

Analogia Numerológica – O 6 como a cifra da perfeição. O único número simples que ao ser desmembrado em suas partes é reunificado plenamente. Juntando sua sexta parte (1), mais sua terça parte (2), mais sua metade (3), o temos íntegro novamente! É o número do amor, da união e da família bem como da busca pelo entendimento e pela perfeição na existência. Seu símbolo esotérico é a estrela de seis pontas, também chamada de Selo de Salomão. Essa estrela é símbolo do povo judeu, que se manteve unido mesmo diante das maiores privações, e do próprio rei Salomão, conhecido por sua sabedoria ao tomar decisões!

O Arcano – Um homem jovem está cercado por duas mulheres, seu rosto está inclinado para a Mulher morena à sua direita, mas o seu corpo inclina-se para a mulher loura à sua esquerda. Ele usa uma túnica com listas verticais nas mesmas cores das roupas das mulheres, mas com o acréscimo do amarelo! O jovem é louro e sobre sua cabeça aparece um anjo bebê entre uma luz fulgurante que mira seu coração com uma flecha prestes a ser disparada! A mulher loura à sua esquerda aponta justo para o seu coração, enquanto a da direita aponta para o chão ou, segundo algumas interpretações, para seus genitais.

Significado – Este arcano é o que assinala a entrada no mundo adulto das escolhas e, portanto, da responsabilidade pessoal. A mulher à direita do rapaz parece estar apontando para o chão, o mundo concreto e racional dos fatos, mesmo para os que alegam que ela aponta para o seus genitais isso simboliza ainda o mundo pragmático dos instintos. A mulher da esquerda, por sua vez, parece estar atentando para os ditames do seu coração e as aspirações da alma! O rapaz por si só representa o impulso da vida que quer se manifestar, mas que para isso precisa escolher um caminho, uma forma de fazê-lo. E não adianta, tudo na vida são escolhas! Da roupa que usamos para sair de casa, à carreira, do cônjuge, ao partido político, do local de férias, ao local onde escolheremos passar o fim dos nossos dias. Fazemos escolhas o tempo todo. De fato a mulher à direita da figura central tem uma roupa vermelha com mangas azuis. Ou seja, há o predomínio do prático e do instintivo, em contrapartida com a predominância do azul (afetivo, espiritual e profundo), com detalhe em vermelho na roupa da mulher à sua esquerda. O aparecimento do amarelo na sua túnica, que combina as duas cores de suas parceiras, indica a necessidade do uso do discernimento intelectual tanto quanto da intuição profunda para tomar a decisão diante do impasse que se apresenta. As cores de sua túnica são as mesmas da luz radiante que envolve o ser angelical sobre sua cabeça! O que indica não só que sua inspiração vem do alto, de sua consciência superior, mas também que ele está perfeitamente sintonizado com ela. A posição do personagem central sugere que, até que seja resolvida a ambiguidade, haverá um envolvimento na duplicidade desta situação, por um curto ou longo período de tempo dependendo de cada situação. A figura alada envolta em luzes acima do trio é Eros o deus do amor, e do desejo. Ele era comumente representado como um bebê alado, que também era a forma dada aos querubins, a ordem angélica que na Cabala corresponde a sephira de Chokmah, ou Sabedoria. Aha! Podemos dizer assim. Fica claro então que a mescla de Eros com os anjos da sabedoria divina indicam que o verdadeiro saber vem do coração, que segundo algumas tradições, como a gnóstica no ocidente, é a morada da divindade em nós! Assim sendo dizer “Siga o seu coração” não é apenas um refrão poético, mas também uma verdade espiritual! Mesmo que seja um erro a escolha levará ao amadurecimento da consciência, moldando a personalidade, extraindo do indivíduo o máximo de si mesmo, tanto seus talentos quanto o conhecimento de suas limitações! Ou seja, nossas escolhas revelam quem somos e nos elevam ao nosso autoconhecimento. É importante então escolher aquilo que se ama. Daí este ser o arcano das escolhas de vida tanto quanto do amor e do romance.

Os Amantes no Osho Zen tarot.
Divinação – Decisão, ou impasse a ser decidido, uso do livre-arbítrio. Decidir tendo como base aquilo que se ama ou acredita. Capacidade de executar duas ou mais tarefas ao mesmo tempo, de desdobrar-se. Envolvimento, namoro, amor, romance, atração. Proposta de novas possibilidades ou caminhos. Convites. Associações e parcerias. Afinidades que nascem do coração. Consultar outras fontes em que se confia para decidir ou resolver algo. Tornar-se aberto a outras opiniões. Sociável, envolvente, simpático. Tornar-se acessível ao próximo. Negativamente é o arcano das indecisões ou da dúvida persistente de que tomou ou não a decisão certa! É o “Maria vai com as outras”, incapaz de decidir sozinho ou assumir posturas diante de situações críticas. Não assume sua opinião. O dependente, que tanto pode ser afetivo ou material mesmo! Aquele que não se garante sozinho. O vacilão! O tipo influenciável, ou estar sofrendo influências que o resto do jogo dirá se são ou não desejáveis ou benéficas! Esta é a carta das triangulações amorosas, tanto proibidas (infidelidade) quanto consensuais. Todo o tipo de indefinição e pendência está sob sua égide, inclusive as de cunho político, legal e até mesmo sexual, como no caso da bissexualidade.

Personagem do Cinema – Sofia Zawistowski (interpretada por Meryl Streep), no filme A Escolha de Sofia de 1982. Ela é uma mãe polonesa presa num campo de concentração por tentar contrabandear presunto para sua mãe moribunda. É forçada por um soldado nazista a escolher um dos seus filhos para morrer na câmara de gás, o menino Jen ou a menina Eva. Caso se recusasse a escolher os dois seriam executados. Ela escolhe o menino por ser mais forte, mas nunca mais o vê. Muda-se para o Brooklyn decidida a esquecer de tudo o que passou. Um jovem aspirante a escritor Stingo (interpretado por Peter MacNicol) chega à Nova York em 1947 e conhece sua vizinha Sofia e seu parceiro Nathan (interpretado por Kevin Kline), com quem ela vive uma relação de céu e inferno, mas sem nunca comentar com ele nada do que viveu nos campos de Auschwitz. O rapaz se envolve com o casal sem ter nenhuma noção da instabilidade do homem e dos segredos da mulher. Com o tempo ambos começam a se sentir atraídos um pelo outro e mais uma vez Sofia deve escolher, e desta vez entre o amor do atual companheiro e a atração pelo jovem recém-chegado. Ela se divide entre acreditar que Nathan e sua esquizofrenia e uso frequente de drogas serão “curados” um dia, e enfrentar a realidade de um jovem que está longe de ser um conto de fadas. Romance, decisões difíceis e dubiedades constantes são temas centrais de Os Amantes, que são focados de modo intenso e brilhante neste filme.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Carro - Arcano VII

Título esotérico – A Filha dos Poderes da Água; O Senhor do Triunfo da Luz (Os poderes da psique que avançam em direção à luz; o caminho do guerreiro interior na construção de sua lenda pessoal).

Analogia Astrológica – Câncer (O 4º signo), rege no Hemisfério Norte o auge do verão onde os dias são mais longos e o sol vitaliza as frutas. Os frutos da terra precisam assim ser cuidados para que possam amadurecer bem. É o signo do fluxo e refluxo das marés, do começo e do fim da vida, que tem uma natureza introspectiva e profunda que se opõe ao seu desejo de se envolver com o mundo exterior e conhecer pessoas. Quer ser popular, pois precisa de atenção.

Analogia Numerológica – O 7 é um número que une as adversidades e as naturezas aparentemente contraditórias da existência elevando-as à sua expressão máxima: O 1 individual com o 6 social, o 2 convergente com o 5 divergente, o 3 expansivo-criativo com o 4 contido-realizador. É o número do aperfeiçoamento, da execução precisa, da busca por sentido, propósito e direção para a existência. Possui em si as qualidades necessárias para romper com as limitações que o estreitamento de visão cria com o passar do tempo e com o acúmulo dos condicionamentos culturais!

O Arcano – Um jovem homem coroado, e trajando o que parece ser uma armadura peitoral com dragonas e em forma de meia lua, viaja numa biga (carro de guerra com duas rodas que é puxado por dois cavalos) cujos animais se dirigem para direções opostas, mas olham no mesmo sentido que seu condutor. As duas bestas parecem estranhamente fundidas ao veículo que elas conduzem. Na mão direita o rapaz segura um cetro e a mão esquerda está à altura da cintura. A biga possui quatro pilares nas cores vermelho e azul, as mesmas cores dos cavalos, e está coberta por um véu. As duas rodas da pequena carruagem se salientam na imagem, e no centro desta há duas letras bem visíveis, SM. O jovem olha para seu lado direito e a carruagem parece seguir nesta direção. Chama a atenção também que o chão, aparentemente árido, está repleto de brotos de capim verdejante.

Significado – O jovem homem coroado representa a disposição diante das demandas da vida. Ele está vestindo uma armadura com dragonas (ancestrais das insígnias militares), o que significa que ele é também um soldado. Com seu espírito combativo ele está disposto ao que for preciso para atingir suas metas de crescimento e conquista. Ele traz em si a ideia de ser um príncipe em busca do seu próprio reinado (ou principado), um lugar onde ele seja o Senhor, ou seja, seu lugar no mundo. O que só se dará efetivamente no arcano XXI, O Mundo! Os cavalos simbolizam a sua força física, que o impulsiona vigorosamente para diante (daí estarem fundidos ao veículo), tanto quanto as adversidades que a vida impõe ao guerreiro interior. Cavalos são a representação mais comum das forças indômitas da vida! O fato de olharem na mesma direção do condutor assinala tanto seu total controle sobre a situação, quanto por sobre suas capacidades e potenciais intrínsecos. A biga era uma pequena carruagem usada por romanos nos campos de batalha, equivaleria à motocicleta nos dias atuais. Era também usada para viagens curtas. O que reforça tanto a ideia de combate quanto de rapidez rumo aos objetivos. O fato de ele transparecer ser um militar diz que o pensamento organizado e estratégico ao estabelecer suas metas é uma constante na vida deste cavaleiro. Ele é o pai, ou o irmão mais velho, dos cavaleiros dos naipes que se seguem nos arcanos menores! Por ser jovem e ser a primeira imagem de movimento das sete primeiras cartas do tarot, este arcano é o arauto dos novos começos e do avanço confiante em direção dos propósitos interiores, e diante dos impedimentos e das adversidades que se interpõe pelos caminhos da vida. Simbolismo reforçado pelas cores azul e vermelho que por si só já representam todos os antagonismos: feminino x masculino, material x espiritual, emoção x lógica, e assim por diante respectivamente! Os tufos verdejantes de capim na sua trilha ressaltam um vigor renovado e de espírito triunfante que dele emana. Foi o tarólogo alemão Hajo Banzhaf quem alertou para o fato de o jovem carregar os emblemas das seis cartas que o antecedem. Ele segura um cetro que mais se parece com o bastão mágico do arcano de O Mago, o véu que cobre sua carruagem como um dossel seria na verdade o véu de templo de A Sacerdotisa. As dragonas são as primeiras representações militares dos exércitos e dos seus respectivos reinos, e como a realeza era uma linha passada matrilinearmente, as dragonas são as representações do poder de A Imperatriz. A mão segurando o cinto nos faz lembrar o comando do arcano de O Imperador. O olhar condutor do cavaleiro nos remete ao mesmo olhar que o arcano de O Hierofante dirige aos seus discípulos. Por fim do arcano anterior, Os Amantes, ele herda a ambiguidade de direcionamento que dilacera, mas que aqui no sétimo arcano, é totalmente controlado e superado.  Isso tudo indica que já houve uma vitória e amadurecimento sobre eventos passados, mas que agora o guerreiro da alma, maduro e consciente de seus dons e talentos, está mirando alvos mais elevados. O que revela tanto sua ambição quanto seu desenvolvido senso de propósito interno. O mesmo Hajo sugere que a sigla SM seja de Mago Samaritano, muito embora não explique o real sentido disto!

O Carro no Osho Zen tarot.
Divinação – Novos começos, avanço, progresso, promoções ou nomeações. Sucesso numa determinada etapa do desenvolvimento numa área específica de atuação. Realização de conquistas, mas que visiona outras ainda maiores no porvir!  Algo como “vencer uma batalha, mas ainda ter de vencer a guerra”! Vontade firmemente dirigida a um objetivo específico, ambição, planejamento, estratégia. O Guerreiro Interior, o que nos impulsiona a levantar todos os dias e enfrentar os problemas. Estabelecimento de metas a serem cumpridas ao longo de um curto período de tempo que pode ser de um mês a um ano! Rapidez, agilidade na execução de tarefas, mobilidade, viagens curtas. Capacidade de lidar com adversidades sem esmorecer, resiliência, determinação aguerrida. Novo ponto de partida na história pessoal, como quando dizemos “a partir de hoje vai ser assim:” e nos voltamos para a execução dessa determinação em nossa vida. Ao contrário da carta de O Enforcado, não o fazemos após um período de sofrimento que nos fez refletir, nem como em O Julgamento quando um chamado interior nos abre os olhos e revisamos nossas vidas com profundidade, no sentido de compreender as razões últimas de todos os eventos que vivemos até aquele momento! Ao contrário! As determinações do arcano de O Carro são totalmente arbitrárias, baseadas em escolhas que foram feitas no arcano anterior, Os Amantes, e que serão postas à prova nos outros dois arcanos a pouco citados! Negativamente é o espírito beligerante, que vê em tudo a possibilidade de obstáculos ao seu progresso e investe agressivamente. Perda do controle pessoal, atividade incessante que leva à exaustão!


Personagem do Cinema - Eric Liddell (interpretado por Ian Charleson) do Filme Carruagens de Fogo de 1981, que conta a história real deste atleta e da sua preparação juntamente com Harold Abrahams (que é interpretado por Ben Cross). Eles pretendem disputar as Olimpíadas de 1924 em Paris, mas seguem caminhos bem diferentes. Liddell é um missionário escocês que corre em devoção a Deus.  Já Abrahams é filho de um judeu que enriqueceu recentemente e deseja provar sua capacidade e valor para a sociedade de Cambridge. Liddell corre usando seu talento natural, enquanto que Abrahams resolve contratar um treinador. Ambos seguem as eliminatórias sem problemas, até que uma das classificatórias de Liddell é marcada para domingo. Ele se recusa a competir, por ser este um dia santo. Percebendo a situação, um nobre oferece a Liddell sua vaga na disputa dos 400 metros. Ele aceita e vence a corrida, assim como Abrahams. A partir de então, os dois integram a equipe do Reino Unido para as Olimpíadas. A competitividade, determinação e ambição de ambos e o respeito às suas trajetórias e escolhas pessoais, temas típicos de O Carro, ilustram bem a personalidade e as vivências regidas por este arcano!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A Justiça - Arcano VIII


Título Esotérico – A Filha dos Senhores da Verdade; O Controlador da Balança (As muitas faces da verdade que cabe a cada um de nós reconhecer em nível particular e depois ajustá-las a nível global para o equilíbrio da vida).

Analogia Astrológica - Libra (O 7º signo) é o único dentre os doze signos zodiacais que não possui nenhuma representação animal ou humana. Isso simboliza a sua busca pela imparcialidade de julgamento para que assim, o signo que rege a busca pela verdade e pelo equilíbrio, não seja perturbado pela interferência dos instintos inferiores e dos atos impensados. Libra rege tanto os diálogos apaziguadores quanto as confrontações abertas.

Analogia Numerológica – O 8 como o número da força que equaliza o ritmo e as forças do universo! Sua forma lembra dois círculos apoiados um sobre o outro. O que demandaria um esforço firme, contínuo, porém delicado! Por isso rege a disciplina, o senso de responsabilidade, realismo, busca pela verdade e justiça. Junto com o 7 e o 9 está entre as vibrações mais altas da numerologia. Saído do perfeccionismo estreito do 7 ele olha com mais acuidade e sobriedade, o que o possibilita fazer ajustes nos exageros cometidos pelos números anteriores. Daí sua semelhança com saturno, o limitador-retificador.

O Arcano – Uma mulher de postura ereta está segurando uma espada desembainhada na mão direita e uma balança na mão esquerda, esta se encontra à altura do coração. Ela usa um manto azul, e veste sob ele uma longa toga vermelha. Está sentada no que parece ser um trono. Não se pode ver os seus pés nem os detalhes do assento. A figura olha diretamente para o espectador como se o estivesse inquirindo!

Significado – A espada é um antigo símbolo de encontro e da defesa da verdade e da justiça. A mulher a segura com a mão direita, simbolizando a vontade firme e bem dirigida. A balança na mão esquerda e à altura do coração aponta sua capacidade de manter as emoções e os instintos sob controle, para que se mantenha uma visão distanciada das questões a que se propõe avaliar. O trono está representando sua disposição diante desse encontro com a verdade e de que o senso de justiça é soberano neste arcano. O ato de estar sentada e usando um manto predominantemente azul indica que sua ação é mais interior e intelectual A toga vermelha que usa por baixo, mais a presença da espada indicam, por outro lado, o quanto ela está disposta a pegar em armas e ir a luta para defender a sua verdade! O fato de seus pés estarem ocultos reforça sua desconexão com os instintos. O seu olhar inquiridor enfatiza de que não há mais como nem por que fugir dos fatos e das evidências. Há de se encará-los e confrontá-los visando o equilíbrio de uma situação ou o encontro com a verdade! Aponta também sua firme determinação em encarar a realidade como ela se apresenta. Ao contrário do arcano VI, Os Amantes, o arcano de A Justiça fala-nos das decisões tomadas a partir da razão, sem quaisquer ponderações afetivas ou de qualquer outro tipo de subjetivação.

A Justiça no Osho Zen tarot.
Divinação – Equilíbrio, verdade, lógica, justiça, lei, ordem, disciplina, persistência, rigor. Normalidade, regularidade, estabilidade, razão. Ver as duas faces de uma situação antes de emitir um julgamento, imparcialidade. Capacidade julgadora e de discernimento sobre o certo e o errado, o ético e o não ético. Crítica e autocrítica. Encontrar e defender a sua verdade, como quando assumimos abertamente nossas opiniões, preferências, desejos, necessidades ou nossa posição política e social; ou quando defendemos abertamente os direitos políticos de minorias, ou o fato de sermos de uma minoria e reivindicamos nossos direitos! Temas ligados à justiça, processos, litígios de toda a espécie etc. Este arcano denota uma necessidade de retificação de posturas, ações, negócios, contas (Como em auditorias financeiras), relacionamentos... É a capacidade e ou a necessidade de se colocar limites tanto para si quanto para os outros! Dizer não reconhecendo os excessos nossos e alheios, como quando impomos limites a um filho(a) mimado ou a um parceiro(a) não participativo, abusivo ou controlador; ou quando decidimos deixar de procrastinar decisões e atitudes transformadoras! Por isso também simboliza a conversa confrontadora do tipo colocar os pingos nos “is”. Negativamente é a aridez afetiva, a incapacidade de sintonia e conexão afetiva ou de expressão livre das emoções. Dureza interior, rigidez. Abordar questões específicas com verdades genéricas que não se aplicam! O tipo que não dá o braço a torcer. Divórcio, injustiças, julgamentos duros, preconceituosos e ou precipitados sobre alguém ou alguma situação. A burocracia dos processos legais e judiciais.


Personagem do Cinema – Ann Talbot, interpretada brilhantemente por Jessica Lange no Filme Muito Mais que um Crime (Music Box em inglês) de 1989. Ann é uma bem sucedida e conceituada advogada que é surpreendida quando seu pai Mike Laszlo (muito bem interpretado por Armin Mueller-Stahl) é acusado de crimes nazistas durante a Segunda Guerra Mundial como participante do grupo fascista húngaro Cruz Seta, que colaborava com os nazistas perseguindo e massacrando, de formas abomináveis, as minorias odiadas por Hitler e seus seguidores. Para evitar sua deportação Ann começa a trabalhar para provar sua inocência. Apesar de surpreendente para ela, fica claro que tem condições de ganhar o caso dada a falta de provas! Entretanto o julgamento acurado da brilhante advogada a deixa intrigada com a veemência com que as vítimas acusam seu pai dos crimes dos quais ele é suspeito! Inicia por conta própria uma investigação que a leva à Hungria e às revelações mais surpreendentes de sua vida, onde todo seu senso de justiça pessoal, ética humana e profissional será posta à prova! O filme está permeado pelos temas do arcano de A Justiça, como imparcialidade, verdade, justiça, lei, ética e rigor!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Eremita - Arcano IX


Título esotérico – O Profeta do Eterno (O Profeta como alguém que não anuncia só o futuro, mas as verdades eternas da existência, ou seja, a sabedoria que transcende o tempo).

Analogia Astrológica – Virgem (O 6º signo), o signo que marca o começo do outono no Hemisfério Norte, o tempo da colheita, de revisão das ações tomadas, e de “separar o joio do trigo”. Por isso é tido como um signo crítico, sua crítica baseia-se na busca de um modelo divino ou sagrado de perfeição que cada coisa traz em si intrinsecamente. Trabalho este que requer dedicação, atenção e esmero, qualidades que sobram neste signo zodiacal.

Analogia Numerológica – O 9 como o último dos números simples, simboliza o fim da jornada ao mesmo tempo em que abre a possibilidade de novos caminhos, mais profundos, através dos números compostos. Mostra uma consciência amadurecida que segue num trabalho de investigação de si mesma, da vida ou de alguma disciplina em particular procurando atingir sua totalidade. Experiência rica, mas limitada à perspectiva do seu investigador. Ninguém vê o todo, como o próprio 9 não pode ultrapassar a si mesmo (3 X 9 = 27 = 2 + 7 = 9) assim como ninguém de fora pode dar ao indivíduo algo que ele mesmo não tenha buscado (5 + 9 = 14 = 1 + 4 = 5).

O Arcano – Um homem idoso usando um manto azul atravessa uma paisagem, que apesar de não ficar explícito, parece ser noturna, já que ele segura uma lanterna bem junto aos olhos. Ele segura um cajado no qual está se apoiando. A parte de dentro de seu manto é na cor amarela e o capuz é vermelho, a mesma cor da toga que ele usa por baixo do manto. Ele tem barba e cabelos brancos. Sua postura encurvada transparece dificuldade, desgaste do tempo e certa apreensão.

Significado – Nos tempos atuais, onde os velhos são desprezados apesar de todo o valor que ainda possuem para as gerações mais jovens, é difícil imaginar que os anciãos eram tidos como fonte de sabedoria e orientação para os clãs. Mesmo em sociedades tidas como muito machistas uma mulher podia participar do conselho tribal quando se tornava avó, pois havia passado por todas as etapas da maturidade! O velho aqui é o símbolo da própria sabedoria. Mas o que é a sabedoria? Sabedoria é o conhecimento vivido e experimentado ao longo do tempo. Por mais talento nato que uma pessoa possa ter nada substitui a experiência de vida. Qualquer talento, por mais abundante que seja, se tornará maior e mais expressivo depois do teste do tempo. O manto azul remete à introspecção profunda, indicando uma consciência voltada para si mesmo em busca de respostas. O forro amarelo do manto indica que a procura por essa sabedoria se utiliza dos próprios recursos intuitivos, criativos e intelectuais. A toga vermelha assinala a tenacidade com que essa busca ocorre. O capuz caído sobre seus ombros mostra o quão capaz ele é de se fechar, física e mentalmente, às influências externas que possam tentar obstruí-lo nessa jornada por iluminação interior. Seu caminho é reflexivo e não meditativo como o do arcano de A Estrela. A meditação é uma ausência de mente. A reflexão, por sua vez, é o uso aplicado, disciplinado e profundo da mente na procura por uma resposta. O cajado tanto nos diz que ele é um peregrino quanto revela sua prudência e atenção ao trilhar o caminho. Sua lanterna, que ao que parece tem seis lados e apenas três à mostra, é o símbolo da luz da consciência que o guia. O seis é tido como o número da perfeição. Os grandes iniciados dizem que aquele que desenvolveu o mestrado espiritual possui os olhos sempre voltados para o que é belo e engrandecedor. Ao passo que o homem de instintos inferiores julga tudo o tempo todo, por isso tem os olhos sempre voltados para o defeito e à imperfeição porque se acha melhor do que aquilo que vê. O sábio sabe que qualquer imperfeição que reconheça fora de si indica algo que precisa ser evoluído em si mesmo. Por isso o Eremita é um sábio que aparece antes do fim da jornada nos arcanos maiores. Ele cresceu com o que aprendeu nos arcanos anteriores e sabe que tem muito mais a crescer com os que ainda virão. Assim, usa a sabedoria que já adquiriu para adquirir ainda mais sabedoria e alargar sua consciência rumo à iluminação/transcendência do arcano de O Mundo!

O Eremita no Osho Zen tarot.
Divinação – Sabedoria, busca por profundidade de perspectiva. Solidão, recolhimento, introspecção, reflexão, retiro espiritual ou de descanso (férias inclusive). Personalidade sóbria. Dependendo da situação pode até ser o tipo desconfiado. Prudência, determinação, disciplina. Humildade, pessoa simples. Ação cuidadosa, esmero, personalidade detalhista. Diminuição do ritmo para observar as coisas com mais atenção. Essa diminuição pode também se dar por desgastes ocorridos, que podem ser físicos, mentais ou conscienciais. Maturidade, velhice. Tempo, experiência. A ação longa de um período de tempo sem perspectivas claras de resolução. Estudo profundo de uma disciplina. Investigação, pesquisa. Espionagem e ou o espião. O cético, que tem que ver para crer. Inspeção pessoal ou de órgãos fiscalizadores sobre algo.  Voto de silêncio ou castidade, ou gosto pelo silêncio e pouco interesse sexual que pode ser momentâneo ou permanente. Masturbação. Autossuficiência afetiva, social e ou financeira. Retirada súbita do convívio social. Negativamente é a agorafobia (medo de lugares cheios ou públicos). Isolacionismo político. Avareza afetiva e material. Timidez social excessiva, paranoia. Carências afetivas não resolvidas ou saciadas. Pode indicar pobreza ou recursos muito escassos.

Personagem do Cinema – Chuck Noland, interpretado por Tom Hanks no filme Náufrago de 2001. Chuck é um inspetor da Fedex (Federal Express), empresa multinacional que entrega cargas e correspondências, e é ocupado demais para lidar com os assuntos familiares e sentimentais. Seu trabalho é verificar o andamento dos vários escritórios da empresa pelo mundo! Numa dessas viagens seu avião cai e ele fica preso numa ilha do Pacífico sul por quatro anos tendo de resistir, tanto física quanto psicologicamente, para sobreviver à espera de um resgate! Sendo o único sobrevivente ele fica na ilha tendo como única companhia a foto de sua mulher e uma bola de voleibol que ele batiza de Wilson (na verdade essa é a marca da bola). Wilson passa a ser seu único “amigo”. Longe de tudo, e com medo de enlouquecer, Chuck começa a rever seus valores e prioridades e aprende a “ouvir os sinais”, como o par de asas que surgem em dados momentos da trama. Como toda a linguagem artística o cinema tange o inconsciente coletivo... A esfinge do próximo arcano, A Roda da Fortuna, possui asas. E as asas sempre aparecem na trama quando os ventos da mudança vão soprar no destino do personagem...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Roda da Fortuna - Arcano X

Título Esotérico – O Senhor das Forças da Vida (O eterno ciclo de nascer, viver, morrer, que rege todas as coisas existentes).

Analogia Astrológica – Júpiter (Regente de Sagitário e co-regente de Peixes), senhor das forças expansivas da vida. Esse planeta emite uma quantidade de energia muito maior do que a que recebe do sol! Por isso está associado à generosidade, exuberância e boa sorte. Júpiter é o arauto das mudanças súbitas e da virada de sorte. Era o representante de reis e soberanos na antiguidade, sendo por isso associado à evolução e elevação em todos os sentidos.

Analogia Numerológica – O indivíduo (1) que se encontra com o absoluto (0) dando um novo sentido e direção à própria existência (1)! Pode-se entender aqui o absoluto como a vida, o destino, ou Deus imanente presente em todas as coisas, inclusive dentro da psique, e que ao ser contatado permite-nos alterar os rumos da própria existência. Caso contrário o indivíduo apenas sofre com os acontecimentos da vida chamando-os de destino ou fatalidade!

O Arcano – No aro de uma roda com seis raios três estranhas figuras se sustentam. A roda está suspensa por dois suportes de madeira que fazem parte de um apetrecho apoiado sobre o chão. No centro da roda encontra-se um eixo com uma manivela. As três figuras são uma lebre que está subindo na roda, uma esfinge coroada que se encontra no topo e um animal com cabeça humana. A esfinge é azul e tem três de suas quatro patas em contato com a roda. A sua quarta pata, a esquerda, segura uma espada.

Significado – A roda é símbolo do movimento e das mudanças. Consta que juntamente com a descoberta do fogo foi um dos mais importantes marcos para a evolução da espécie humana na criação de sua civilização, permitindo a movimentação de comunidades inteiras e a comunicação e o comércio com outros povos distantes. A lebre é um antigo símbolo pagão da deusa Eostre, também chamada de Ostara, deusa da primavera e do renascimento da vida. A lebre era o primeiro animal a sair da toca indicando que o fim do inverno chegara e que os domínios da deusa haviam, mais uma vez, se estendido sobre a Terra. Daí a Páscoa, que é comemorada na primavera no hemisfério norte, ser chamada de Easter, em inglês e Ostern, em alemão. A lebre é, portanto, o símbolo das forças da luz em ascensão e dos novos começos. O homem com um rabo que está caindo representa a estupidez humana que tenta controlar o fluxo da vida. A ilusão do controle e da permanência. Antigos baralhos medievais mostravam um homem com orelhas de burro caindo da roda. A esfinge é o símbolo do mistério da vida. No mito de Édipo ela aparece como um ser que propõe uma charada que se não é desvendada resulta na morte do inquirido. Aqui ela lembra que a vida tem um aspecto misterioso e insondável, que faz com que uma pessoa nasça com muitas vantagens e benesses, enquanto outras padecem na carência de quase tudo! Suas três patas que tocam a roda lembram o movimento trifásico que rege a vida, começo, meio e fim. A pata com a espada indica que é ela quem regula o giro da roda. Detém o poder sobre o movimento.
Mudança é algo natural, intrínseco à natureza e ao homem, embora nem sempre bem vinda. O que lembra a lei da impermanência do budismo tibetano “só o que não muda é a mudança!”. Por fim o próprio nome Fortuna faz menção à deusa romana da sorte, boa ou má. Ela era representada por uma cornucópia e um timão, que é uma roda, que simbolizavam tanto a distribuição de bens como a coordenação da vida humana. Daí a roda ser sempre referida como o símbolo máximo do destino. Hoje há resquícios dessa referência nas roletas de cassinos ou no sinistro jogo da roleta russa. Algumas vezes essa deusa era representada cega, pois que distribuía suas bênçãos de modo aleatório.
Os seis aros da roda dizem que esse movimento é perfeito, pois este número expressa essa qualidade. Tudo vem e vai na hora exata! No entanto a manivela no seu centro indica que podemos intervir na nossa sorte, desde que não queiramos parar seu movimento. O livre arbítrio está para o destino como o surfista está para a onda gigantesca na qual ele desliza.

A Roda da Fortuna no Osho Zen Tarot.
Divinação – Mudanças de todo o tipo, virada de 180º nos acontecimentos. Movimento. Capacidade de agarrar oportunidades. Êxito casual como em jogos de loteria. Golpe favorável de sorte. Adaptação, flexibilidade diante do imprevisto. Disposição inventiva diante de mudanças e até mesmo de crises. Busca por evolução, crescimento. Avanço significativo num aspecto da vida. Ou quando as coisas mudam de direção inesperadamente e os novos eventos são felizes. Como um caso que conheci, em que uma estudante de economia foi para Paris para estudar numa bolsa desta disciplina e lá conheceu a radiestesia. Apaixona-se pelo novo conhecimento e mais tarde torna-se uma respeitada radiestesista em sua cidade natal! Desejo por mudança, seja física ou pessoal. O surgimento de recursos alternativos que podem representar uma saída ou solução para um dilema. Negativamente é a inconstância, instabilidade. O medo, às vezes fóbico, das mudanças. Humor instável, por vezes até de modo patológico como o que ocorre na bipolaridade. Pode também representar uma repetição cíclica de um evento sem nunca aprender com ele, ou seja, não evolui daquela experiência. Como pessoas que sofrem sempre o mesmo tipo de desapontamento amoroso, ou que entram em crises financeiras sempre pelos mesmos motivos.


Personagem do Cinema – Os três personagens, Klaus (interpretado por Liam Aiken), Violet (interpretada Emily Browning) e Sunny Baudelaire (interpretada pelas Gêmeas Kara e Shelby Hoffman) do filme Desventuras em Série, de 2004. Eles são três órfãos que perdem os pais subitamente e herdam sua fortuna. As crianças, porém, só terão direito a ela depois que a filha mais velha Violet completar dezoito anos. Até lá eles têm de ficar sob a guarda de um parente distante, o Conde Olaf (Jim Carrey), que deseja roubar o patrimônio delas, não medindo consequências para isso! Os três irmãos passam a fugir do seu malfeitor e a contatar com outros parentes com quem possam ficar, descortinando assim uma miríade de tipos estranhos. Entre eles o tio Montgomery que cria serpentes, animais que trocam de pele sazonalmente. Ou a tia Josephine que após perder o bem amado companheiro Belo, desenvolveu uma série de fobias irracionais, como medo de corretores de imóveis ou o medo de maçanetas. Ela nunca as tocava para que não se partissem e seus estilhaços furassem seus olhos!... Ou seja, todos os personagens têm alguma relação com símbolos ou situações de mudança, inconstância ou fatalismos de algum tipo!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Força - Arcano XI

Título Esotérico – A Filha da Espada Flamejante (Os poderes intensos e radiantes que jazem dentro da psique).

Analogia Astrológica - Leão (O 5º signo), simboliza o poder criador que habita dentro de cada homem e que anseia por expressão. É o verbo divino-criador “Eu Sou”, que ao ser afirmado coloca o indivíduo no centro do universo onde tudo pode ser acessado, atraído ou manifestado. É a força criadora, centralizadora e realizadora da vontade imbuída de um propósito interior e força bem estruturada.

Analogia Numerológica – O indivíduo absolutamente centrado em si (1 e 1), quer seja pela vontade ou pelo autoconhecimento, encontra um outro poder oculto dentro de si (2). Ou a polaridade yang (1) que ao atingir seu máximo vira o seu oposto (2), como ensina o I Ching.  Como quando uma arte de guerra (luta) como o Kung Fu ou o Aikido viram filosofias de desenvolvimento e crescimento espiritual.

O Arcano – Uma jovem mulher trajando uma capa vermelha como a dos antigos viajantes, e usando uma espécie de vestido azul, segura um leão com as duas mãos pela boca. Ela usa ainda um chapéu em forma de leminiscata que lembra o chapéu do arcano de O Mago. Embaixo vê-se a ponta dos dedos do seu pé direito, o que denota que ela está fazendo força ao mesmo tempo em que está firmemente apoiada. O leão apesar de totalmente subjugado não parece estar sofrendo. Ele exibe uma bela juba dourada, a mesma cor das mangas fofas que a donzela usa. Outro detalhe curioso é a de que a mulher abre a boca do animal na exata altura de sua vagina.

Significado – A mulher por si só tem sido a representação simbólica mais comum das coisas sutis do homem, como sua alma, sua sabedoria e inspiração. O fato de ela estar enfrentado o leão (tradicionalmente associado à ideia de poder, força, coragem e nobreza), indica tanto uma luta furiosa onde a civilização, a sutileza e a sabedoria ganharam a batalha, como o encontro de forças interiores que se pronunciaram quando necessárias. Esse encontro com as forças interiores podem ter um significado tanto psicológico quanto espiritual. No primeiro a fera interior e sua fúria viram vontade, força e ação dirigidas a um objetivo. No segundo um processo de comunhão entre a parte animal e divina do homem o elevam e o tornam poderoso em todos os sentidos. Como o que acontece com a subida da kundalini, em que a energia bruta da sexualidade ao subir vai se refinando, e ao chegar ao topo no 7º chakra, o Sahashara, transforma-se num poderoso despertar espiritual e consequente iluminação. Esse simbolismo aparece bem claramente em ela abrir a boca do leão à altura de sua vagina ao mesmo tempo em que usa um chapéu com a forma de leminiscata, símbolo matemático do infinito que também alude às forças espirituais superiores, igual ao Mago. Esse por sua vez possui esse contato de forma direta e constante, enquanto que a Força faz esse contato por intermédio de uma vitória sobre si mesmo ou sobre alguma coisa! A capa vermelha é a representação dessa nova força e energia da qual a donzela está imbuída. É a afirmação do “eu”, ou das forças superiores que se expressam através dele. Tudo isso, porém, requer tanto empenho quanto constância! Este arcano rege os feitos heroicos a que se propunha o guerreiro interior no arcano VII O Carro. Todas as lendas que retratam esses feitos estão sob sua égide. Como no mito da deusa sumeriana Inanna que desce aos reinos infernais de sua irmã Ereshkigal para pedir sua ajuda. Esta exige que ela se apresente nua, ou seja sem seus poderes, como sinal de confiança e boa vontade. Apesar de todos os avisos Inanna vai ao encontro de sua irmã sombria despindo-se de seus trajes e berloques mágicos. Ao encontrá-la percebe que ela está transformada em meio mulher, meio leão. A deusa do submundo a ataca, e mata Inanna dentro dos seus domínios. Após alguns dias a própria Ereshkigal a ressuscita e diz que ao renascer dentro do mundo sombrio ela levaria consigo parte do seu poder, que somado aos seus poderes já existentes a tornariam uma rainha e deusa ainda mais poderosa! O que parecia uma traição foi na verdade uma benção, o reino dela e o de sua irmã agora eram uma coisa só. Assim a jovem Inanna volta ao mundo da luz para enfrentar e vencer indubitavelmente seus adversários! Partes desse mito muito antigo se expressam também no mito grego de Hércules e o Leão de Neméia, e no conto de fadas francês A Bela e a Fera. Em todos eles ao abraçar a fera interior encontramos grande poder, força, prazer ou amor nunca antes vividos. Sua força bruta é dirigida para a realização de algo que sem ela seria impossível! Por simbolizar as forças brutais da existência o leão faz da donzela de A Força o arauto da consciência humana dominando o seu destino, representado anteriormente no arcano de A Roda da Fortuna.

A Força no Osho Zen tarot.
Divinação – Autoconfiança, força e poder pessoal. Feitos admiráveis, grandiosos. Reconhecimento, aplauso. Magnetismo, exuberância, podendo emanar grande elegância e suave sex appeal, ou uma sexualidade fortemente pronunciada. Por isso é também o arcano da atração sexual, pois emana o animal interior para o mundo exterior. Persuasão, sedução. Eloquência, veemência. Afirmação dos desejos e vontades pessoais. Tipo: “eu quero, eu posso, eu consigo”! A não aceitação de predestinações, fatalismos, ou arbitrariedades de qualquer espécie. O tipo de personalidade que luta para obter o que quer e que obtém êxito na grande maioria das vezes. Pode indicar exatamente isso, uma vitória depois de muito esforço e luta. O espírito aguerrido e lutador de alguém que quer “vencer” na vida, indo além dos limites que as circunstâncias ou a sociedade aparentemente lhe impuseram. Romper barreiras, transpor obstáculos. Realizar conquistas. Negativamente é como uma criança mimada que faz exigências o tempo todo porque quer ser satisfeita, sem se importar se o outro pode ou não atendê-la. O ego infantilizado, arrogante, presunçoso, chauvinista. Aquele que “se acha o cara”. Exibicionista, gosta de mostrar seus feitos e provar o tempo todo o seu valor. Não aceita críticas ou opiniões ao seu modo de ser e agir, reagindo negativamente. A dramaticidade exacerbada, aliás, é outro aspecto de sua sombra, que se bem dirigido pode revelar talentos cênicos latentes.

Personagem do Cinema – Ruth, interpretada por Roseanne Barr na comédia Ela é o Diabo, de 1989. Ruth é uma mulher, gorda, feia e desalinhada que faz de tudo para agradar ao marido, mas é abandonada por ele. Bob (Ed Begley Jr.), o faz de modo mais cruel e humilhante possível. Ele a troca por Mary Fisher (Meryl Streep), uma escritora de romances de segunda categoria, conhecidos como romances-cor-de-rosa, a quem ambos haviam conhecido num jantar. Ruth decide se vingar seguindo um plano traçado por ela cujos itens vão sendo riscados à medida que são realizados! Trata de descobrir os podres da vida pessoal de Mary e do trabalho de Bob, que é contador. Ela também cria uma agência de prestação de serviços para mulheres que precisam de uma segunda chance. A agência faz enorme sucesso e Ruth torna-se uma mulher poderosa e influente, usando dessa influência em sua vingança. Ao final ela arruína a carreira de Mary, põe Bob na cadeia e parte para viver sua vida como uma nova mulher. Apesar de o filme ter elementos dos ardis vingativos do arcano de O Diabo e a determinação firme e o planejamento do arcano de O Carro, a paixão com que Ruth se lança na empreitada, a inabalável autoconfiança inédita que ela adquire, e o poder pessoal que ela acessa são típicos do arcano de A Força. Na última cena do filme, curiosamente, a personagem aparece usando uma capa vermelha.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A Dimensão do Olhar

Lendo o tarot com profundidade

Para ver o mundo num grão de areia
E o céu numa flor silvestre,
Segura o infinito na palma da tua mão
E a eternidade numa hora.

William Blake

Conversando com uma amiga ouvi uma confissão muito humana por um lado, mas de certo modo estarrecedora para mim, vindo de uma pessoa que por tantos anos dedicou-se ao estudo e ao trabalho oracular com o tarot. Uma declaração mais ou menos assim: “Estou cansada de tantos anos de estudo com os símbolos, desenvolvendo e aprofundando minhas percepções pessoais para no fim ter de desvendar basicamente as mesmas coisas para as pessoas! Elas sempre querem saber de amor, dinheiro, a carreira… É maçante!…” Com todo o respeito pelo desabafo da minha referida amiga e colega, quero aqui lançar um outro olhar sobre essa questão.
O Eterno,
de William Blake (1757-1827).
Não nego, de modo algum, que de modo geral a pessoas são mesmo focais e as suas crises internas são desencadeadas por seus tropeços no mundo prático. Por questões meramente instintivas, em alguns casos, e culturais, na maioria dos casos, buscamos a felicidade nas mesmas coisas.
Não há como ignorar que mesmo quando conquistamos os emblemas do status quo um vazio ainda se faz perceber e bem no fundo nos perguntamos: “Tenho tudo… por que me sinto assim?” Com o tempo vamos nos acostumando a chamar isso de mau humor e vamos empurrando para debaixo do tapete dos dias, dos meses e anos até que um grande tropeço, como um divórcio ou demissão, nos faz olhar o contexto da própria jornada. Afinal não éramos tão felizes assim, não é mesmo? A felicidade é impossível quando não conhecemos as reais motivações dos nossos sentimentos e ações. Enquanto isso não ocorre vivemos uma vida mecanizada, reagindo sempre do mesmo modo que fomos educados, ou segundo as imagens que criamos de nós mesmos estimulados pelas respostas dos outros aos nossos atos. Vivemos uma vida como a dos elefantes de circo, animais enormes atados a pequenas cordas, porque um dia, quando filhotes, eles tentaram se soltar, e como não conseguiram, aceitaram que jamais poderiam!
A crise é um momento único para que possamos olhar de dentro da pequenez dos nossos valores cotidianos a real dimensão do que somos, e dos vários planos de consciência que nos envolvem todos os dias. O tarot é um sistema perfeito para olhar além dessa cortina materialista e limitada em que nos acostumamos a toldar nossas visões!
O Julgamento (Além da Ilusão),
no Osho Zen tarot,
a libertação da ilusão material. 
Lembro de uma moça que há muitos anos atrás veio me procurar para uma leitura de tarot. Ela estava grávida do primeiro filho e tinha algo por volta dos vinte e poucos anos. Comecei a leitura e o tarot revelou uma intensa crise familiar entre ela e o pai. A cliente então complementou dizendo que de fato o pai não aceitava o seu casamento com um rapaz mais jovem e imaturo em muitos aspectos, na opinião dele, é claro. Ela então decidiu seguir o seu caminho e foi trabalhar no mesmo ramo que o pai, ela trabalhava com ele até então, e passou a ser sua concorrente a partir daquele momento. Assim sendo casou-se saiu de casa e foi viver sua vida. Antes disso ela e o pai se amavam muito!
Ela disse que essa crise que eu tinha visto era real, mas que o que a trazia a uma consulta ao tarot era algo bem mais prático – os valores concretos e imediatos mais uma vez movendo a roda dos acontecimentos. Ela estava preocupada com o fato de que uma carga de mercadorias havia sido extraviada num acidente com um caminhão que vinha de uma cidade distante. Apesar de ter seguro, ela estava muito preocupada com o fato de não poder atender o prazo dos clientes e com a possibilidade perdê-los para os concorrentes.
Embaralhei as cartas mais uma vez e fui para a questão que havia sido colocada. Assim que deitei as cartas selecionadas na mesa, destacou-se o arcano de A Lua, e esse arcano parou o meu olhar. Não lembro até hoje dos outros arquétipos, mas apenas de olhar para a velha Lua, arauto dos medos, dos movimentos inconscientes e temas emocionais não resolvidos, veio a mim a pergunta: “Desde que saiu da casa do seu pai e decidiu montar o próprio negócio, qual foi o maior medo que a acompanhou desde então?” Ao que ela respondeu: “Sempre tive medo de que algo desse errado e eu tivesse de pedir a ajuda dele para não quebrar!”
Eis aqui o clássico caso da filhinha do papai que queria crescer e provar que podia fazê-lo sem o auxílio de ninguém. “E qual solução veio à sua cabeça nessa crise atual?…” Ela sorriu e imediatamente disse: “Procurar o meu pai.”
Tivemos uma longa conversa em que eu citei duas teorias sobre esse acontecimento. A primeira diz respeito a uma programação inconsciente que ela teria criado para si, para que um dia pudesse voltar e de algum modo resgatar a ligação com o pai, mesmo que com o orgulho ferido, pela imagem da filha necessitada a quem um pai superprotetor como ele nunca viraria as costas. A outra teoria que apresentei, e na qual acredito mais, é que somos todos parte de uma miríade de inteligências que se misturam entre si na imensidão do universo. Essas inteligências operam em conjunto para que todos nós encontremos o verdadeiro equilíbrio, aquele estado que nós humanos conhecemos como felicidade.
A Lua, arcano XVIII, no Osho Zen tarot.
As sombras da alma...
Essas inteligências operavam agora na sua vida para que ela resgatasse o amor paterno, indo além do orgulho de ambos, por ela, pela criança que viria, pelo pai que seria avô. Uma transição irreversível ocorrera e a menina era agora definitivamente uma mulher! A inteireza do seu ser requeria o resgate desse relacionamento.
Essa foi uma das consultas mais profundas e reveladoras que eu concedi em muito tempo. Lembro da moça saindo da minha sala e me dizendo: “É, tudo acontece por um motivo mesmo!” O olhar que estava fixado na praticidade elevou-se ao apelo da sua alma. Duvido muito que dali em diante ela tenha se esquecido de que somos todos parte de uma consciência repleta de muitas inteligências que se movem em direção ao equilíbrio maior.

Os versos de William Blake com os quais iniciei esse texto, espelham bem as possibilidades que cada momento traz em si, e mostram a dimensão que os símbolos do tarot podem dar a esses momentos. Disse a minha amiga que a limitação que a incomoda nos outros pode estar refletindo a limitação a que ela mesma confinou a sua visão do tarot. Os julgamentos que fazemos todos os dias de modo quase automático podem se infiltrar na visão dos arcanos e passamos a julgar o que é superior e o que é inferior. Por via das dúvidas a aconselhei a ver tudo como sendo superior, um enigma cósmico aguardando ser desvendado. Espero que a tenha ajudado!