terça-feira, 11 de setembro de 2012

As Aplicações do Tarot

Aqui algumas das possibilidades de aplicação das cartas do tarot que encontramos nos dias de hoje à disposição tanto de quem aprecia as orientações dos arcanos, quanto para os estudiosos da simbologia esotérica do tarot como um todo

OráculoA mais fascinante e conhecida aplicação dos arcanos é, com certeza, a de instrumento oracular! De fato o tarot pode fornecer uma descrição impressionantemente detalhada dos eventos, e também dos sentimentos e pensamentos envolvidos num dado momento do presente, revelando tanto influências passadas quanto tendências futuras. Os arcanos nos possibilitam a avaliação de uma questão por muitos ângulos, quer seja emocional, intelectual, prático, energético ou espiritual, respondendo qualquer questão dirigida às cartas. Da mesma forma o tarot pode também revelar se há a influência e ou a participação de terceiros num determinado evento e a intensidade com isso se dá. Todas essas peculiaridades fizeram com que seus prognósticos e orientações se tornassem extremamente populares! Assim sendo muitos leitores do tarot se especializaram em fazer previsões, e com resultados bem detalhados e precisos, que instigam os estudiosos e pesquisadores da alma humana e incomodam os céticos! A excessiva exploração oracular do tarot entretanto, acabou criando uma tendência das pessoas de ou o temerem, ou se tornarem dependentes de suas orientações e previsões para levar suas rotinas adiante, ou seja, meros expectadores passivos da própria vida!

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Autoconhecimento & Terapia – Com o tempo percebeu-se que as cartas podiam fazer mais do que descrever e prever, podiam também revelar tendências inconscientes projetadas nas vivências que se espelhavam nos arcanos. Com isso nascia a abordagem terapêutica do tarot. Fundamentada sobretudo nas teorias junguianas, essa nova visão se propunha a olhar mais profundamente os eventos que motivavam a consulta com o propósito de auxiliar o consulente a reconhecer, para em seguida superar, programações inconscientes que criavam condicionamentos restritivos no comportamento. As cartas do tarot logo se tornaram parceiras de muitas terapias complementares, como renascimento, reiki, terapia floral, terapias corporais, terapia de vidas passadas etc. Vale lembrar que a abordagem terapêutica do tarot não exclui sua aplicação oracular, apenas inclui uma nova perspectiva, de maior responsabilidade sobre a própria vida, para a construção do que chamamos de destino. Infelizmente houve uma excessiva psicologização da linguagem terapêutica no tarot, o que enfatizou demais o viés racional do oráculo e comprometeu a abordagem de cunho mais profundo e espiritual.

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O Tarot e as Terapias Complementares

Dinâmica de Grupo – Outra aplicação mais recente para o tarot é a de dinâmica ou vivência grupal! Professores de tarot como Vicki Noble e James Wanless sugerem as leituras coletivas como uma forma de interação simbólica entre as pessoas, promovendo o desenvolvimento intuitivo e a capacidade de olhar por trás de nossas próprias máscaras sociais. Esse tipo de experiência nos permite avaliar melhor as mensagens que passamos de modo inconsciente ao mundo e reformular o que nos incomoda ou que expressa padrões disfuncionais nas nossas relações pessoais e profissionais, por exemplo. Eu mesmo desenvolvi um conjunto de leituras coletivas com os mesmos objetivos antes citados, que denominei de Roda de Tarot. Outras vivências como a desenvolvida pela taróloga e facilitadora de danças circulares sagradas, Maria Aché, chamada por ela de Danças do Tarot propõe uma “entrada” no simbolismo de cada arcano para viver e desenvolver suas qualidades.

Leia também: Roda de Tarot 
Meditação – As meditações com o tarot seguem os mesmos princípios da Raja Yoga, imagens mentais são usadas para acalmar e dirigir a mente para ações mais construtivas. Essas meditações se parecem também com as visualizações criativas tão populares nos tratamentos da Nova Era. Podem ser usadas com objetivos diversos, desde o relaxamento, até a obtenção de respostas para dilemas pessoais, o desenvolvimento gradual de determinadas habilidades, ou reflexões profundas para o autoconhecimento!
Em seu livro *Setenta e Oito Graus de Sabedoria, Rachel Pollack conta que numa meditação para o encontro com o arcano de A Força, ela avistou a moça com o leão, a fera veio em sua direção e a atacou! Rachel diz que muitas vezes a meditação não irá além de uma conscientização da carta ou de uma descoberta de ideias novas a respeita dela ou de você mesmo. Por outro lado pode auxiliar no desenvolvimento de um sentimento mais profundo e mais pessoal de alguma carta, o que pode ser um grande ganho no autoconhecimento e crescimento interior. Existem inúmeras técnicas meditativas a escolher. Procure autores ou instrutores experientes para conhecê-las e escolher pelo menos uma. 

Magia - Muitas vezes o tarot tem sido usado em rituais mágicos para representar forças que se deseja invocar, dons ou qualidades que se pretende alcançar, ou mesmo como símbolos dos objetivos desejados. Essa prática teve seu ápice na antiga Golden Dawn e se mantém em uso até hoje! Se você estiver fazendo um ritual de cura, por exemplo, poderá se utilizar do arcano XX, o Julgamento, para representar o restabelecimento desejado! Do mesmo modo como poderá usar outros arcanos que representarão o caminho para a cura desejada, como O Hierofante, a sabedoria do curador. A Sacerdotisa, a sabedoria intuitiva que guiará os curadores envolvidos no tratamento. A Força, o poder da vontade tonificada e dirigida para vencer as próprias limitações. Por fim um arcano que não poderia faltar é O Sol, a luz da vitalidade, a ativação da energia vital do universo dentro de você. Isso tudo é apenas uma sugestão bem genérica, outros rituais, incluindo os arcanos menores, são possíveis. Qualquer bruxo ou bruxa que estiver lendo este artigo sabe que cada caso é um caso, e que deve ser estudado com atenção. Como sabem também que qualquer atividade mágica de cura é um suporte terapêuticos que não substitui nenhum recurso, quer seja ele da medicina convencional ou alternativa! 
Leia também: Tarot & Magia 

Na maioria das vezes escolhemos uma ou duas das aplicações dos arcanos do tarot para nos “especializarmos”, por assim dizer. E dificilmente desenvolveremos todas, simplesmente porque elas exigem aspectos diferentes de nós mesmos e cada variação no modo de usar as cartas se adaptará a um modo de sermos. Mais intuitivos, ou mais místicos, mais filosóficos ou mais corpóreos e práticos, e assim por diante. O maravilhoso disso tudo é estaremos todos usando o mesmo instrumento e usando cada um a sua maneira!
* Vol I e II. Editora Nova Fronteira, São Paulo, 1991

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Os Princípios Reiki



Os princípios reiki foram adicionados pelo Dr. Usui à prática de cura reiki como uma forma de oferecer aos iniciados uma reflexão sobre a vida e como uma sugestão de conduta interior. Isso diferencia o reiki de todos os outros métodos de cura, sem se referir a nenhuma religião específica ele sugere uma filosofia de vida tanto aos iniciados quanto aos que recebem o tratamento. Os seus princípios são funcionais e aplicáveis a qualquer outro sistema filosófico e religioso do mundo.

Kyo dake wa

(Apenas hoje)

Toda a filosofia oriental se baseia na atenção no presente, a projeção da mente para o futuro gera a ansiedade e o estresse, já a mente focada para o passado leva à melancolia e em casos extremos à depressão. Viver no agora traz a paz e nos liberta dos erros do ontem e das agonias futuras. Estar no aqui agora é o maior presente que podemos dar à consciência. Todos os cinco princípios que se seguem deverão ser dirigidos para o hoje, e assim numa sucessão de momentos um tempo contínuo e estável se formará!

1º) Ikaru-na

(Sem raiva)
A raiva geralmente surge de uma ferida causada em algum lugar no passado e que pode ser reaberta ao interpretarmos qualquer situação no presente como sendo semelhante àquela que nos feriu. Assim a raiva vem a ser uma reação, e as reações são interpretações distorcidas por nossas emoções aos eventos do presente. Um exemplo que sempre menciono é: se ao almoçar com um amigo você sente uma vontade incrível de repetir a sobremesa, e se seu amigo por acaso resolve comentar algo como “Ué, vai comer de novo?” você pode imediatamente reinterpretar isso como uma critica à sua forma física, ou como uma invasão à sua privacidade e responder rispidamente. Isso é uma reação, você reinterpretou as intenções do seu amigo e disparou o que lhe veio logo à cabeça. Uma resposta seria algo como “É, gostei deste doce...” pronto você não reinterpretou nada, apenas respondeu a uma pergunta, que mesmo que tenha sido feita com o intento de ironia ou pela total falta de delicadeza do seu amigo isso não o envolverá nessa trama distorcida de emoções. Você apenas deixa o evento passar. A raiva é uma importante energia de ação, use-a para movê-lo ao que deseja, mas nunca sirva a ela pura e simplesmente.

2º) Shinpai suna

(Sem preocupação)

A preocupação é, como já diz a palavra, uma pré-ocupação da mente com coisas que ainda não aconteceram, então de que serve essa energia mental despendida? Planeje, reflita e organize, mas depois entregue, deixe que o universo faça a sua parte. Não se preocupe com nada. Um velho ditado árabe diz que se uma coisa tem solução, não há porque se preocupar e se não solução, também não há porque se preocupar!...

3º) Kansha shite

(Seja grato)

A gratidão hoje é reconhecida como o sentimento mais positivo que se pode ter para a construção de novos valores. Toda a literatura de auto-ajuda recomenda que se agradeça ao que já foi conquistado. Essa é uma experiência que amplia a visão que temos sobre nós mesmos, favorece a criação de uma autoestima mais estruturada e permite que se perceba o quanto se caminhou ao longo da própria estrada. Com esse sentimento em nós a consciência amplia seus espaços interiores para que mais daquilo que desejamos para nosso desenvolvimento se manifeste.

4º) Gyo-o hage me

(Faça suas obrigações)

Não procrastine nada! Faça o que lhe é requerido, e caso se sinta sobrecarregado, reveja isso! Desempenhe o seu papel dentro do seu trabalho, comunidade ou família. Você é uma peça fundamental na engrenagem do universo, e se as funções que você desempenha não lhe permitem ver isso medite sobre elas ou mude-as. A consciência de que fazemos exatamente o que corresponde aos nossos talentos é com toda a certeza o sentido de realização pessoal e profissional que todos buscam. Ao se encontrar isso, então não se procrastina mais nada! Cumpra as suas obrigações movido não só pelo sentimento de dever, que pode ser escravizante, mas também pela certeza que é este o seu papel no universo.

5º) Hito ni shinsetsu ni

(Seja gentil para com o ser humano)

Algumas versões dizem “Seja gentil com todos os seres vivos”, e eu particularmente prefiro esta. A pesquisa do professor japonês Masaru Emoto observou que a palavra “Obrigado” escrita em um pedaço de papel em qualquer idioma e depois colada num recipiente com água filtrada cria belos cristais depois de a água ser congelada. Como somos 60% água pense nas lindas vibrações que esta palavra gera em nós e nos animais... Sim, os animais são incapazes de entender o significado das palavras nos muitos idiomas humanos, mas percebem muito bem a energia da intenção que as palavras liberam. Quem convive com gatos ou cachorros sabe que muitas vezes nem um gesto é preciso quando dizemos “Para!”, para que o bichano saia imediatamente da peça. Agradeça aos seus animais domésticos por estarem com você. Agradeça aos que lhe servem no bar ou restaurante onde almoça, aos seus pais, funcionários... Este é um gesto poderoso, a palavra por si só já possui imensa força! Imagine se você colocar só um pouquinho de coração nesse ato?...Lembre que esta energia voltará renovada e multiplicada!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sobre Heróis



Em função do programa O Maior Brasileiro de Todos os Tempos do canal televisivo SBT (sistema brasileiro de televisão), que seguindo uma pesquisa da BBC de Londres, quer saber qual o maior representante da história de cada país, eu me peguei pensando nos heróis que de tempos em tempos despontam na história. O que faz um herói? Foram cem os citados nessa longa enquete feita via internet, com mais de 1.3 milhão de votos! É claro que logo saltou à minha lembrança o significado esotérico do representante simbólico dos heróis e guerreiros no tarot, a carta de O Carro. A imagem de um jovem guerreiro em sua carruagem puxada por dois cavalos que divergem quanto à direção a ser seguida, mas que dirigem seu olhar no mesmo sentido do olhar do cavaleiro, sintetiza em muito a trajetória dos heróis.
Algumas versões desse arcano, inspiradas pelos desenhos de Pamela Colman Smith para o Rider-Waite tarot, mostram o jovem deixando uma cidade para trás. Os heróis são justo aqueles que se afastam do senso e da perspectiva comum e seguem um caminho só seu, que nada tem a ver com o que já foi criado e vivido. Eles costumam andar sozinhos, e até pode acontecer que muitos o sigam com o tempo, mas quase nunca há alguém ao seu lado! São eles que abrem os caminhos por onde outros trilharão mais adiante, e muitos se beneficiam de sua ousadia e inovação, mas não raramente eles se sentirão sem lar e sem um lugar em que se sintam aconchegados até que tenham eles mesmos criado esse lugar.
Assim como o jovem cavaleiro da imagem do sétimo arcano do tarot aqueles que trilham o caminho da vida heroica enfrentam as adversidades (os cavalos em conflito) que se interpõem entre eles mesmos e os seus objetivos, e que tem de ser domadas e dirigidas pelo seu propósito interior (o olhar que os guia), bem como por sua coragem e força de vontade. O cavaleiro na carruagem usa as dragonas, as ancestrais das divisas militares, que indicavam não só a sua posição na hierarquia militar como também o reino ao qual ele servia. Assim, a luta desse guerreiro não se dá apenas por uma causa própria, ele leva consigo o nome, as esperanças ou as necessidades de uma nação, ou grupo de pessoas, mesmo que essas pessoas não tenham ainda total consciência do quanto precisam dele. Basta lembrar que muitos daqueles que hoje são reconhecidos como heróis na história foram chamados de traidores, loucos, ou arruaceiros por seus contemporâneos.
O arcano de O Carro em outras três versões diferentes:
Rider-Waite, 1JJ Swiss, e Morgan-Greer.

O arcano de O Carro carrega em si os emblemas das seis cartas que o antecedem: na mão ele carrega um cetro que se parece com uma vara mágica, como a de O Mago. Sua carruagem é coberta por um véu como o de A Sacerdotisa. Suas dragonas são o antigo emblema da linhagem de nobreza que era transmitida somente pela rainha, neste caso A Imperatriz. Ele leva a mão à cintura como O Imperador, indicando sua capacidade de divisar o superior do inferior. Seu olhar firme e benevolente, ao mesmo tempo, sobre os cavalos se assemelha ao olhar de O Papa (ou O Hierofante) para os dois discípulos a sua frente. Aliás, essa dualidade domesticada e perfeitamente dirigida das duas bestas é um resquício do antagonismo da carta anterior, Os Amantes (ou O Enamorado). Por isso podemos dizer que o herói é fruto do seu meio, ele capta as vibrações, forças e necessidades que emanam à sua volta e atende ao seu ímpeto interior de fazer algo sobre isso!
Eu considero os quatro cavaleiros da corte do tarot os irmãos de cavalaria de O Carro, ou seus filhos. E expressam em seus naipes as áreas de interesse e atuação de cada herói. As obras de alguns dos cem classificados ilustra muito bem o significado dessas quatro cartas da corte.


Cavaleiro de paus – Atletas e artistas


A força dramática desse Cavaleiro o faz prender a atenção das massas por seus feitos atléticos e competitividade, ou por sua performance dramática e desejo de auto superação. Criar, mudar, mobilizar, impulsionar e inspirar são atributos desse Cavaleiro perfeitamente cabíveis em personagens como Pelé, Ayrton Senna, Machado de Assis e Roberto Carlos.

Cavaleiro de copas – Religiosos e místicos


Esses são os que via de regra são mais incompreendidos, seus caminhos são sempre barrados pelo preconceito e a visão materialista, e por isso mesmo cética, da sociedade. Seu espírito caridoso, sua fé e confiança na conexão com o mistério da vida, com o sagrado, o transcendente e o imaterial são exatamente as qualidades do Cavaleiro de copas que pessoas como o médium espírita Chico Xavier e os religiosos católicos, Irmã Dulce, Frei Galvão e Padre Cícero manifestaram ao mundo.

Cavaleiro de espadas – Intelectuais, políticos e militares


Esses são aqueles que munidos de um intelecto aguçado, um plano e objetivo interiores bem arquitetados seguiram a diante até concretizar o que pretendiam exatamente como faria qualquer Cavaleiro de espadas. Alguns desses heróis tiveram de pegar em armas, mas mesmo procedendo assim apenas respondiam ao inevitável. Os melhores representantes dessa categoria de heróis são: Marechal Rondon, Duque de Caxias, Rui Barbosa e Lula.

Cavaleiro de ouros – Empreendedores


Seus feitos tiveram como objetivo a construção de bases práticas e materiais para mudar a realidade de um povo ou região. Sob a égide do Cavaleiro de ouros eles trabalharam duro, investiram, persistiram e chegaram onde muitos duvidavam que eles pudessem. Esses grandes empresários e visionários do Brasil foram os empreendedores Eike Batista, Antônio Ermírio de Moraes e o Visconde de Mauá.

Heróis Comuns

Os heróis vivem no mundo e estão presente em todas as áreas de atuação humana, influenciam em pequena, média e grande escala conforme cada caso e situação. Não faltam exemplos como o de homens que enfrentam inundações para salvar animais abandonados, ou aqueles que se agarram a um suicida que ia pular de uma ponte (Cavaleiro de copas). Muitos estão na nossa família como aquele avô ou avó que “vieram do nada” e construíram um patrimônio para os seus, ou que foram um exemplo de trabalho digno e de contribuição para sua comunidade (Cavaleiro de ouros). Ou ainda aqueles que foram aventureiros desbravadores, ou heróis de guerras do passado (Cavaleiro de espadas). Artistas notáveis ou atletas incríveis para seu bairro, cidade, estado ou país (Cavaleiro de paus)... Há heróis de todos os tamanhos, tipos e influências. Todos possuem em comum o fato de serem luzes admiráveis nos caminhos muitas vezes escuros desta vida.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

7 Mitos Modernos sobre o Tarot

Uma após outra as gerações tentam de algum modo, derrubar os mitos da geração passada. Esse processo é muitas vezes necessário e importante já que as crenças populares somados à cultura de um tempo criam muitas superstições que toldam a verdadeira natureza do saber. Por outro lado há o intrigante fato de que sempre que se derruba um mito, ergue-se outro. Como disse C.G. Jung “Mais cedo ou mais tarde tudo se transforma no seu contrário”, ou seja, acabamos por nos tornar aquilo que combatemos. Por isso aquele que luta por uma verdade e por esclarecimento pode acabar criando uma sombra tão tenebrosa quanto a que ele mesmo combatia. Como em todos os temas humanos vejo também na tarologia esse tipo de coisa ocorrer.

Muito dos mitos modernos criaram-se para derrubar alguns tabus que impediam a linguagem dos arcanos de se tornar mais fluida, mas como a ambivalência é da natureza humana, acabaram virando mitos às avessas justamente porque estreitaram, de algum outro modo a compreensão do tarot, ou seja, viraram os novos tabus! Outros mitos vêm da velha hipocrisia humana, algo como “Faz o que eu digo, mas não faz o que eu faço”. Outros ainda são só uma jogada de marketing mesmo, uma forma de vender um serviço, um curso, ou um livro que acaba distorcendo e restringindo um tema de domínio universal como a tarologia, para as opiniões de uns poucos autores e ou professores.

Selecionei sete mitos modernos, e escolhi esse número porque o sete sugere um aprimoramento, uma possibilidade de questionamento e revisão. Há, é claro, muito mais do que sete tabus perturbadores sobre a prática tarológica, mas acho que esses que selecionei se encaixam muito bem na moderna mitologia do estreitamente da visão.

1º) Tarólogos não são adivinhos

Eis o meu mito preferido! E gosto dele por já ter me surpreendido com muitos tarólogos que alegam que o tarot definitivamente não é um instrumento divinatório e sim um meio de investigação do inconsciente humano, mas que acabam fazendo parte dos painéis, em sites como no Clube do Tarot, para as previsões relativas à Copa, às eleições, ao ano novo… E assim por diante! O grande equívoco aqui é o de negar que todos os sistemas oraculares possuem, intrinsecamente, uma tendência tanto preditiva, quanto adivinhatória! Por isso, muitos dos combatentes da adivinhação com o tarot acabam fazendo previsões para o fim do ano.
Duvido muito que em consultório eles não se defrontem com perguntas do tipo: “Mas como vai ficar essa relação?”, “Posso investir nesse projeto?” e quando isso acontece o que eles fazem? Desfraldam o repertório junguiano em cima do cidadão ou cidadã?

Aqueles que tentam dissociar tarot de advinhação não querem em cima dos seus ombros o peso da distorção que a palavra sofreu! Adivinhar vem de divinar, ou seja, unir o divino e o mundano, o prático e o subjetivo, sem pender exclusivamente para um lado nem para o outro, realizando a aliança entre o interno e o externo. Isso sim é um trabalho verdadeiramente holístico, e é perfeitamente possível.

2º) Tarólogos não são cartomantes


Esse é demais porque simplesmente nega o óbvio! Imaginem que eu fiquei os últimos vinte e dois anos da minha vida jurando que o tarot é um baralho de… cartas! Já pensou?… Agora falando sério, aqui caímos de novo no preconceito que a cartomancia divinatória sofreu ao longo dos anos numa sociedade cada vez mais cerebral e menos intuitiva, cada vez mais material e exterior e menos espiritual e interior.
O termo mancia vem do grego e uma das suas traduções é arte, portanto, uma das definições possíveis para cartomancia é “a arte das cartas”. Criar a divisão tarólogos vs cartomantes cria inevitavelmente uma comparação e uma disputa velada. A profundidade de um trabalho independe do baralho que se usa, mas do uso que dele se faz aliado à visão de cada cartomante. E como já disse o meu amigo Emanuel J. Santos, historiador e tarólogo: “É fato que nem todo o cartomante é um tarólogo, mas todo o tarólogo é um cartomante!”.


3º) Tarólogos não são bruxos

Essa alegação é bem estranha, soa quase como uma regra ou condição, mas é totalmente falsa! As duas coisas não são excludentes. A bruxaria é uma religião primitiva de milhares de anos que cultiva a comunhão com a natureza e se utiliza dos oráculos para reflexão e adivinhação. O tarot é um instrumento perfeitamente compatível com suas crenças, embora seja verdade que nenhum deriva do outro. Quanto à afirmação de que tarólogos não são bruxos, sugiro apenas cautela, pois novamente o que poderia ser apenas um termo de esclarecimento pode virar uma cartilha do que somos (ou devemos ser) e do que não somos, como um regulamento, além de correr o risco de criar a velha oposição dos egos (algo tipo tarólogos vs bruxos). Sim, há tarólogos que são devotados bruxos, ou wiccanos, e há seguidores da religião wicca que não se interessam pelo tarot! Simples assim.


4º) O tarot não precisa de rituais para ser utilizado

Na linha racionalista que está sendo difundida nos temas espirituais, esotéricos, holísticos ou ocultos esse é um dos mitos mais curiosos. Quero dizer em princípio que eu concordo com essa afirmação assim como ela é colocada aí em cima. Não é o baralho de cartas que precisa dos rituais, somos nós. Somos nós que sofremos as influências do nosso meio, cultivamos preocupações e nos perturbamos com isso. Pensemos um pouco sobre o fato de que para nos exercitarmos é aconselhado um aquecimento. Antes do amor, preliminares e jogos sensuais! Antes da meditação é preciso centrar e acalmar a respiração… Minha pergunta é: Por que motivo um trabalho que mexe com símbolos da alma humana, e a psique das pessoas, não precisaria de preparação?

Os rituais são meios pelos quais nos despimos dos afazeres mundanos e das preocupações ordinárias para entrar em contato com uma dimensão mais interior e receptiva do ponto de vista psíquico. Uns se utilizarão de meios mais elaborados para cumprir sua interiorização, outros ainda farão orações, acenderão velas, incensos, ou desenharão símbolos mágicos no ar, outros apenas limparão a mente e respirarão algumas vezes antes da consulta, ou qualquer outra coisa que ajude a atingir a parte mais profunda de si mesmos. Todas estas práticas são rituais!

Os ritos são todos válidos e necessários sim. No contato com as cartas mergulhamos em nós mesmos e depois no outro, e isso não é uma experiência qualquer. Como toda a atividade humana precisa de preliminares de algum tipo antes de sua execução, e duvido muito que alguém não se utilize de uma prática desse tipo, mesmo sem saber o que está fazendo!

5º) É preciso estudar muito para interpretar o tarot corretamente

Esse é o mito que se criou para combater os tarólogos que alegavam que ler as cartas era um dom ou que herdaram isso de algum familiar mais velho que já executava a atividade. Mais uma vez proponho um olhar para o meio, existem sim pessoas que depois de muito estudo e prática conseguem ler o tarot, outros apesar de pouca leitura e conhecimento sobre técnicas de tiragem, são exímios em captar as mensagens dos arcanos. A taróloga e escritora Cynthia Giles em seu livro Tarô uma História Crítica, assinala que há os chamados leitores psíquicos, pessoas que se utilizam das cartas apenas como um trampolim para acessar a chave inconsciente daqueles que os procuram. As duas coisas são possíveis, e alguns terão que esfregar o nariz nos livros por muito tempo, ou o resto da vida, e outros acessarão essa linguagem de modo fluido.

É importante que não se sucumba a tentação do ego em tentar saber quem tem mais méritos, a meu ver ambos o tem! Um já nasceu com ele e o outro o conquistou! Tanto o leitor mediúnico, ou psíquico, quanto o analítico intelectual ocupam o seu lugar na vida e tem sua função. As conclusões a que ambos podem chegar não tem como ser diferentes, afinal a vida de quem se consulta é uma só! O que muda são os métodos e as terminologias que encontrarão, cada um, a sua própria audiência. As duas abordagens são necessárias e haverá aqueles que preferem embasamento teórico e aqueles que confiarão mais em guiança mediúnica, e ponto final!

6º) Qualquer um pode aprender tarot

Esse é um mito do capitalismo, afinal como é possível vender um curso se o público não acreditar que a matéria é acessível? Quero ressaltar que nesse caso eu também concordo com a afirmação assim como ela foi apresentada anteriormente, qualquer um pode entender a jornada dos arcanos e relacionar ela com a própria jornada humana pela vida, tirando disso muitas lições para o seu próprio desenvolvimento, agora daí a dizer que se formou um tarólogo… Comparo com a arte do desenho, ora todos nós podemos aprender a desenhar, desde criança esse é o primeiro gesto criativo! Mas quantos de nós aprenderão a desenhar como Da Vinci, ou Picasso? Ou num comparativo mais próximo, quantos dos que desenham razoavelmente bem tem seu trabalho reconhecido, fazem exposições, vendem e vivem da sua arte?… Pois é, como qualquer outra atividade humana o tarot requer talento sim, pois sem isso teremos só intérpretes medíocres. Como um desenhista que só aprendeu a fazer o homem palito da infância e que o apresenta às pessoas arrematando com a pergunta: “Não é lindo?”

Para os que me indagam de como saber se este é ou não o seu talento, eu digo que o único jeito é percorrer o caminho, fazer um curso, exercitar leituras e depois usar um pouco de bom senso e honestidade consigo mesmo! Aconselho a qualquer um desconfiar dos cursos de formação de tarólogos, ainda mais os rapidinhos.

7º) O método mais eficiente

Com certeza esse mito sempre será criado, tempo após tempo… É muito difícil de derrubar uma coisa dessas! Sempre haverá um autor de mais relevância que criará uma tendência, e sempre haverá seguidores para essa tendência, que divulgarão que os que não a seguem não conhecem a verdade, ou estão equivocados, ou ainda que não são tão bons assim… O único jeito é ficar sempre atento a um fato bem simples: qualquer autor, por mais aclamado que seja, só é capaz de viver a sua própria experiência e tirar o máximo dela, e nisso ele será igual a qualquer um nós! Por mais adeptos que suas ideias alcancem não significa que sejam a melhor visão e muito menos a única a ser seguida. Afinal os que não conseguem se enquadrar nessa “verdade” devem fazer o quê? Desistir do tarot? Nenhum tarot é o definitivo, nenhum método de leitura ou maneira de dispor as cartas é o mais correto ou eficiente. Há inúmeros tarots, métodos e sistemas de leituras, experimente todos até descobrir o seu.

Não se esqueça de que a maravilha do tarot é não ter um dono, fundador, ou inventor reconhecido. Muito menos uma autoridade inatacável quanto a sua aplicação oracular. E essa liberdade permite com que cada um o utilize como quer, diferentemente de outros, e todos usando o mesmo instrumento! Ninguém está livre de ser questionado ou contestado não importa o tamanho da bibliografia a que ela (ou ela) tenha se dedicado a dissecar, nem quantos museus tenha visitado. Somos todos pessoas compartilhando nossas visões interiores e transmitindo esse conhecimento cuja origem, apenas em parte, é humana e racional.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Anjos & Demônios no Tarot - A Hierarquia Angélica no Simbolismo do Tarot

O "paradis perdus 9",
de Gustave Doré.
Sempre me intrigou as imagens angélicas no simbolismo do tarot. Sabemos sobre os anjos que são eles os mensageiros de Deus (angelus, do latim mensageiro). No tarot os anjos simbolizam a ascensão para um novo estágio de consciência. Eles aparecem nas cartas de A Temperança, e de O Julgamento e também na figura do anjo decaído, Lúcifer. As asas são tradicionalmente o símbolo da liberdade e da elevação. Na iconoclastia cristã os anjos têm asas que os transportam do mundo espiritual e divino para o mundo terreno dos homens, o que por outro lado pode ser considerado como a possibilidade da união do sagrado com o profano dentro da psique. Ou da besta instintiva com a consciência espiritual intrínseca na natureza humana. 
Os três anjos mais conhecidos nas três maiores religiões do mundo (cristianismo, islamismo e judaísmo) são Miguel, cujo nome quer dizer aquele que é como Deus, ou como a pergunta, quem é como Deus? Gabriel, homem forte de Deus, ou apenas homem de Deus e Rafael (Raphael), a cura de Deus, ou curado por Deus.




Os Arcanjos Rafael, Gabriel e Miguel.
À esq. “Rafael” de Bartolome Roman. Ao centro Gabriel em “Anunciação”, de Paolo de Matteis. À dir. “Miguel” de Guido Reni.
Rafael

Tudo começa com o arcano XIII A Morte (as figuras angélicas só aparecem depois deste arcano), e o interessante é que o próprio arcanjo Gabriel também era conhecido como o anjo da morte! Esse arcano representa um grande ponto de mutação, onde uma profunda transformação ocorreu e uma nova visão da vida nasce, como numa separação, a perda de um emprego ou a cura de uma doença muito grave onde a própria existência do indivíduo foi ameaçada! E não faltam exemplos de pessoas que diante do imponderável mudaram hábitos e direcionamentos de vida. Essa nova percepção da vida está representada no arcano de A Temperança como uma cura física ou interna que muda o aspecto interior e exterior, ou a realidade de uma situação. Esta ampliação da visão interior é representada no tarot de Marselha como a flor de cinco pétalas que desabrocha no ponto entre as sobrancelhas da figura angélica (o sexto chakra, ou terceira visão). Os místicos verão nisso uma inspiração divina, os racionalistas apoiados na psicologia talvez vejam uma ampliação da consciência provocada pura e simplesmente pela pressão extrema. Eu particularmente acho que as duas são a mesma coisa vista por ângulos diferentes, moldadas ao gosto da abertura interior de quem as lê.
Tobias e o Arcanjo Rafael.
O décimo quarto arcano do tarot me parece mais do que conectado com a figura do arcanjo Rafael, pois a cura proposta por ele não é apenas física, mas também interna e espiritual. Daí esse arcano ser sempre associado a tratamentos de saúde, quer sejam eles alternativos ou convencionais. As ânforas laçando água uma sobre a outra são a expressão de uma mistura ou composto que pretende chegar a uma síntese curativa. O número deste arcano é 14 cuja soma 1+4 = 5, o número da quintessência mística, o elemento que sintetiza a alma humana. Esse número também corresponde ao arcano de O Hierofante que simboliza, entre outras coisas, os médicos, curadores e terapeutas de todo tipo. Na bíblia Rafael aparece no Antigo Testamento, no Livro de Tobias ele ordena que Tobias domine um peixe que tentou devorá-lo para retirar-lhe o fel, com o qual o próprio Rafael cura a cegueira do pai de Tobias.
A transição, da Morte para A Temperança,
as rupturas dramáticas ampliando a percepção da vida.

O tempero proposto pelo título desta carta tem muito menos a ver com as qualidades de parcimônia e prudência pretendida pela doutrina católica e mais com a ativação da personalidade com um novo sentido interior de existência ou com elementos que lhe faltam. Assim uma personalidade suave e muito frágil fica mais efetiva se lhe forem acrescidas as qualidades do foco e do rigor. Aleister Crowley e Frieda Harris representaram isso muito bem no arcano Arte (nome que deram ao arcano de A Temperança) onde uma cabeça é composta por duas faces inteiras unidas! Nesse caso a união das partes ficou maior que o todo. Por esse princípio uma personalidade quando ativada, ou temperada, com um novo significado, propósito ou qualidades que estruturem melhor sua expressão, se torna maior do que a sua antiga forma. A cura apresentada pelo arcanjo Rafael é uma consciência nova, mais ampla e cheia de novas perspectivas! O que coaduna muito bem com a ideia de tempo e demora que também acompanha o simbolismo deste arcano, afinal tudo que acabamos de falar faz parte de um longo processo, tanto interno quanto externo, que poderá ser precedido de algum tipo de sofrimento, como os citados no início deste artigo.

O Diabo

Ou Lúcifer, também aparece no tarot. Depois de o arcano de A Temperança, surge o arcano XV de O Diabo que na sequência representa o perigo de a nova ampliação da consciência esbarrar em conceitos puramente materiais. É bem conhecida a comparação que alguns tarólogos tecem entre as cartas de O Hierofante e o Diabo. No tarot de Marselha, ambos fazem gestos iniciáticos! O primeiro parece alertar para o fato de que há muito mais na vida para além do que vemos. O outro tenta nos convencer que tudo está no mundo visível e que para fora dos cinco sentidos nada mais há a ser percebido! Podemos dizer com isso que vivemos numa era onde o Diabo assumiu o controle! Mesmo pessoas que se dizem muito religiosas, como nos cultos pentecostais, enumeram sempre aquisições materiais como resultado de sua fé. “Com Jesus minha vida financeira se encaminhou” ou “Fiquei curada! Já tinha até perdido as esperanças!” ou ainda “Depois que entrei para a igreja arranjei um emprego e larguei o vício!” e assim por diante!... Quase nunca dizem uma palavra sobre o que apreenderam da vida para além do seu significado físico. Nada houve de realmente místico nessas conquistas. A experiência mística alcança sempre níveis de compreensão transpessoais e por isso mesmo universais. Portanto, que fique claro de que o materialismo não é coisa apenas de ateus, mas também dos que desconhecem o real sentido da espiritualidade. O arcano de O Diabo personifica nossos anseios materiais, paixões físicas, ambições, inveja, ânsia por controle e poder. Tudo o que excita nossa fera interior, cheia de fantasias vergonhosas e segredos sujos que a maioria faz de tudo para manter longe de olhos alheios. A culpa por cultivar essa fera é aliviada quando o olhar se volta para fora e o senso comum mira o diferente taxando-o de “anormal”. O manto da normalidade aplaca a vergonha do demônio pessoal que jaz nas profundezas escuras da consciência.
Lúcifer de Franz von Stuck, 
habitante das trevas.


Na bíblia diz-se que Lúcifer é um anjo caído, que foi expulso dos céus pelo arcanjo guerreiro Miguel e por ele arremessado às profundezas da terra onde passou a viver e a arder em sua própria fúria. Lá Lúcifer, cujo nome quer dizer portador da luz vira Satã, que significa adversário, ou simplesmente o Diabo, que significa caluniador. As profundezas da terra são as profundezas da natureza e do corpo, assim sendo tudo o que se referisse ao mundo natural ou dos instintos transforma-se em demoníaco. Só para esclarecer, a palavra demônio foi mais tarde adicionada aos nomes do Diabo, mas é de origem grega. Deimos era um dos filhos de Ares, o deus da guerra, e a tradução do seu nome é medo. Muito apropriado! Satã ou Lúcifer começa então a ser visto como o grande adversário da humanidade instigando nela todo o calor de seus instintos mais primitivos, um agente eterno do mal que age nas sombras, na escuridão, muito longe de toda a luz da qual ele foi, um dia, o grande portador. O medo da escuridão é um dos medos mais atávicos na humanidade. Uma antiga placa em terracota encontrada na Suméria (4.000 e 3.000 A/C) mostra a figura de Lilitu, o terrível espírito feminino da noite. No Talmud hebreu ela aparece como Lilith, a primeira mulher de Adão, que ao não aceitar o domínio e subjugação ao homem como uma forma de obediência a Deus cai em desgraça, se refugia nas sombras e começa então a parir 100 demônios por dia. Lilith vira, a partir disso, a mãe de todo o mal.
Lilitu, à esquerda, o terrível espírito da noite (placa sumeriana em terracota). O Diabo, à direita, no tarot de Marselha... Mera semelhança...?

Há uma incrível semelhança entre a milenar figura na placa de terracota e o arcano de O Diabo, como ele aprece no tarot de Marselha. Assim, nos primórdios das religiões monoteístas e organizadas, o mal passa a ser associado à natureza, aos instintos, sobretudo os sexuais, as mulheres e ao feminino como um todo! Mulheres são vistas com desconfiança, e os tipos afeminados de homens passam a ser tidos como uma ameaça ao mundo masculino. Vê-se nisso as raízes do machismo e da homofobia na mesma origem.

Miguel e Gabriel

Miguel e Gabriel se revezam na regência de um dos últimos arcanos do tarot O Julgamento, o vigésimo dos arcanos maiores. Afinal quem é o anjo que aparece tocando as trombetas sobre as catacumbas abertas anunciando a chegada de um novo tempo? Miguel é tanto o guerreiro que baniu o mal do reino dos céus, como o grande julgador das almas, que segundo as escrituras bíblicas, virá no dia do juízo final convocando as almas de todos os que já viveram sobre a terra para o grande julgamento presidido por Jesus Cristo renascido. Nesse dia, segundo essas mesmas escrituras, todos os mortos voltarão à vida. 
Se entendermos o juízo final metaforicamente, ele é uma conscientização profunda e transformadora, que pode se dar tanto a nível global quando individual. Olhando por esse prisma parece mesmo que Miguel se enquadra bem no simbolismo de O Julgamento. Esse arcano simboliza a reavaliação da vida diante de um chamado interno, algo como uma convocação íntima que traz questionamentos profundos tipo: “Por que isso sempre acontece comigo?” ou “Como pude viver assim até hoje?”, “Como as coisas chegaram a esse ponto?”. Esse momento crítico pode levar a consciência a uma súbita compreensão das vivências do passado e dos padrões que moldam o que conhecemos como o futuro, dentro do momento presente. Esse evento é análogo ao samadhi dos indianos ou ao satori dos japoneses, que podem ser traduzidos como a iluminação. 
Essa transição reveladora, no entanto, guarda semelhanças com o simbolismo do arcanjo Gabriel. Ele aparece em momentos cruciais das histórias sagradas para mudar o rumo dos acontecimentos, tanto no cristianismo como no islamismo. É Gabriel quem avisa a Maria que ela dará a luz ao messias, e depois é ele quem a avisa do risco de vida que o menino corre diante do assassinato de crianças ordenado por Herodes, rei da Judeia, e ordena que Maria e José fujam. Foi Também o arcanjo Gabriel quem ordenou a Maomé que escrevesse o alcorão, o livro sagrado do islã. 
Arcanjo Miguel, o julgador
das almas.
Muitos de nós, ou todos nós, passamos por grandes questionamentos onde o passado e o presente se confrontam numa ânsia por dar significação a existência. Temos de admitir, porém, que para a maioria das pessoas isso passa, é varrido para debaixo do tapete da rotina de cada um sem com que a consciência ou a direção da vida mudem. Ao contrário do que acontece no arcano XIV A Temperança, onde se obtém um vislumbre do novo caminho a seguir, em O Julgamento fica claro onde está o problema dentro do contexto de uma vida, e ele é tanto reconhecível quanto inegável. Na Temperança há um olhar para diante cheio de perspectivas. No Julgamento há um olhar para trás cheio de intenções de correção e ou compreensão. O que não significa que eles ocorram, pois que geralmente são difíceis de executar, e muito menos que levarão a uma verdadeira iluminação, já que isso é para as poucas almas que amadureceram no processo de suas muitas vidas! Quando ocorrem, tanto a correção quanto a compreensão, então são um atributo do arcanjo Gabriel o grande anunciador, e não do arcanjo Miguel o justiceiro e julgador das almas.

E o Outro Anjo?

Alguns alunos e leitores me cobraram para que eu falasse sobre o outro anjo que aparece no tarot, mais precisamente na carta de O Enamorado, o sexto arcano. O que respondo aos meus inquiridores é de que não se trata de um anjo, mas da figura do deus Greco-romano do amor, Eros. A imagem de Eros sobre casais apaixonados, flechando corações incautos era bem comum na arte popular renascentista. O mais usual era representá-lo como um anjo bebê com asas, pronto a desferir um tiro certeiro no coração de um jovem rapaz... Ah, e quase invariavelmente era um rapaz, pois que os galanteios de amor eram uma premissa masculina. O que podemos dizer mais sobre isso é de que a representação de um infante com asas era uma figura tradicional dos anjos querubins, representados por artistas como Raphael ou Rosso Fiorentino.


Dois querubins lendo, pintura de
Rosso Fiorentino (1494-1540).

Na tradição judaica da Cabala os querubins estavam relacionados com a sephira de Chokmah, a suprema sabedoria. Ora, o que vemos não é justamente um jovem que tem de escolher entre dois caminhos, um justo e outro pecaminoso? Um coerente com seus valores e outro subversivo aos seus modelos internos? E quanta falta faz uma sábia orientação nessas horas, ou mesmo uma “luz” superior que nos oriente! Quantas escolhas que parecem inocentes mostram-se depois desastradas por falta de maturidade ou de ouvir a sabedoria interior? Quantas escolhas aparentemente sem importância no princípio se mostraram um grande erro com o passar do tempo? E não vamos aqui nos deter em avaliar se essa sabedoria vem do nosso inconsciente ou de uma inspiração do Eu Superior, a porção do divino que habita dentro de cada um de nós! A verdade é que a falta de atenção a essa inspiração, ou mesmo a total falta dela, faz toda a diferença entre o sucesso e o fracasso com muito mais frequência do que se possa imaginar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Roda de Tarot (Tarot Circular)

A dançarina cósmica de O Mundo, arcano XXI,
no Motherpeace tarot. 
O Tarot como Uma Dinâmica de Grupo


Os movimentos que criam uma reunião de pessoas com o objetivo de crescimento coletivo tem sua origem nos costumes tribais da ancestralidade humana e surgem como uma resposta ao crescente domínio das máquinas e das relações virtuais. Os contatos on-line estão sendo questionados em detrimento dos contatos reais. Coisa semelhante está ocorrendo na tarologia onde as leituras individuais estão sendo vistas não mais como o único modo de aplicação das cartas! Surgem as leituras coletivas com o intento de compartilhar informações, rever projeções inconscientes que passamos ao mundo e desenvolver a percepção intuitiva, além do sentimento de grupo, e da aceitação de si mesmo e do outro.
Ao contrário de uma leitura individual, onde as informações são dadas de modo específico e muito particular pelo leitor para aquele que se consulta, a leitura coletiva procura trabalhar o modo como interagimos em níveis mais profundos uns com os outros. Autores de tarots como Vicki Noble e James Wanless têm estimulado este tipo de vivência como uma forma de crescimento grupal, troca de experiências, e uma forma lúdica e meditativa, ao mesmo tempo, de crescimento interior. Inspirado por esses autores criei um conjunto de vivências que denominei inicialmente de Tarot Circular, e mais recentemente de Roda de Tarot, que resgata o círculo como um símbolo de interação e livre fluxo de energia entre pessoas. No último dia 19/05/2012 promovi com alguns alunos e clientes mais um desses encontros e foi mais uma vez uma experiência maravilhosa para todos nós! É fabuloso testemunhar o que pessoas com pouco ou nenhum conhecimento das cartas conseguem absorver delas de modo totalmente inconsciente e extrair disso informações não só relevantes para seu próprio crescimento quanto para o crescimento do próximo.
Os encontros da Roda de Tarot costumam ser bem descontraídos, para que o seu aspecto pueril não se perca com a seriedade dos temas levantados, e eu mesmo costumo participar não apenas como um facilitador e intérprete dos símbolos tarológicos, mas também como um ser humano em busca do entendimento de suas máscaras e projeções e do modo como elas afetam a si mesmo, suas oportunidades e relações. Essa posição de igualdade é fundamental para que a abertura dos participantes se dê por completo! Sem temores ou reservas, como devem ser todas as dinâmicas grupais.
O tarot que uso para tais vivências é o Motherpeace (Mãe Paz) de Vicki Noble e Karen Vogel (ver fotos abaixo à esq.). Este baralho teve como inspiração os ritos pagãos das culturas pré-cristãs focados no feminino sagrado e na vida em comunidade como fonte de crescimento e desenvolvimento. Suas cartas são redondas, evocando mais uma vez o círculo como um símbolo de inclusão e acolhimento, uma forma que, segundo as autoras, é a marca da grande deusa-mãe do passado! Suas imagens não possuem um grande acabamento artístico e por isso mesmo lembram ora desenhos infantis, ora pinturas rupestres. São espontâneas e despretensiosas.
Vicki Noble
Karen Vogel
Uma vivência simples que se pode realizar com um grupo consiste em fazer inicialmente uma forma de meditação conjunta para criar uma sintonia psíquica com o grupo. Feito isso se sentam todos em circulo e mentalizam conjuntamente para tirar, cada um, uma carta que represente a essência de suas vidas naquele momento. Logo em seguida puxam, cada um ao seu tempo, uma carta e a observam por alguns instantes, em seguida aquele que estiver coordenando vivência pede para que alguém inicie mostrando a sua carta para o grupo, caso haja necessidade ele pode até permitir que os outros participantes a peguem na mão. Passado esse momento as pessoas devem ser estimuladas a dizer o que sentiram das imagens que viram na carta do companheiro. Nesse momento muitas percepções intuitivas afloram em pessoas com pouco ou nenhum conhecimento das cartas, e isso auxilia a que cada um reflita sobre as imagens que projeta para o mundo de modo inconsciente. É importante salientar que o baralho usado tem de ter imagens claras e inspiradoras, e que não possua palavras chave ao pé das cartas como “Amor” (2 de copas), ou “Ruína” (10 de espadas) como ocorre no Thoth tarot de Aleister Crowley. Ou ainda “Celebração” (3 de copas) e “Sofrimento” (9 de espadas) como aparecem no Osho Zen tarot. Essas palavras acabam por influenciar a livre interpretação das pessoas leigas. Quanto mais livre de influências, melhor

segunda-feira, 16 de abril de 2012

As Possibilidades do Reiki

Muitas pessoas estão iniciadas em reiki hoje em dia, mas muito poucas são reikanas de fato. A prática do reiki é que constitui um reikiano, o que vai muito além de suas aplicações terapêuticas, não que isso seja pouca coisa, mas a transmissão da energia ki pode se tornar uma disciplina espiritual, embora dissociada de qualquer religião.
Quando eu ouvi falar em reiki pela primeira vez muitas pessoas diziam aquela frase que para mim se tornou um slogan, por assim dizer, da energia reiki: “O reiki mudou minha vida!”. Infelizmente também houve aqueles que começaram a achar que para mudar suas vidas era preciso apenas receber uma iniciação! Ora, essa não é justamente a velha busca humana por milagres, sem com que seja preciso nenhum esforço por parte daquele que necessita do milagre? As próprias escrituras bíblicas nos recomendam fazer nossa parte, mas não adianta! Para a maioria da humanidade evoluir ou crescer em qualquer âmbito sem nenhum esforço é muito sedutor, e não importa o quanto o tempo e a história comprovem que isto não existe.
O melhor do reiki é a sua prática, somente assim, aplicando-o em si mesmo e nos outros (independente de ser profissionalmente ou não), é que podemos descobrir suas muitas aplicações e possibilidades que passam a ter a credibilidade que só a experiência pode dar.



O reiki mudou a minha vida por vários motivos e benefícios que a disciplina da prática diária me revelou, e quero citar aqui três deles que modificaram sensivelmente minhas relações pessoais e profissionais: 1º) A paciência, eu aprendi a relaxar e observar mais, o que me fez ser mais tolerante com o ritmo dos outros e a respeitar o meu próprio ritmo interno. 2º) O relaxamento da mente, sempre fui muito guiado pelo meu raciocínio, mas a rotina silenciosa da aplicação reiki foi aliviando lentamente a turba dos pensamentos. Tanto que o dia em que me dei por conta de que ela não me assolava mais foi como um susto, só que muito bem vindo! 3º) Minha intuição e psiquismo aumentaram sensivelmente a ponto de hoje eu ser capaz de perceber a intensidade e a qualidade da energia emocional do cliente no momento da consulta, e tudo de modo muito fluído e natural.
Essas entre tantas outras aplicações do reiki tem me tornado um praticante devotado e confiante nas suas possibilidades de cura em muitos níveis. Quero deixar bem claro que isso tudo aconteceu de modo mágico sim, mas não repentino, nem tão pouco sem esforço ou comprometimento da minha parte.
Assinalo aqui outras possibilidades da energia ki que o tempo tem me revelado e espero que inspire aos novos reikianos, ou aqueles que um dia se interessaram em aprender e que por um motivo ou outro acharam que seria pouco estimulante...
Relaxamento – A introspecção silenciosa do reiki permite um profundo relaxamento, o que faz com que o corpo libere tensões musculares e psicológicas, tornando a consciência mais receptiva às informações do ambiente e do próprio inconsciente.
Redescoberta do Toque – O suave contato da transmissão reiki nos auxilia a redescobrir o toque humano como uma fonte de união, aconchego, carinho, e proteção tanto do outro quanto de nós mesmos!

Meditação – A meditação é a experiência de abandonar-se no silêncio, que em última instância é um contato com o ser essencial, a parte mais profunda e verdadeira da natureza humana, livre das programações culturais. A postura silenciosa e introspectiva que assumimos durante as sessões de reiki nos possibilita uma profunda experiência meditativa!
Autoconhecimento – A postura mais receptiva e introspectiva que assumimos durante o processo de conexão reiki permite que sentimentos profundos venham à tona, possibilitando seu reconhecimento e tratamento.
Autocura – A autoaplicação de reiki é um maravilhoso instrumento para a cura das próprias limitações, tanto físicas, quanto emocionais, psicológicas e espirituais, além de permitir que talentos latentes aflorem e que os talentos já reconhecidos sejam intensificados.

Cura – A cura é o resultado da integração plena dos quatro níveis da vida (corpo, mente, sentimentos e espírito) numa síntese harmônica, consciente e estável.
Comunhão Espiritual – Quando relaxamos dentro do suave e amoroso toque reiki, fazemos disso uma meditação, que proporciona mais conhecimento sobre nós mesmos e a própria humanidade. Nos autocuramos, curamos a outros e desfrutamos da experiência de totalidade com todas as coisas, o que os místicos e xamãs do mundo todo chamaram de “comunhão com o Grande Mistério”.