quinta-feira, 5 de julho de 2012

7 Mitos Modernos sobre o Tarot

Uma após outra as gerações tentam de algum modo, derrubar os mitos da geração passada. Esse processo é muitas vezes necessário e importante já que as crenças populares somados à cultura de um tempo criam muitas superstições que toldam a verdadeira natureza do saber. Por outro lado há o intrigante fato de que sempre que se derruba um mito, ergue-se outro. Como disse C.G. Jung “Mais cedo ou mais tarde tudo se transforma no seu contrário”, ou seja, acabamos por nos tornar aquilo que combatemos. Por isso aquele que luta por uma verdade e por esclarecimento pode acabar criando uma sombra tão tenebrosa quanto a que ele mesmo combatia. Como em todos os temas humanos vejo também na tarologia esse tipo de coisa ocorrer.

Muito dos mitos modernos criaram-se para derrubar alguns tabus que impediam a linguagem dos arcanos de se tornar mais fluida, mas como a ambivalência é da natureza humana, acabaram virando mitos às avessas justamente porque estreitaram, de algum outro modo a compreensão do tarot, ou seja, viraram os novos tabus! Outros mitos vêm da velha hipocrisia humana, algo como “Faz o que eu digo, mas não faz o que eu faço”. Outros ainda são só uma jogada de marketing mesmo, uma forma de vender um serviço, um curso, ou um livro que acaba distorcendo e restringindo um tema de domínio universal como a tarologia, para as opiniões de uns poucos autores e ou professores.

Selecionei sete mitos modernos, e escolhi esse número porque o sete sugere um aprimoramento, uma possibilidade de questionamento e revisão. Há, é claro, muito mais do que sete tabus perturbadores sobre a prática tarológica, mas acho que esses que selecionei se encaixam muito bem na moderna mitologia do estreitamente da visão.

1º) Tarólogos não são adivinhos

Eis o meu mito preferido! E gosto dele por já ter me surpreendido com muitos tarólogos que alegam que o tarot definitivamente não é um instrumento divinatório e sim um meio de investigação do inconsciente humano, mas que acabam fazendo parte dos painéis, em sites como no Clube do Tarot, para as previsões relativas à Copa, às eleições, ao ano novo… E assim por diante! O grande equívoco aqui é o de negar que todos os sistemas oraculares possuem, intrinsecamente, uma tendência tanto preditiva, quanto adivinhatória! Por isso, muitos dos combatentes da adivinhação com o tarot acabam fazendo previsões para o fim do ano.
Duvido muito que em consultório eles não se defrontem com perguntas do tipo: “Mas como vai ficar essa relação?”, “Posso investir nesse projeto?” e quando isso acontece o que eles fazem? Desfraldam o repertório junguiano em cima do cidadão ou cidadã?

Aqueles que tentam dissociar tarot de advinhação não querem em cima dos seus ombros o peso da distorção que a palavra sofreu! Adivinhar vem de divinar, ou seja, unir o divino e o mundano, o prático e o subjetivo, sem pender exclusivamente para um lado nem para o outro, realizando a aliança entre o interno e o externo. Isso sim é um trabalho verdadeiramente holístico, e é perfeitamente possível.

2º) Tarólogos não são cartomantes


Esse é demais porque simplesmente nega o óbvio! Imaginem que eu fiquei os últimos vinte e dois anos da minha vida jurando que o tarot é um baralho de… cartas! Já pensou?… Agora falando sério, aqui caímos de novo no preconceito que a cartomancia divinatória sofreu ao longo dos anos numa sociedade cada vez mais cerebral e menos intuitiva, cada vez mais material e exterior e menos espiritual e interior.
O termo mancia vem do grego e uma das suas traduções é arte, portanto, uma das definições possíveis para cartomancia é “a arte das cartas”. Criar a divisão tarólogos vs cartomantes cria inevitavelmente uma comparação e uma disputa velada. A profundidade de um trabalho independe do baralho que se usa, mas do uso que dele se faz aliado à visão de cada cartomante. E como já disse o meu amigo Emanuel J. Santos, historiador e tarólogo: “É fato que nem todo o cartomante é um tarólogo, mas todo o tarólogo é um cartomante!”.


3º) Tarólogos não são bruxos

Essa alegação é bem estranha, soa quase como uma regra ou condição, mas é totalmente falsa! As duas coisas não são excludentes. A bruxaria é uma religião primitiva de milhares de anos que cultiva a comunhão com a natureza e se utiliza dos oráculos para reflexão e adivinhação. O tarot é um instrumento perfeitamente compatível com suas crenças, embora seja verdade que nenhum deriva do outro. Quanto à afirmação de que tarólogos não são bruxos, sugiro apenas cautela, pois novamente o que poderia ser apenas um termo de esclarecimento pode virar uma cartilha do que somos (ou devemos ser) e do que não somos, como um regulamento, além de correr o risco de criar a velha oposição dos egos (algo tipo tarólogos vs bruxos). Sim, há tarólogos que são devotados bruxos, ou wiccanos, e há seguidores da religião wicca que não se interessam pelo tarot! Simples assim.


4º) O tarot não precisa de rituais para ser utilizado

Na linha racionalista que está sendo difundida nos temas espirituais, esotéricos, holísticos ou ocultos esse é um dos mitos mais curiosos. Quero dizer em princípio que eu concordo com essa afirmação assim como ela é colocada aí em cima. Não é o baralho de cartas que precisa dos rituais, somos nós. Somos nós que sofremos as influências do nosso meio, cultivamos preocupações e nos perturbamos com isso. Pensemos um pouco sobre o fato de que para nos exercitarmos é aconselhado um aquecimento. Antes do amor, preliminares e jogos sensuais! Antes da meditação é preciso centrar e acalmar a respiração… Minha pergunta é: Por que motivo um trabalho que mexe com símbolos da alma humana, e a psique das pessoas, não precisaria de preparação?

Os rituais são meios pelos quais nos despimos dos afazeres mundanos e das preocupações ordinárias para entrar em contato com uma dimensão mais interior e receptiva do ponto de vista psíquico. Uns se utilizarão de meios mais elaborados para cumprir sua interiorização, outros ainda farão orações, acenderão velas, incensos, ou desenharão símbolos mágicos no ar, outros apenas limparão a mente e respirarão algumas vezes antes da consulta, ou qualquer outra coisa que ajude a atingir a parte mais profunda de si mesmos. Todas estas práticas são rituais!

Os ritos são todos válidos e necessários sim. No contato com as cartas mergulhamos em nós mesmos e depois no outro, e isso não é uma experiência qualquer. Como toda a atividade humana precisa de preliminares de algum tipo antes de sua execução, e duvido muito que alguém não se utilize de uma prática desse tipo, mesmo sem saber o que está fazendo!

5º) É preciso estudar muito para interpretar o tarot corretamente

Esse é o mito que se criou para combater os tarólogos que alegavam que ler as cartas era um dom ou que herdaram isso de algum familiar mais velho que já executava a atividade. Mais uma vez proponho um olhar para o meio, existem sim pessoas que depois de muito estudo e prática conseguem ler o tarot, outros apesar de pouca leitura e conhecimento sobre técnicas de tiragem, são exímios em captar as mensagens dos arcanos. A taróloga e escritora Cynthia Giles em seu livro Tarô uma História Crítica, assinala que há os chamados leitores psíquicos, pessoas que se utilizam das cartas apenas como um trampolim para acessar a chave inconsciente daqueles que os procuram. As duas coisas são possíveis, e alguns terão que esfregar o nariz nos livros por muito tempo, ou o resto da vida, e outros acessarão essa linguagem de modo fluido.

É importante que não se sucumba a tentação do ego em tentar saber quem tem mais méritos, a meu ver ambos o tem! Um já nasceu com ele e o outro o conquistou! Tanto o leitor mediúnico, ou psíquico, quanto o analítico intelectual ocupam o seu lugar na vida e tem sua função. As conclusões a que ambos podem chegar não tem como ser diferentes, afinal a vida de quem se consulta é uma só! O que muda são os métodos e as terminologias que encontrarão, cada um, a sua própria audiência. As duas abordagens são necessárias e haverá aqueles que preferem embasamento teórico e aqueles que confiarão mais em guiança mediúnica, e ponto final!

6º) Qualquer um pode aprender tarot

Esse é um mito do capitalismo, afinal como é possível vender um curso se o público não acreditar que a matéria é acessível? Quero ressaltar que nesse caso eu também concordo com a afirmação assim como ela foi apresentada anteriormente, qualquer um pode entender a jornada dos arcanos e relacionar ela com a própria jornada humana pela vida, tirando disso muitas lições para o seu próprio desenvolvimento, agora daí a dizer que se formou um tarólogo… Comparo com a arte do desenho, ora todos nós podemos aprender a desenhar, desde criança esse é o primeiro gesto criativo! Mas quantos de nós aprenderão a desenhar como Da Vinci, ou Picasso? Ou num comparativo mais próximo, quantos dos que desenham razoavelmente bem tem seu trabalho reconhecido, fazem exposições, vendem e vivem da sua arte?… Pois é, como qualquer outra atividade humana o tarot requer talento sim, pois sem isso teremos só intérpretes medíocres. Como um desenhista que só aprendeu a fazer o homem palito da infância e que o apresenta às pessoas arrematando com a pergunta: “Não é lindo?”

Para os que me indagam de como saber se este é ou não o seu talento, eu digo que o único jeito é percorrer o caminho, fazer um curso, exercitar leituras e depois usar um pouco de bom senso e honestidade consigo mesmo! Aconselho a qualquer um desconfiar dos cursos de formação de tarólogos, ainda mais os rapidinhos.

7º) O método mais eficiente

Com certeza esse mito sempre será criado, tempo após tempo… É muito difícil de derrubar uma coisa dessas! Sempre haverá um autor de mais relevância que criará uma tendência, e sempre haverá seguidores para essa tendência, que divulgarão que os que não a seguem não conhecem a verdade, ou estão equivocados, ou ainda que não são tão bons assim… O único jeito é ficar sempre atento a um fato bem simples: qualquer autor, por mais aclamado que seja, só é capaz de viver a sua própria experiência e tirar o máximo dela, e nisso ele será igual a qualquer um nós! Por mais adeptos que suas ideias alcancem não significa que sejam a melhor visão e muito menos a única a ser seguida. Afinal os que não conseguem se enquadrar nessa “verdade” devem fazer o quê? Desistir do tarot? Nenhum tarot é o definitivo, nenhum método de leitura ou maneira de dispor as cartas é o mais correto ou eficiente. Há inúmeros tarots, métodos e sistemas de leituras, experimente todos até descobrir o seu.

Não se esqueça de que a maravilha do tarot é não ter um dono, fundador, ou inventor reconhecido. Muito menos uma autoridade inatacável quanto a sua aplicação oracular. E essa liberdade permite com que cada um o utilize como quer, diferentemente de outros, e todos usando o mesmo instrumento! Ninguém está livre de ser questionado ou contestado não importa o tamanho da bibliografia a que ela (ou ela) tenha se dedicado a dissecar, nem quantos museus tenha visitado. Somos todos pessoas compartilhando nossas visões interiores e transmitindo esse conhecimento cuja origem, apenas em parte, é humana e racional.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Anjos & Demônios no Tarot - A Hierarquia Angélica no Simbolismo do Tarot

O "paradis perdus 9",
de Gustave Doré.
Sempre me intrigou as imagens angélicas no simbolismo do tarot. Sabemos sobre os anjos que são eles os mensageiros de Deus (angelus, do latim mensageiro). No tarot os anjos simbolizam a ascensão para um novo estágio de consciência. Eles aparecem nas cartas de A Temperança, e de O Julgamento e também na figura do anjo decaído, Lúcifer. As asas são tradicionalmente o símbolo da liberdade e da elevação. Na iconoclastia cristã os anjos têm asas que os transportam do mundo espiritual e divino para o mundo terreno dos homens, o que por outro lado pode ser considerado como a possibilidade da união do sagrado com o profano dentro da psique. Ou da besta instintiva com a consciência espiritual intrínseca na natureza humana. 
Os três anjos mais conhecidos nas três maiores religiões do mundo (cristianismo, islamismo e judaísmo) são Miguel, cujo nome quer dizer aquele que é como Deus, ou como a pergunta, quem é como Deus? Gabriel, homem forte de Deus, ou apenas homem de Deus e Rafael (Raphael), a cura de Deus, ou curado por Deus.




Os Arcanjos Rafael, Gabriel e Miguel.
À esq. “Rafael” de Bartolome Roman. Ao centro Gabriel em “Anunciação”, de Paolo de Matteis. À dir. “Miguel” de Guido Reni.
Rafael

Tudo começa com o arcano XIII A Morte (as figuras angélicas só aparecem depois deste arcano), e o interessante é que o próprio arcanjo Gabriel também era conhecido como o anjo da morte! Esse arcano representa um grande ponto de mutação, onde uma profunda transformação ocorreu e uma nova visão da vida nasce, como numa separação, a perda de um emprego ou a cura de uma doença muito grave onde a própria existência do indivíduo foi ameaçada! E não faltam exemplos de pessoas que diante do imponderável mudaram hábitos e direcionamentos de vida. Essa nova percepção da vida está representada no arcano de A Temperança como uma cura física ou interna que muda o aspecto interior e exterior, ou a realidade de uma situação. Esta ampliação da visão interior é representada no tarot de Marselha como a flor de cinco pétalas que desabrocha no ponto entre as sobrancelhas da figura angélica (o sexto chakra, ou terceira visão). Os místicos verão nisso uma inspiração divina, os racionalistas apoiados na psicologia talvez vejam uma ampliação da consciência provocada pura e simplesmente pela pressão extrema. Eu particularmente acho que as duas são a mesma coisa vista por ângulos diferentes, moldadas ao gosto da abertura interior de quem as lê.
Tobias e o Arcanjo Rafael.
O décimo quarto arcano do tarot me parece mais do que conectado com a figura do arcanjo Rafael, pois a cura proposta por ele não é apenas física, mas também interna e espiritual. Daí esse arcano ser sempre associado a tratamentos de saúde, quer sejam eles alternativos ou convencionais. As ânforas laçando água uma sobre a outra são a expressão de uma mistura ou composto que pretende chegar a uma síntese curativa. O número deste arcano é 14 cuja soma 1+4 = 5, o número da quintessência mística, o elemento que sintetiza a alma humana. Esse número também corresponde ao arcano de O Hierofante que simboliza, entre outras coisas, os médicos, curadores e terapeutas de todo tipo. Na bíblia Rafael aparece no Antigo Testamento, no Livro de Tobias ele ordena que Tobias domine um peixe que tentou devorá-lo para retirar-lhe o fel, com o qual o próprio Rafael cura a cegueira do pai de Tobias.
A transição, da Morte para A Temperança,
as rupturas dramáticas ampliando a percepção da vida.

O tempero proposto pelo título desta carta tem muito menos a ver com as qualidades de parcimônia e prudência pretendida pela doutrina católica e mais com a ativação da personalidade com um novo sentido interior de existência ou com elementos que lhe faltam. Assim uma personalidade suave e muito frágil fica mais efetiva se lhe forem acrescidas as qualidades do foco e do rigor. Aleister Crowley e Frieda Harris representaram isso muito bem no arcano Arte (nome que deram ao arcano de A Temperança) onde uma cabeça é composta por duas faces inteiras unidas! Nesse caso a união das partes ficou maior que o todo. Por esse princípio uma personalidade quando ativada, ou temperada, com um novo significado, propósito ou qualidades que estruturem melhor sua expressão, se torna maior do que a sua antiga forma. A cura apresentada pelo arcanjo Rafael é uma consciência nova, mais ampla e cheia de novas perspectivas! O que coaduna muito bem com a ideia de tempo e demora que também acompanha o simbolismo deste arcano, afinal tudo que acabamos de falar faz parte de um longo processo, tanto interno quanto externo, que poderá ser precedido de algum tipo de sofrimento, como os citados no início deste artigo.

O Diabo

Ou Lúcifer, também aparece no tarot. Depois de o arcano de A Temperança, surge o arcano XV de O Diabo que na sequência representa o perigo de a nova ampliação da consciência esbarrar em conceitos puramente materiais. É bem conhecida a comparação que alguns tarólogos tecem entre as cartas de O Hierofante e o Diabo. No tarot de Marselha, ambos fazem gestos iniciáticos! O primeiro parece alertar para o fato de que há muito mais na vida para além do que vemos. O outro tenta nos convencer que tudo está no mundo visível e que para fora dos cinco sentidos nada mais há a ser percebido! Podemos dizer com isso que vivemos numa era onde o Diabo assumiu o controle! Mesmo pessoas que se dizem muito religiosas, como nos cultos pentecostais, enumeram sempre aquisições materiais como resultado de sua fé. “Com Jesus minha vida financeira se encaminhou” ou “Fiquei curada! Já tinha até perdido as esperanças!” ou ainda “Depois que entrei para a igreja arranjei um emprego e larguei o vício!” e assim por diante!... Quase nunca dizem uma palavra sobre o que apreenderam da vida para além do seu significado físico. Nada houve de realmente místico nessas conquistas. A experiência mística alcança sempre níveis de compreensão transpessoais e por isso mesmo universais. Portanto, que fique claro de que o materialismo não é coisa apenas de ateus, mas também dos que desconhecem o real sentido da espiritualidade. O arcano de O Diabo personifica nossos anseios materiais, paixões físicas, ambições, inveja, ânsia por controle e poder. Tudo o que excita nossa fera interior, cheia de fantasias vergonhosas e segredos sujos que a maioria faz de tudo para manter longe de olhos alheios. A culpa por cultivar essa fera é aliviada quando o olhar se volta para fora e o senso comum mira o diferente taxando-o de “anormal”. O manto da normalidade aplaca a vergonha do demônio pessoal que jaz nas profundezas escuras da consciência.
Lúcifer de Franz von Stuck, 
habitante das trevas.


Na bíblia diz-se que Lúcifer é um anjo caído, que foi expulso dos céus pelo arcanjo guerreiro Miguel e por ele arremessado às profundezas da terra onde passou a viver e a arder em sua própria fúria. Lá Lúcifer, cujo nome quer dizer portador da luz vira Satã, que significa adversário, ou simplesmente o Diabo, que significa caluniador. As profundezas da terra são as profundezas da natureza e do corpo, assim sendo tudo o que se referisse ao mundo natural ou dos instintos transforma-se em demoníaco. Só para esclarecer, a palavra demônio foi mais tarde adicionada aos nomes do Diabo, mas é de origem grega. Deimos era um dos filhos de Ares, o deus da guerra, e a tradução do seu nome é medo. Muito apropriado! Satã ou Lúcifer começa então a ser visto como o grande adversário da humanidade instigando nela todo o calor de seus instintos mais primitivos, um agente eterno do mal que age nas sombras, na escuridão, muito longe de toda a luz da qual ele foi, um dia, o grande portador. O medo da escuridão é um dos medos mais atávicos na humanidade. Uma antiga placa em terracota encontrada na Suméria (4.000 e 3.000 A/C) mostra a figura de Lilitu, o terrível espírito feminino da noite. No Talmud hebreu ela aparece como Lilith, a primeira mulher de Adão, que ao não aceitar o domínio e subjugação ao homem como uma forma de obediência a Deus cai em desgraça, se refugia nas sombras e começa então a parir 100 demônios por dia. Lilith vira, a partir disso, a mãe de todo o mal.
Lilitu, à esquerda, o terrível espírito da noite (placa sumeriana em terracota). O Diabo, à direita, no tarot de Marselha... Mera semelhança...?

Há uma incrível semelhança entre a milenar figura na placa de terracota e o arcano de O Diabo, como ele aprece no tarot de Marselha. Assim, nos primórdios das religiões monoteístas e organizadas, o mal passa a ser associado à natureza, aos instintos, sobretudo os sexuais, as mulheres e ao feminino como um todo! Mulheres são vistas com desconfiança, e os tipos afeminados de homens passam a ser tidos como uma ameaça ao mundo masculino. Vê-se nisso as raízes do machismo e da homofobia na mesma origem.

Miguel e Gabriel

Miguel e Gabriel se revezam na regência de um dos últimos arcanos do tarot O Julgamento, o vigésimo dos arcanos maiores. Afinal quem é o anjo que aparece tocando as trombetas sobre as catacumbas abertas anunciando a chegada de um novo tempo? Miguel é tanto o guerreiro que baniu o mal do reino dos céus, como o grande julgador das almas, que segundo as escrituras bíblicas, virá no dia do juízo final convocando as almas de todos os que já viveram sobre a terra para o grande julgamento presidido por Jesus Cristo renascido. Nesse dia, segundo essas mesmas escrituras, todos os mortos voltarão à vida. 
Se entendermos o juízo final metaforicamente, ele é uma conscientização profunda e transformadora, que pode se dar tanto a nível global quando individual. Olhando por esse prisma parece mesmo que Miguel se enquadra bem no simbolismo de O Julgamento. Esse arcano simboliza a reavaliação da vida diante de um chamado interno, algo como uma convocação íntima que traz questionamentos profundos tipo: “Por que isso sempre acontece comigo?” ou “Como pude viver assim até hoje?”, “Como as coisas chegaram a esse ponto?”. Esse momento crítico pode levar a consciência a uma súbita compreensão das vivências do passado e dos padrões que moldam o que conhecemos como o futuro, dentro do momento presente. Esse evento é análogo ao samadhi dos indianos ou ao satori dos japoneses, que podem ser traduzidos como a iluminação. 
Essa transição reveladora, no entanto, guarda semelhanças com o simbolismo do arcanjo Gabriel. Ele aparece em momentos cruciais das histórias sagradas para mudar o rumo dos acontecimentos, tanto no cristianismo como no islamismo. É Gabriel quem avisa a Maria que ela dará a luz ao messias, e depois é ele quem a avisa do risco de vida que o menino corre diante do assassinato de crianças ordenado por Herodes, rei da Judeia, e ordena que Maria e José fujam. Foi Também o arcanjo Gabriel quem ordenou a Maomé que escrevesse o alcorão, o livro sagrado do islã. 
Arcanjo Miguel, o julgador
das almas.
Muitos de nós, ou todos nós, passamos por grandes questionamentos onde o passado e o presente se confrontam numa ânsia por dar significação a existência. Temos de admitir, porém, que para a maioria das pessoas isso passa, é varrido para debaixo do tapete da rotina de cada um sem com que a consciência ou a direção da vida mudem. Ao contrário do que acontece no arcano XIV A Temperança, onde se obtém um vislumbre do novo caminho a seguir, em O Julgamento fica claro onde está o problema dentro do contexto de uma vida, e ele é tanto reconhecível quanto inegável. Na Temperança há um olhar para diante cheio de perspectivas. No Julgamento há um olhar para trás cheio de intenções de correção e ou compreensão. O que não significa que eles ocorram, pois que geralmente são difíceis de executar, e muito menos que levarão a uma verdadeira iluminação, já que isso é para as poucas almas que amadureceram no processo de suas muitas vidas! Quando ocorrem, tanto a correção quanto a compreensão, então são um atributo do arcanjo Gabriel o grande anunciador, e não do arcanjo Miguel o justiceiro e julgador das almas.

E o Outro Anjo?

Alguns alunos e leitores me cobraram para que eu falasse sobre o outro anjo que aparece no tarot, mais precisamente na carta de O Enamorado, o sexto arcano. O que respondo aos meus inquiridores é de que não se trata de um anjo, mas da figura do deus Greco-romano do amor, Eros. A imagem de Eros sobre casais apaixonados, flechando corações incautos era bem comum na arte popular renascentista. O mais usual era representá-lo como um anjo bebê com asas, pronto a desferir um tiro certeiro no coração de um jovem rapaz... Ah, e quase invariavelmente era um rapaz, pois que os galanteios de amor eram uma premissa masculina. O que podemos dizer mais sobre isso é de que a representação de um infante com asas era uma figura tradicional dos anjos querubins, representados por artistas como Raphael ou Rosso Fiorentino.


Dois querubins lendo, pintura de
Rosso Fiorentino (1494-1540).

Na tradição judaica da Cabala os querubins estavam relacionados com a sephira de Chokmah, a suprema sabedoria. Ora, o que vemos não é justamente um jovem que tem de escolher entre dois caminhos, um justo e outro pecaminoso? Um coerente com seus valores e outro subversivo aos seus modelos internos? E quanta falta faz uma sábia orientação nessas horas, ou mesmo uma “luz” superior que nos oriente! Quantas escolhas que parecem inocentes mostram-se depois desastradas por falta de maturidade ou de ouvir a sabedoria interior? Quantas escolhas aparentemente sem importância no princípio se mostraram um grande erro com o passar do tempo? E não vamos aqui nos deter em avaliar se essa sabedoria vem do nosso inconsciente ou de uma inspiração do Eu Superior, a porção do divino que habita dentro de cada um de nós! A verdade é que a falta de atenção a essa inspiração, ou mesmo a total falta dela, faz toda a diferença entre o sucesso e o fracasso com muito mais frequência do que se possa imaginar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Roda de Tarot (Tarot Circular)

A dançarina cósmica de O Mundo, arcano XXI,
no Motherpeace tarot. 
O Tarot como Uma Dinâmica de Grupo


Os movimentos que criam uma reunião de pessoas com o objetivo de crescimento coletivo tem sua origem nos costumes tribais da ancestralidade humana e surgem como uma resposta ao crescente domínio das máquinas e das relações virtuais. Os contatos on-line estão sendo questionados em detrimento dos contatos reais. Coisa semelhante está ocorrendo na tarologia onde as leituras individuais estão sendo vistas não mais como o único modo de aplicação das cartas! Surgem as leituras coletivas com o intento de compartilhar informações, rever projeções inconscientes que passamos ao mundo e desenvolver a percepção intuitiva, além do sentimento de grupo, e da aceitação de si mesmo e do outro.
Ao contrário de uma leitura individual, onde as informações são dadas de modo específico e muito particular pelo leitor para aquele que se consulta, a leitura coletiva procura trabalhar o modo como interagimos em níveis mais profundos uns com os outros. Autores de tarots como Vicki Noble e James Wanless têm estimulado este tipo de vivência como uma forma de crescimento grupal, troca de experiências, e uma forma lúdica e meditativa, ao mesmo tempo, de crescimento interior. Inspirado por esses autores criei um conjunto de vivências que denominei inicialmente de Tarot Circular, e mais recentemente de Roda de Tarot, que resgata o círculo como um símbolo de interação e livre fluxo de energia entre pessoas. No último dia 19/05/2012 promovi com alguns alunos e clientes mais um desses encontros e foi mais uma vez uma experiência maravilhosa para todos nós! É fabuloso testemunhar o que pessoas com pouco ou nenhum conhecimento das cartas conseguem absorver delas de modo totalmente inconsciente e extrair disso informações não só relevantes para seu próprio crescimento quanto para o crescimento do próximo.
Os encontros da Roda de Tarot costumam ser bem descontraídos, para que o seu aspecto pueril não se perca com a seriedade dos temas levantados, e eu mesmo costumo participar não apenas como um facilitador e intérprete dos símbolos tarológicos, mas também como um ser humano em busca do entendimento de suas máscaras e projeções e do modo como elas afetam a si mesmo, suas oportunidades e relações. Essa posição de igualdade é fundamental para que a abertura dos participantes se dê por completo! Sem temores ou reservas, como devem ser todas as dinâmicas grupais.
O tarot que uso para tais vivências é o Motherpeace (Mãe Paz) de Vicki Noble e Karen Vogel (ver fotos abaixo à esq.). Este baralho teve como inspiração os ritos pagãos das culturas pré-cristãs focados no feminino sagrado e na vida em comunidade como fonte de crescimento e desenvolvimento. Suas cartas são redondas, evocando mais uma vez o círculo como um símbolo de inclusão e acolhimento, uma forma que, segundo as autoras, é a marca da grande deusa-mãe do passado! Suas imagens não possuem um grande acabamento artístico e por isso mesmo lembram ora desenhos infantis, ora pinturas rupestres. São espontâneas e despretensiosas.
Vicki Noble
Karen Vogel
Uma vivência simples que se pode realizar com um grupo consiste em fazer inicialmente uma forma de meditação conjunta para criar uma sintonia psíquica com o grupo. Feito isso se sentam todos em circulo e mentalizam conjuntamente para tirar, cada um, uma carta que represente a essência de suas vidas naquele momento. Logo em seguida puxam, cada um ao seu tempo, uma carta e a observam por alguns instantes, em seguida aquele que estiver coordenando vivência pede para que alguém inicie mostrando a sua carta para o grupo, caso haja necessidade ele pode até permitir que os outros participantes a peguem na mão. Passado esse momento as pessoas devem ser estimuladas a dizer o que sentiram das imagens que viram na carta do companheiro. Nesse momento muitas percepções intuitivas afloram em pessoas com pouco ou nenhum conhecimento das cartas, e isso auxilia a que cada um reflita sobre as imagens que projeta para o mundo de modo inconsciente. É importante salientar que o baralho usado tem de ter imagens claras e inspiradoras, e que não possua palavras chave ao pé das cartas como “Amor” (2 de copas), ou “Ruína” (10 de espadas) como ocorre no Thoth tarot de Aleister Crowley. Ou ainda “Celebração” (3 de copas) e “Sofrimento” (9 de espadas) como aparecem no Osho Zen tarot. Essas palavras acabam por influenciar a livre interpretação das pessoas leigas. Quanto mais livre de influências, melhor

segunda-feira, 16 de abril de 2012

As Possibilidades do Reiki

Muitas pessoas estão iniciadas em reiki hoje em dia, mas muito poucas são reikanas de fato. A prática do reiki é que constitui um reikiano, o que vai muito além de suas aplicações terapêuticas, não que isso seja pouca coisa, mas a transmissão da energia ki pode se tornar uma disciplina espiritual, embora dissociada de qualquer religião.
Quando eu ouvi falar em reiki pela primeira vez muitas pessoas diziam aquela frase que para mim se tornou um slogan, por assim dizer, da energia reiki: “O reiki mudou minha vida!”. Infelizmente também houve aqueles que começaram a achar que para mudar suas vidas era preciso apenas receber uma iniciação! Ora, essa não é justamente a velha busca humana por milagres, sem com que seja preciso nenhum esforço por parte daquele que necessita do milagre? As próprias escrituras bíblicas nos recomendam fazer nossa parte, mas não adianta! Para a maioria da humanidade evoluir ou crescer em qualquer âmbito sem nenhum esforço é muito sedutor, e não importa o quanto o tempo e a história comprovem que isto não existe.
O melhor do reiki é a sua prática, somente assim, aplicando-o em si mesmo e nos outros (independente de ser profissionalmente ou não), é que podemos descobrir suas muitas aplicações e possibilidades que passam a ter a credibilidade que só a experiência pode dar.



O reiki mudou a minha vida por vários motivos e benefícios que a disciplina da prática diária me revelou, e quero citar aqui três deles que modificaram sensivelmente minhas relações pessoais e profissionais: 1º) A paciência, eu aprendi a relaxar e observar mais, o que me fez ser mais tolerante com o ritmo dos outros e a respeitar o meu próprio ritmo interno. 2º) O relaxamento da mente, sempre fui muito guiado pelo meu raciocínio, mas a rotina silenciosa da aplicação reiki foi aliviando lentamente a turba dos pensamentos. Tanto que o dia em que me dei por conta de que ela não me assolava mais foi como um susto, só que muito bem vindo! 3º) Minha intuição e psiquismo aumentaram sensivelmente a ponto de hoje eu ser capaz de perceber a intensidade e a qualidade da energia emocional do cliente no momento da consulta, e tudo de modo muito fluído e natural.
Essas entre tantas outras aplicações do reiki tem me tornado um praticante devotado e confiante nas suas possibilidades de cura em muitos níveis. Quero deixar bem claro que isso tudo aconteceu de modo mágico sim, mas não repentino, nem tão pouco sem esforço ou comprometimento da minha parte.
Assinalo aqui outras possibilidades da energia ki que o tempo tem me revelado e espero que inspire aos novos reikianos, ou aqueles que um dia se interessaram em aprender e que por um motivo ou outro acharam que seria pouco estimulante...
Relaxamento – A introspecção silenciosa do reiki permite um profundo relaxamento, o que faz com que o corpo libere tensões musculares e psicológicas, tornando a consciência mais receptiva às informações do ambiente e do próprio inconsciente.
Redescoberta do Toque – O suave contato da transmissão reiki nos auxilia a redescobrir o toque humano como uma fonte de união, aconchego, carinho, e proteção tanto do outro quanto de nós mesmos!

Meditação – A meditação é a experiência de abandonar-se no silêncio, que em última instância é um contato com o ser essencial, a parte mais profunda e verdadeira da natureza humana, livre das programações culturais. A postura silenciosa e introspectiva que assumimos durante as sessões de reiki nos possibilita uma profunda experiência meditativa!
Autoconhecimento – A postura mais receptiva e introspectiva que assumimos durante o processo de conexão reiki permite que sentimentos profundos venham à tona, possibilitando seu reconhecimento e tratamento.
Autocura – A autoaplicação de reiki é um maravilhoso instrumento para a cura das próprias limitações, tanto físicas, quanto emocionais, psicológicas e espirituais, além de permitir que talentos latentes aflorem e que os talentos já reconhecidos sejam intensificados.

Cura – A cura é o resultado da integração plena dos quatro níveis da vida (corpo, mente, sentimentos e espírito) numa síntese harmônica, consciente e estável.
Comunhão Espiritual – Quando relaxamos dentro do suave e amoroso toque reiki, fazemos disso uma meditação, que proporciona mais conhecimento sobre nós mesmos e a própria humanidade. Nos autocuramos, curamos a outros e desfrutamos da experiência de totalidade com todas as coisas, o que os místicos e xamãs do mundo todo chamaram de “comunhão com o Grande Mistério”.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Arcanos Menores - Os Mensageiros da Alma

Os arcanos menores são o conjunto de 56 cartas, divididos em quatro grupos que podem corresponder ao simbolismo dos quatro elementos e que também se aplicam à natureza da psique humana. Como alguns pesquisadores propõe, os quatro naipes podem representar ainda as quatro estações do ano, e as classes sociais da Idade Média, entre outras analogias.
O naipe de paus representa a primavera e o desabrochar da vida. O naipe de copas o verão e a florada das emoções humanas. O naipe de espadas o outono com sua força de “fazer aparecer a verdade” e mostrar as coisas por dentro ou como são na realidade. E, por fim, o naipe de ouros o inverno, a estação onde se colhe e experimenta os frutos semeados ao longo do ano. É o naipe da riqueza ou do infortúnio dependendo do trajeto feito pela consciência! Seja como for esse naipe sempre sugere crescimento, amadurecimento e aprendizado de algum modo. Curiosamente um ano de 365 dias é dividido em 52 semanas que se subdividem pelas quatro estações. Logo, 52+4=56... Coincidência? As coincidências podem não significar nada para a mente lógica, mas dizem muito a mente imaginativa e intuitiva, e exercícios como este podem ajudar bastante a ampliar o escopo de relações entre o tarot e os ciclos da natureza. O que serve muito bem para definir períodos de tempo numa sondagem sobre um evento futuro, por exemplo. 
Paus é o símbolo dos camponeses que empregavam grande força e energia física em suas atividades e celebravam as estações com ritos agrícolas. Copas representava o clero que consagrava as uniões matrimoniais (era costume os casamentos serem feitos no verão) ao amor de Deus. O exército e a realeza eram simbolizados no naipe de espadas. No outono, a estação do naipe de espadas, as colheitas eram realizadas e a divisão entre o que era do agricultor e o que era do reino era feita com base em leis bem estruturadas, e severas, que eram outorgadas pelo rei e executadas pelos militares! Por fim o naipe de ouros era a poderosa classe dos comerciantes burgueses que ascendiam ao poder com grande capacidade de influenciar as leis e decisões reais. 

As quatro estações como estágios da evolução humana 
e seus diferentes níveis de personalidade.

Equivocadamente alguns tarólogos subjugam os arcanos menores a um papel secundário nas leituras. Chegam a afirmar categoricamente que o arcano maior define o sentido da leitura (quando as cartas são jogadas em pares, onde um arcano maior é seguido por arcano menor). O que quer dizer que se um arcano maior muito positivo como O Sol sair com um arcano menor muito negativo ou desafiador, como o 5 de ouros, o resultado não será tão ruim porque o simbolismo do arcano maior predomina... Baseado em que se convencionou isso? No Brasil se popularizou um sistema de leitura que combina sempre um arcano maior a um menor numa jogada. Eu já joguei assim e confesso aqui que o fazia por não ter muita segurança sobre o significado das cartas dos arcanos menores. É como andar numa bicicleta amparada por rodinhas, um ótimo recurso para crianças, mas algo bem idiota para um adulto! Menor não quer dizer menos importante. Significa apenas que o simbolismo dessas cartas é mais específico dentro dos elementos que elas representam no baralho. Enquanto os maiores permitem mais desdobramentos nos seus significados. A utilização do baralho completo com os arcanos dos dois conjuntos misturados, e usados assim durante toda uma sessão de análise dos símbolos, me parece mais justa e igualitária, além de fornecer uma leitura mais limpa, direta, objetiva e infinitamente mais precisa, sem tantas cartas na mesa! 
Os elementos relacionados aos naipes evocam suas características psicológicas dentro da personalidade humana e nas características de suas atividades:

Paus – O fogo é a ação, o empreendimento. O fogo das batalhas para a conquista de algo quer seja um objetivo material, um relacionamento, ou uma disputa esportiva. Confere força, disposição, agilidade e dinamismo. Como as labaredas estão sempre em movimento, esse vem a ser o naipe das viagens, da mudança e da evolução em todos os sentidos. Devemos lembrar que a descoberta do fogo pelo homem primitivo foi o passo que o e elevou acima de todos os outros animais da natureza! A energia física em sua expressão máxima também está sob sua influência. O fogo transforma a natureza das coisas e forja instrumentos através dessa transformação, por isso paus é o naipe da criatividade e do novo e da impaciência para a execução do que se apresenta. Os atributos da claridade o seguem, sendo por isso o naipe dos líderes e dos iniciadores.

Copas – A água, aquela que vai da superfície às profundezas. A dimensão do sonho, do oculto e do mistério da vida. Tudo o que é sagrado, místico, mediúnico (no sentido de mediar uma interação entre dois mundos), pertence ao naipe de copas. Por essa mesma relação rege também os sentimentos e os ideais humanos mais “profundos”. O amor e o sexo, onde literalmente “um penetra no outro” profundamente, são atributos deste naipe. O aspecto subjetivo da vida também é regido por ele. Todos queremos amar, por exemplo, mas todos amamos de modo diferente uns dos outros. Todos queremos ser felizes, mas o que nos faz felizes varia imensamente de pessoa para pessoa. Essa é a dimensão da água, onde a posição do observador permite ver reflexos diferentes que se espelham em sua superfície.

Espadas – O ar que seca a umidade, varrendo para longe a subjetividade. A busca pela verdade e pelo que é correto para todos. Enquanto a água une o todo pelo sentimento o ar une pela “aspiração” da verdade e da justiça para uma vida comunitária ordenada. Os primeiros conhecimentos foram passados oralmente, ou seja, a fala, as trovas, canções e mitos são atributos do ar em movimento em nossas gargantas que preservaram muitas culturas. Tudo o que nos é passado pelos pais, escola, amigos e sociedade em geral é um atributo do naipe de espadas. Tudo o que é conceitualizado e padronizado intelectualmente pertence a ele e poderá ser preservado de modo dogmático, ou reinventado de modo vanguardista conforme a necessidade ou maturidade de cada consciência.

Ouros – A terra, o corpo do planeta em que habitamos. Sua maior característica é a junção dos outros três elementos para compor a existência. A energia física e a disposição para vida do naipe de paus deve se unir a capacidade de sentir e sonhar o que vem a ser a própria felicidade, como o faz o naipe de copas, para depois acrescentar os aspectos críticos da mente de espadas. Assim os excessos são retirados e refletidos mais objetivamente para que então se alcance a realidade, o terreno onde tudo acontece! A realidade é um atributo do naipe de ouros. Também o é a solidez do corpo e suas necessidades, a densidade da vida material em seus aspectos de aquisição, posse e lucro. O comércio, as negociações (tanto materiais quanto afetivas), a manifestação, a construção e o desfrute da existência em sua totalidade! 

A interação entre todos esses naipes nos fornece a maravilha que só o tarot proporciona: a capacidade de revelar o universo interior de cada um de modo muito preciso. Com isso somos capazes de visualizar através dos símbolos o que sentimos de algum modo diariamente, de que todos vivemos a mesma realidade, mas a pensamos, sentimos, agimos e reagimos de modos diferentes uns dos outros, porque cada um de nós tem seus próprios papéis a cumprir na vida, e o tarot nos possibilita reconhecer esses papéis.

Cartas da Corte

Os arcanos menores dividem-se em dois grupos: o das cartas da corte e o das cartas numeradas. As primeiras atuam mais no nível psicológico da personalidade e as seguintes no nível prático dos acontecimentos e do que eles despertam em nós.

Aleister Crowley


Na antiga Ordem da Aurora Dourada, Golden Dawn, as cartas da corte foram associadas a elementos conforme a distribuição das quatro primeiras letras do nome de Deus, o Tetragrammaton. Os reis foram atribuídos ao ar por sua lógica estratégica. As rainhas ao elemento água por sua sensibilidade imaginativa. Os cavaleiros ao fogo, por sua impetuosidade e espírito aguerrido, e os valetes à terra, por representarem o chão onde as novas sementes (ideias, planos, etc) frutificarão. Nesse tempo da história do tarot muitos autores distorceram o seu simbolismo para que ele coubesse em sistemas mais antigos como a cabala. E nesse caso isso aconteceu de novo! No Tetragrammaton a primeira letra do nome de Deus yod corresponde ao fogo, a segunda letra he corresponde à água, vau ao ar e o último he ao elemento terra. Como vimos o fogo corresponde aos cavaleiros. Por isso em seu baralho, o Thoth tarot, Aleister Crowley colocou os cavaleiros na posição dos reis, antes das rainhas e iniciando a série de cartas da corte, enquanto os próprios reis foram rebaixados a príncipes. Essa arbitrariedade não influencia o significado das cartas. Caso você se utilize do baralho Thoth use as cartas como qualquer outro baralho, ignore essa excentricidade!

O Tetragrammaton, as quatro letras do nome sagrado e indizível de Deus. Lidas da direita para a esquerda (do modo hebraico e oriental como um todo): yod (fogo), he (água), vau (ar) e o último he (terra).


A partir deste método proposto pelos magos da Golden a relação entre os elementos ficou muito interessante, fornecendo uma rica combinação entre si.  Os reis sempre preservarão o elemento ar (seu regente), mas o combinarão com o elemento do naipe a que pertencem. Possibilitando a formação de uma ideia bem clara sobre a personalidade proposta no arcano. Fica assim:


O Thoth Tarot de Aleister Crowley, a sequência das cartas da corte alterada em função das letras hebraicas: Cavaleiro, rainha, príncipe (rei) e princesa (valete).

- Rei de paus = Ar do fogo. Rei de copas = Ar da água. Rei de espadas = ar do ar. Rei de ouros = Ar da terra. 

- Rainha de paus = Água do fogo. Rainha de copas = Água da água. Rainha de espadas = Água do ar. Rainha de ouros = Água da terra. 

- Cavaleiro de paus = Fogo do fogo. Cavaleiro de copas = Fogo da água. Cavaleiro de espadas = Fogo do ar. Cavaleiro de ouros = Fogo da terra. 

- Valete de paus = Terra do fogo. Valete de copas = Terra da água. Valete de espadas = Terra do ar. Valete de ouros = Terra da terra. 

Observe que sempre um arcano terá seu elemento dobrado, são eles: Rei de espadas, Rainha de copas, Cavaleiro de paus e Valete de ouros. O que indica uma clara acentuação de determinadas características e a debilidade de outras. O Rei de espadas (Ar do ar), por exemplo, não possui os elementos fogo, água e terra. O que denota uma personalidade dominante, firme, inteligente e organizada, com claras tendências para liderança, mas com pouca sensibilidade empática (água), baixo senso de limites (terra), e um tanto fria e sem espontaneidade (fogo). Tudo isso é bom para algumas coisas e muito ruim para outras!  E assim o é para com todos os arcanos da corte! 
Agora vamos vê-los em suas expressões de modo mais abrangente, definindo o que eles trazem para dentro das famílias de cada naipe a que integram:

Reis (Ar) – São os racionais. Costumam representar os líderes e administradores de cada elemento. São, de certa forma, controlados e controladores. Possuem a missão de reunir e organizar o que estava disperso de algum modo. Criam os planos e medem as consequências de tudo, criando as bases para que outros possam seguir por um novo caminho ou se beneficiar de sua criação. São os pesquisadores que conhecem a fundo alguma coisa segundo a regência de seus naipes. Representam os pais.

Rainhas (Água) – São as emotivas e sensitivas de cada naipe. Elas avaliam sempre o elemento humano, segundo as características de cada naipe a que elas se relacionam. Sua função é conservar o que foi criado ou o que existe há muito (a tradição). São acolhedoras, ouvintes, profundas e um tanto alienadas de si mesmas. Vivem a realidade sempre de uma perspectiva mais interior e ligada aos seus valores. São as artistas influenciadas por seus respectivos naipes. Representam as mães.



Cavaleiros (Fogo) – Os guerreiros de cada elemento. Trabalham melhor com metas pré-estabelecidas e bem definidas. Gostam de se empenhar ao máximo ao realizar qualquer coisa. Como são os representantes do temperamento juvenil, eles são apressados e idealistas, não medem consequências dos seus atos a longo prazo. Cada cavaleiro traz força para a leitura e para as demais cartas ao redor. São os portadores da energia para mudar uma realidade.



*Valetes (Terra) – As crianças ou aprendizes. Esses estão sempre abertos a conhecer pessoas, situações e coisas estranhas ou simplesmente diferentes! São os seguidores do novo, o seu problema é não ter consistência o suficiente para levar adiante o que se apresenta. Assim como as crianças, que devem ser bem cuidadas para que se criem, os valetes trazem novidades e perspectivas que devem ser desenvolvidas cuidadosamente para que não se percam!

Observe que há uma circularidade no simbolismo das cartas da corte! Depois da energia incipiente e inorganizada do valete fecha-se o círculo que volta para o rei que ordenará tudo a fim de ser usufruído por todos

Cartas Numeradas

As cartas numeradas são os estágios de desenvolvimento da energia de cada naipe, expressões arquetípicas que se evidenciam no cotidiano de modo muito significativo e reconhecível para aquele que se consulta. Essa relação entre imagens e números é que torna todo o arcabouço simbólico do tarot muito inteligente e coerente! As imagens e cores relacionam-se com o inconsciente, enquanto os números e as palavras atuam de modo mais efetivo no consciente. O tarot permite então uma abrangência de visão e conscientização muito grande ao ser disposto numa leitura, tornado-se o mediador entre o mundo consciente e inconsciente de modo lúdico e profundo ao mesmo tempo!

O Um – (Ases). A grande força motriz que expressa todo o poder e natureza do elemento enfatizado pelo naipe. Traz grande influxo interno e externo para que algo aconteça ou se manifeste. São os começos impactantes que sinalizam mudanças ou inícios grandiosos.

O Dois – A percepção do outro e a atração natural exercida entre duas forças compatíveis ou até mesmo antagônicas. A assimilação ou adaptação ao outro ou ao que está fora de “eu”. Adaptação, entretanto, não significa corrupção interior, mas justamente o contrário! É a arte da permanência interior mediante a influência alheia.

O Três – A expressão concreta da energia de cada naipe no mundo físico. Explicando de outro modo seria a expansão súbita de uma energia como uma explosão, ou uma ação do tipo “Algo tinha de ser feito!” e que prospera a partir disso.



O Quatro – Os estabilizadores. Servem para concentrar a energia de cada naipe com o objetivo de realizar ou preservar algo. Sua influência atua no sentido de trazer calma, centramento e fluidez, mas podem paradoxalmente levar à estagnação! 

O Cinco – A crise. As forças estáveis do quatro são dissolvidas ou rompidas de modo brutal no cinco. Este forte abalo pode levar a consciência à reflexão, ou a olhar para o mundo ao seu redor estabelecendo uma ponte para entender os sinais que ligam o indivíduo ao todo.

O Seis – A reintegração. Enquanto o dois fala de uma conexão mais próxima e particular o seis propõe uma interação mais coletiva ou social mesmo! O indivíduo se pretende inserido num contexto social ou familiar para restabelecer seu equilíbrio perdido.

O Sete – O número da profundidade também sugere um excesso. É o ir além do que foi visto ou conquistado, testar os próprios limites, ou perdê-los de vez! Propõe desafio, superação e refinamento da percepção interior.


Tarot, cabala e números, numa interação muito ilustrativa 
e enriquecedora em termos simbólicos.

O Oito – O reajustamento. Depois do excesso do sete o oito traz um movimento radical para colocar as coisas no seu devido lugar. Sendo este também o número de A Justiça, seria o "equilibrar os pratos da balança" de modo assertivo e contundente.

O **Nove – A expressão de uma energia atinge o seu ápice, o que pode trazer grandes gratificações e ou grandes sofrimentos. O nove é o número máximo entre os dígitos, simbolizando maturidade ou decadência conforme cada naipe.

O Dez – Os dez reúne a perfeição do divino (0) com a inteireza do mundo físico (1), o que pode trazer realizações ainda maiores que os nove, e até mesmo a transcendência do nível humano e individual, ou a derrocada como uma forma de induzir a uma reciclagem do que não foi bem aproveitado internamente. 
Uma tradução possível para a palavra naipe vem do árabe naib, que significa mensageiro. Uma linda palavra que a meu ver faz um sentido absoluto com a função dos arcanos menores numa leitura. Eles trazem mensagens sobre a vida prática de quem se consulta de forma muito detalhada e específica, permitindo uma pronta identificação consciente do que está sendo revelado na leitura. São os mensageiros da alma humana, traduzindo o modo como está sendo vivido cada aspecto mais palpável da vida e o modo como isso está influenciando a evolução pessoal.

*Os valetes também são chamados de pajens ou princesas (o elemento terra também é feminino), outra inovação do Thoth tarot de Aleister Crowley, e esta sim foi muito bem vinda! Enquanto os reis são o aspecto maduro do masculino, os cavaleiros são o aspecto juvenil. As rainhas ficaram sem seu correspondente jovem, o que foi corrigido com essa modificação.

**Qualquer número somado ao nove volta a ele mesmo 9+5=14 1+4=5. E qualquer número multiplicado por ele não o ultrapassa 6x9=54 5+4=9. Assim o nove vem a ser o número do pico mais elevado da maturidade e realização humana.