quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Arcanos Maiores - O Mapa da Vida


Percorrer o simbolismo dos 22 arcanos maiores é percorrer os principais eventos que marcam a vida humana em todas as suas manifestações, sejam elas psicológicas, culturais, de credo ou legitimamente espirituais. Podemos definir os arcanos maiores como os principais acontecimentos que levam ao processo de iluminação da consciência, ou individuação, como diria C. G. Jung. As suas vivências movimentam-se em diferentes intensidades ao longo de toda a vida, ou em apenas um dia. Assim, podemos viver todos os 22 arcanos maiores durante um período de 24 horas, ao mesmo tempo em que passaremos a vida desenvolvendo apenas um ou dois desses arcanos em profundidade! Incrível, não?
Como os exemplos dramáticos ilustram melhor que os felizes, vejamos o arcano XIII, A Morte. A morte é fato inevitável, mas que não ocorre repentinamente. Enquanto eu escrevo e você lê isso, estamos ambos morrendo um pouco mais, e mais mortos hoje do que ontem, embora nós dois não saibamos quando isso vai ocorrer de fato! Morremos um pouco quando terminamos um relacionamento em que apostávamos muito, ou quando saímos de um trabalho que vínhamos fazendo com dedicação. A morte, como podemos ver, nos acompanha um pouco a cada dia até que se precipite de modo derradeiro e definitivo sobre nós! O grande arquétipo da morte se dilui em pequenas mortes ao longo de toda uma vida. O mesmo se dá com os outros 21 arcanos numerados da série conhecida como arcanos maiores do tarot. Noutro exemplo, o arcano de Os Amantes (ou O Enamorado em português), o tema das decisões tomadas de acordo com a “voz do coração” pode variar de um entre dois amores, ou entre duas carreiras, dois empregos, duas camisas no armário antes de se sair para trabalhar de manhã! Os arcanos maiores assim se chamam justamente porque sua abrangência simbólica envolve os quatro níveis de consciência, física, mental, sentimental e espiritual. Enquanto os arcanos menores têm seus significados mais restritos a cada um desses níveis representados por seus naipes. Ouros, o mundo físico, Espadas, o mundo mental, Copas os sentimentos e Paus o plano criativo-energético! Por esse motivo arcano maior e arcano menor não significa mais ou menos importante! Significa, isto sim, maior e menor abrangência simbólica.


Visconti-Sforza (1450), o tarot mais antigo a 
ter o baralho completo com 78 arcanos.

Já citei aqui que os arcanos maiores representam numa leitura o que está acontecendo, os arcanos menores a consequência desses acontecimentos em nossa vida imediata e as cartas da corte, que pertencem ao conjunto dos arcanos menores, mostram como nos posicionamos e atuamos diante desses acontecimentos no nível da personalidade. Combinados assim os arcanos maiores e menores são uma perfeita *“máquina de imaginar” como bem o descreveu o tarólogo e escritor espanhol Alberto Cousté! Isso, no entanto, não define o modo como esses dois conjuntos do mesmo baralho devam ser jogados. Há aqueles que como eu gostam de lançá-los misturados numa leitura, outros preferem jogar em separado, combinando arcanos maiores e menores a cada lançamento. Há ainda os que preferem ler apenas os arcanos maiores em todas as sequências de leitura sem nunca acrescentar os menores! Isso depende muito de como funciona o processo psíquico-intuitivo de cada leitor. Não há certo ou errado! Descubra o seu modo! Só não vale sair por aí ensinando só arcanos maiores e dizendo que está “formando tarólogos”, pois seria um engodo! Sem falar que curso nenhum forma um tarólogo, apenas o inicia na linguagem simbólica dos arcanos. A formação só se completa com o tempo, a prática e a dedicação não só em executar leituras, e em estudar o simbolismo das cartas, mas também em tirar o máximo delas para o próprio crescimento. Que se dá através dos ensinamentos de vida que as lâminas do tarot, em toda sua profundidade arquetípica, proporcionam a quem sabe ver seu significado intrínseco!


O clássico tarot de Mareselha (1750), uma 
reprodução de baralhos mais antigos.

Existem uma miríade de versões de baralhos de tarot, muitas delas absolutamente lindas, outras nem tanto! Há ainda aquelas que são uma cópia descarada de baralhos mais conhecidos como o Rider-Waite e o Thoth-Crowley. O problema que há em se estudar baralhos de autores é que cada um deles enfatiza os significados que lhe são mais significativos em sua interpretação deste ou daquele arcano! Basta ver as alterações arbitrárias e sem maiores justificativas feitas por Waite ao trocar as posições dos arcanos maiores VIII A Justiça e XI A Força, ou a alteração que Crowley fez nos arcanos menores transformando os Cavaleiros em Reis e rebaixando os Reis a Príncipes! Outro exemplo que costumo citar, como uma prova clara da interferência dos autores no simbolismo do tarot nas versões do baralho criadas por eles é o do arcano XV, O Diabo, que para Aleister Crowley é uma figura que representa o poder e a paixão plenamente vividos. Enquanto que para Vicki Noble, autora do Motherpeace tarot, é um símbolo do capitalismo e do patriarcado dominante, onde o macho entronado numa pirâmide social instiga a luta entre classes. Crowley era um pagão sexualmente ambíguo e nada contido em seus impulsos. Noble é uma feminista, e ambientalista pagã! Percebem o motivo dos enfoques dados aos seus “Diabos” nos baralhos que compuseram? Ambos captaram bem o significado do arcano que engloba as duas interpretações, mas ao desenharem seus baralhos enalteceram os significados que mais lhe diziam respeito sem dar muito espaço para os outros... Como ver a paixão sexual no Diabo de Noble? Como ver o poder opressor no Diabo de Crowley?










O tarot Motherpeace (à esq.) e o tarot Thoth (à dir.), enfocando e enaltecendo 
certos significados pertinentes ao arcano XV O Diabo.

Isso não significa que devamos evitar os baralhos modernos de autor, mas sim que devemos encará-los com cautela. Os baralhos modernos podem trazer perspectivas interessantes sobre os arcanos ao colocá-los sob a ótica de uma determinada mitologia, cultura ou doutrina espiritual, como nos casos do tarot Mitológico, o Thoth e o Osho Zen, só para citar alguns exemplos bem sucedidos. Em minhas aulas eu prefiro utilizar as cartas do tarot de Marselha, um baralho que imita os antigos conjuntos medievais de tarot. Até onde sabemos o tarot não foi criado com o propósito de ser um oráculo, mas sim um jogo da nobreza europeia que acabou funcionando como um material projetivo da psique humana. A mesma despretensão mística ou oculta o isentou de interferências deste ou daquele autor! Costumo dizer aos meus alunos que ao entendermos bem o simbolismo básico do tarot de Marselha, entenderemos as intenções das intervenções dos autores de tarots modernos em seus baralhos!

As Cores

As cores falam-nos diretamente às emoções, temos sempre uma reação imediata ao visualizar uma cor que gostamos ou que detestamos. E também amamos ou detestamos uma cor sem uma razão aparente! Há pessoas que se sentem subitamente tristes com o azul, outras imediatamente irritadas como vermelho e assim por diante! Sem falar na linguagem simbólica que criamos para representar nossas emoções utilizando as cores: azul de fome, verde de inveja, vermelho de raiva, e a quem sucumbe ao medo dizemos que ele ou ela “amarelou”. Muito embora nem todas essas relações semânticas tenham consistência no significado psicológico das cores, elas simbolizam bem sua íntima relação com as emoções humanas.
No tarot de Marselha as cores que são representadas são as básicas, vermelho, azul, amarelo, verde, branco e preto. O branco aparece como um detalhe significativo no cabelo de A Imperatriz, na barba de O Imperador e O Hierofante, na água que escorre dos jarros do arcano de A Temperança e em alguns dos raios de energia dos arcanos de A Lua e de O Sol. Já o preto, apesar de aparecer mais fortemente nos arcanos maiores de A Morte, XIII e nos contornos da face de A Lua, XVIII, ele só se salienta mesmo no naipe de espadas. E essa cor, como veremos, tanto é dor e desorientação, quanto o vazio da experiência de elevação espiritual! Exatamente como o é o mergulho nos aspectos críticos desses arcanos maiores e no naipe de espadas, uma crise que traz em si a possibilidade de crescimento interior.
Vamos às cores e seus significados simbólicos:

Vermelho

Como o fogo, avança. Ação, movimento, rapidez, paixão, intensidade, destreza, agilidade e disposição física! Energia, vigor, embate, disposição para o confronto. Uma cor associada tanto à guerra quanto ao sexo e à sedução. Pode também sugerir impulsividade, pressa, impaciência e agressividade!

Azul

Como a água, infiltra-se. Calma, tranquilidade, profundidade, espiritualidade, contemplação. A ação interior, como a reflexão e a meditação. O psiquismo mediúnico, premonição, vidência etc. Os dons da alma. Memória, sonho, idealização. Por outro lado simboliza também a passividade, a preguiça, a inércia, a reclusão e ou indiferença emocional.

Verde

A cor da fertilidade, do progresso, da regeneração e da cura, tanto física quanto espiritual. Essa é a cor do encontro da verdade, por mostrar como as coisas, assim como os frutos, são no início. Por isso é também uma cor de revelação e esperança! É a cor associada aos profetas e à grandeza do mar, podendo significar soberba.

Amarelo

Luz, inspiração e intuição superior, criatividade, descontração, brilho, reconhecimento, sucesso, êxito. Por estar associada ao sol muitos reis, como os imperadores chineses, a reservavam somente para si! Sugere riqueza, felicidade, talentos, dons, beleza e posses reconhecíveis a qualquer um! É também a cor da vaidade, da ambição e da ostentação!
















O preto é a cor predominante em arcanos críticos como no caso 
de A Morte (à esq.) e o 3 de espadas (à dir.).


Branco

A paz profunda, consciência amplificada. A cor da pureza, e por isso mesmo muito ligada ao espírito e à Divindade. É uma cor de neutralidade e descanso, bem como da visão total da existência, pois do branco saem todas as outras cores. É a cor dos anciãos e da sabedoria adquirida com o tempo e livre das máculas projetivas do eu inferior.

Preto

Simboliza a ausência de luz, e por isso o desespero, o luto, a falta de perspectiva e orientação, a negatividade, o medo. Por outro lado é a cor do descanso da mente, e no Zen budismo, por exemplo, simboliza o vazio da consciência que nos leva à iluminação espiritual através da libertação da mente dos desejos, de onde nascem todos os sofrimentos!

A Posição das Imagens

Muita coisa tem sido escrita sobre as personagens dos arcanos maiores, bem como dos arcanos da corte, estarem viradas para a esquerda ou para direita e os possíveis significados disso! Uns dizem que se deve considerar sempre a perspectiva do espectador. Por exemplo, o Hierofante está virado para o seu lado esquerdo, mas para quem o olha ele está virado para a direita e este deve ser então o lado a ser considerado na interpretação! No mínimo é confuso! Além do que nunca consegui tirar disso grandes significados simbólicos, o que é claro pode ser pura limitação minha, vamos deixar bem claro! Acho infinitamente mais significativo observar que as duas únicas figuras dos arcanos maiores que encaram o expectador diretamente é a mulher em A Justiça, arcano VIII e o próprio sol no arcano de mesmo nome O Sol, XIX. Os dois simbolizam o domínio da consciência. O primeiro puramente racional, o segundo mais abrangente, envolvendo os muitos aspectos da consciência. 


















Os personagens de A Lua e O Julgamento voltam-se para os céus, 
um busca alento, o outro o encontra.

Também acho interessante que as duas únicas representações de seres que olham para o alto apareçam nos arcanos de A Lua, XVIII onde duas bestas uivam para a lua, e no arcano XX, O Julgamento onde uma família olha para as alturas atendendo à chamada de um anjo! Quer esse olhar seja uma busca pelo mais alto ou um chamamento dele, no primeiro arcano há desorientação e a invocação de sentimentos e instintos atávicos, como o medo. Já no segundo há um esclarecimento profundo, o resgate de uma nova consciência e perspectiva sobre os eventos do passado e do presente e a observação de uma relação entre eles que liberta os velhos condicionamentos da alma. Um é a estagnação, o outro a libertação!
Essas “coincidências” se repetem por todo o simbolismo dos arcanos maiores do tarot de Marselha! E muitas outras observações sobre elas ainda podem ser feitas, mesmo dentre aqueles arcanos que citei aqui!

A Viagem do Louco

Para entendermos bem os arcanos maiores e sua representação como etapas vivenciais da existência, encarar as cartas como estágios de uma viagem pela vida é de imensa ajuda! O esquema que apresento aqui e utilizo em minhas iniciações foi apresentado por Sallie Nichols em seu livro **Jung e o Tarot, de 1980. O esquema é organizado em três setenários que se dispõe de modo muito rico tanto simbólica quanto aritmeticamente. O Louco representa o próprio viajante que se coloca fora do grande esquema de 21 cartas. Ao ser colocado antes da carta de O Mago ele é o ignorante puro de coração, aquele que percebe sua falta de conhecimento e sabedoria e sai em busca delas.


O Louco, o Buscador 
dentro de cada um de nós!

Ao completar, porém, o longo trajeto arquetípico ele se vê mais uma vez fora do grande esquema. Mas agora não mais como um ignorante, mas sim um sábio iluminado que passou por tudo, e que apesar de compreender o esquema dos eventos da vida comum, não mais comunga com eles. A viagem, entretanto, nunca termina! Como o penúltimo arcano da caminhada, O Mundo, anuncia um fim e prenuncia simultaneamente um novo começo, O Louco prossegue mais instruído em seu trajeto. A busca da evolução nunca finda e continua em níveis cada vez mais elevados, pois o autoconhecimento é um caminho contínuo! E mesmo aqueles cuja evolução transcendeu os níveis da humanidade e não mais precisam do recurso reencarnatório, já que sua evolução não continua aqui na Terra, continuam em sucessivas peregrinações evolutivas em outras dimensões! A esses chamamos de muitos nomes, Mestres Ascensos, Iluminados, Avatares, são alguns deles.
Os três níveis das cartas são divididos, como já disse, em setenários que vão de O Mago ao arcano de O Carro. Do arcano de A Justiça ao arcano de A Temperança. E, finalmente, do arcano de O Diabo ao arcano de O Mundo! Muitas visões diferentes sobre esta jornada já foram publicadas e cabe a cada neófito no estudo do tarot conhecer essas muitas versões e escolher a que mais faz sentido para si dentro do seu próprio processo evolutivo pessoal. Para mim o primeiro setenário fala do processo de formação do indivíduo, o segundo das leis ou princípios que regem a vida e o terceiro do caminho da transcendência que poucos trilharão com sucesso, muito embora tenham todos a oportunidade de fazê-lo! Apresento a seguir uma síntese de cada setenário e o significado resumido de cada carta passo a passo. Antes, porém, devo advertir que aqui O Louco será visto como uma criança recém-chegada a este mundo.


A viagem de O Louco se dá pelos três setenários 
evolutivos dos arcanos maiores.


O Caminho do Indivíduo

Ainda no ventre da mãe o infante preserva a conexão com o poder criador do pai cósmico que realiza os milagres tanto naturais quanto sobrenaturais, e que para a maioria será esquecido ao longo da vida, e cujo resgate alude à volta à casa do Pai das escrituras sagradas (O Mago). Da mesma forma o acesso à sabedoria universal através da voz interior da grande mãe cósmica (A Sacerdotisa). Ao nascer a conexão com o mundo espiritual e transcendente é cortada e a mãe terrena o conecta ao corpo e ao mundo dos sentidos e do prazer físico (A Imperatriz). O pai terreno surge para apontar para o mundo concreto das realizações e das limitações, para que não se perca a vida em indolência (O Imperador). Ao crescer um pouco mais o infante vai à escolinha e receberá a partir de então uma série de iniciações que nunca mais findarão, se ele for de fato um buscador espiritual. Da alfabetização ao doutorado, das iniciações acadêmicas às iniciações espirituais, ele será iniciado nos mistérios que conduzem à realização maior, e que prosseguem a níveis cada vez mais refinados e sutis (O Hierofante). Com os colegas na escolinha, na universidade ou nas escolas de mistério, assim como na vida, o jovem aprenderá a ouvir outras visões e versões sobre a verdade, diferentes daquelas que ouviu de seus professores e Mestres e escolherá se ele se adaptará a alguma ou se seguirá a tradição (Os Amantes)! No fim, o jovem adulto se sente confiante para enfrentar o mundo. Aposta em suas formações, visão e escolhas e sai como um guerreiro pronto para a batalha do crescimento pessoal na jornada da vida (O Carro).

O Caminho das Leis

Logo O Louco, agora travestido de O Carro, aprenderá pela observação, estudo ou experiência que a vida é regida por leis ou princípios. Que vão do código penal à constituição, das leis naturais, como a lei da gravidade, às leis espirituais, como a lei do Karma (A Justiça). Aprenderá que a solidão é a regra desta existência e que ele estará sempre só em sua dor ou êxtase nas experiências mais profundas e significativas de sua vida. E que quer ele faça o bem ou o mal, ele será o maior responsável por suas ações e pagará por elas (O Eremita)! Verá também que a mudança é a lei da vida, que tudo muda sempre, mas que também tudo é cíclico! Tudo muda, mas se repete porque nada é exatamente igual, como um verão não é igual ao outro. Aprenderá também que ciclos similares que se reptem com insistência evocam a evolução da consciência (A Roda da Fortuna). Descobrirá que o poder para mudar nosso próprio destino jaz dentro de cada um de nós, mas requer força de vontade, empenho, coragem e muita energia (A Força). Porém, para que nosso ego não enlouqueça de vaidade, aprenderemos que na vida há o imponderável que nos torna impotentes! Que por mais fortes e saudáveis que sejamos, envelheceremos e morreremos. Que por mais que amemos alguém, não podemos livrá-lo da dor e do sofrimento. A entrega nesse momento é um convite para a contemplação do transcendente (O Enforcado). Outra lei irrefutável é que tudo morre, mas que a morte não é um fim, e sim uma transcendência, que como diz o nome, é um ir além das experiências e formas conhecidas até então (A Morte). E que a morte é uma das maiores conspiradoras para a abertura e a busca por objetivos de maior amplitude e significado filosófico ou espiritual (A Temperança).

O Caminho da Transcendência

Na entrada do caminho da transcendência encontramos aquele que faz de tudo para nos fazer crer que além deste mundo que vemos a vida não tem nenhum sentido! Que não há transcendência espiritual! Ele nos propõe transcendências físicas, e algumas bem biológicas tais como poder material, sexo e drogas que nos prendem ainda mais a este mundo (O Diabo). Somente uma libertação consciente das amarras do ego ilusório, que poderá ser voluntária ou resultante de uma crise de grandes proporções, nos faz despertar deste sono, ou maya como dizem os indianos (A Torre). A ruptura nos faz ver para além de nós mesmos, e pela primeira vez vislumbramos nossa comunidade humana como uma família, e esse universo como nossa casa (A Estrela). Mas logo após essa revelação o ego insufla o medo da própria destruição e pensamentos de pânico como “Vou me perder”, “Estou ficando louco”, ou “Ah, é só minha imaginação!” podem nos fazer voltar atrás e abandonar o caminho da evolução (A Lua). Ao resistirmos e atravessarmos os mares dos nossos fantasmas a consciência antes adquirida se consolida, e um imenso esclarecimento sobre nosso propósito interior advém e se reforça, trazendo clareza, êxito, força interior e foco (O Sol). Então, ao revermos nossa viagem pela vida, todos os fatos que aparentemente não possuíam conexão entre si entrelaçam-se e o sentido último de nossa existência se revela (O Julgamento). A dança cósmica se completa em nós, e um profundo sentimento de satisfação e comunhão com todas as coisas deste mundo e do universo se realiza dentro de nós com perfeição e regozijo. Saímos então da roda das encarnações (O Mundo).

Curiosidades Aritméticas

Neste arranjo das cartas dos arcanos maiores algumas reflexões podem ser feitas com os números nesta disposição. Por exemplo: Se somarmos verticalmente a primeira carta da primeira fileira (O Mago I) com a primeira carta da terceira fileira (O Diabo XV), obteremos o número 16. Observamos então que a carta que fica entre os dois arcanos é o primeiro arcano da segunda fileira (A Justiça VIII). Curioso, não? Parece haver uma sugestão simbólica aqui, algo mais ou menos assim: O grande poder da divindade interior (O Mago I) pode ser corrompido ao ponto de perverter-se completamente (O Diabo XV)! Por isso é preciso manter a crítica, a autocrítica, o bom senso e o discernimento consciente para equilibrar “os pratos da balança” (A Justiça VIII). O mesmo ocorre entre a Sacerdotisa II e a Torre XVI, cuja soma 18, encontra seu equilíbrio no arcano central O Eremita IX, e assim segue entre todas as somas verticais! 



Outra curiosidade é que as somas transversais, tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda, dão sempre no mesmo arcano. Veja isso: a soma do arcano de O Mago I, com o arcano de O Mundo XXI é igual a 22 cuja metade é 11, o arcano de A Força XI. Outra mensagem parece estar se insinuando aqui: entre descobrir o poder da divindade interior e atingir a transcendência é preciso muito empenho, coragem e disposição para debruçar-se sobre si mesmo ao confrontar a fera interior! O arcano de A Força é a metade resultante de todas as somas transversais entre os números dos outros arcanos maiores. Para conferir continue somando A Sacerdotisa II com o Julgamento XX, A Imperatriz III com O Sol XIX, O Imperador IV com A Lua XVIII... E até nas cartas da mesma fileira a que o décimo primeiro arcano pertence, como A Justiça VIII com A Temperança XIV, e até dos dois vizinhos mais próximos A Roda da Fortuna X com O Enforcado XII. Parece que a reflexão central desse simbolismo aritmético é que a confrontação com a sombra dos instintos inferiores, a besta interna, e sua integração impulsiona o despertar da luz espiritual, dos dons e talentos latentes e a evolução do indivíduo. Que se dá dentro do modo indicado pelo significado das cartas que compõem a fórmula! Estas “coincidências” provam mais uma vez que a troca feita por Waite colocando a carta de A Justiça no lugar de A Força no ponto central do quadro dos 22 arcanos maiores, não se sustenta simbolicamente. Medite sobre essas relações, tire suas conclusões e reveja-as periodicamente. Você crescerá muito em suas percepções sobre a vida e em seu próprio desenvolvimento pessoal e espiritual.

Analogias e Análises

Para finalizar quero explicar o modo como explanei o simbolismo de cada um dos arcanos maiores na análise individual.

Título Esotérico – Uma livre interpretação minha dos títulos dos arcanos como eles foram concebidos na antiga Golden Dawn, eles fornecem, a meu ver, uma pista bem significativa sobre o significado intrínseco e mais elevado das cartas.




Analogia Astrológica – A relação entre arcanos e a astrologia já foi debatida e bem criticada! Eu, porém, considero essa relação muito enriquecedora desde que fique bem claro que não deverá haver nunca uma comunhão de 100% entre os significados de um e de outro, já que são sistemas esotéricos autônomos, mas que uma relação entre eles esclarece bem a ambos os estudos. De fato um não derivou do outro, como sustentam alguns, mas por vezes repetidas eles se traduzem mutuamente de modo mágico!

Analogia Numerológica – Sou fascinado pelo conteúdo esotérico dos números e acho que eles traduzem muito bem as imagens dos arcanos. Os que se prendem a uma avaliação superficial do simbolismo numérico dirão não haver, por exemplo, uma relação provável entre o número 5 e o arcano de Hierofante. Os que defendem esta tese dizem que o 5 é o número da mudança e dos instintos sexuais enquanto o Hierofante é o arcano da tradição e da busca filosófica-espiritual da realização interior. Essa visão parcial do significado do 5, bem como de outros atributos numerológicos, tem contribuído para tornar a numerologia a mais vulgarizada e diminuída das ciências ocultas. Na verdade o cinco fala das mudanças que a alma realiza para ascender ao seu propósito existencial, e instiga a experimentação da vida através dos instintos até que a consciência sutil desperte e faça a comunhão desses instintos com a alma... E não é essa a função do grande iniciador, o Hierofante?

O Arcano – É uma descrição de todos os elementos visuais que aprecem em cada arcano para a localização do iniciante.

Significado – É uma análise da cada símbolo que surge no arcano dentro de uma perspectiva não só esotérica e ou cristã, mas também psicológica de cada figura.

Divinação – Trata-se de uma lista de prováveis significados práticos para uma leitura das cartas numa sequência de jogo, seja esta uma sequência de leitura geral como no caso da Cruz Celta ou da Mandala Astrológica, quer seja em sequências para responder perguntas objetivas como o método Péladan, por exemplo. Aprecio demais o termo “divinar”, pois resgata o sentido sagrado de ler as cartas para alguém, juntando sentidos e dando um novo significado, mais profundo e relevante, para suas vivências cotidianas.

Personagem do Cinema – A dramatização pictórica dos sentimentos humanos e suas reverberações pela vida que o cinema proporciona, expressa os arquétipos da inconsciente coletivo que por sua vez estão também, e de modo ainda mais claro e significativo, nos arcanos do tarot! Certos personagens cinematográficos expressam muito bem as qualidades arcanológicas, tanto inferiores quanto superiores, possibilitando assim que a compreensão do simbolismo do tarot penetre de modo criativo e lúdico!

Espero que apreciem, aproveitem e absorvam bem!

Namastê!

* Tarot, ou A Máquina de Imaginar. Editora Ground. São Paulo, 1989.
**Jung e o Tarot. Editora Cultrix. São Paulo, 1987

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Cartomancia no BBB 14

Entrevista concedida à UOL sobre a participação do cartomante João Almeida no BBB 14. Somente duas das minhas respostas foram publicadas, então decidi postar as outras perguntas que me foram feitas pela jornalista Bruna Nastas. O link da matéria no UOL está no fim deste artigo:


A cartomancia envolve a prática com muitos baralhos,
inclusive o baralho comum de cartas de jogar!

1- Como funciona o trabalho de cartomante?

R: A cartomancia envolve o trabalho com muitos tipos de baralho, desde os baralhos de cartas comuns até o baralho de tarot. O uso das cartas serve tanto para fins de divinação, como saber sobre os eventos futuros e a melhor ação diante deles. Bem como para o trabalho de autoconhecimento, que é o reconhecimento de padrões internos de comportamento, sua atuação dentro das vivências práticas, e o modo como podemos nos libertar de tais padrões! Tudo isso através da linguagem simbólica das cartas, que é mística e psicológica ao mesmo tempo.

2- Você acredita que é uma prática que tem crescido no Brasil?

R: Essa prática sempre existiu, mas ganhou impulso nos anos 80, atraiu uma miríade de curiosos e oportunistas. Como tudo o que mexe com a alma humana houve aqueles que entenderam o trabalho com as cartas como um meio de desenvolver a si mesmo e ajudar a outros com seu conhecimento. Por outro lado houve também os que viram nisso só uma curiosidade intelectual, um negócio momentâneo etc...

Cartomancia, uma prática tão antiga quanto 
profunda, precisa e popular. 

3- Uma pessoa sendo cartomante se torna um pouco mais sensitiva?

R: A sensitividade, a meu ver, deve ser um pré-requisito para se adentrar no conhecimento oracular e na linguagem dos símbolos. É bem verdade também que algumas se tornam mais sensíveis, mas isto não é uma regra! Há leitores que a vida toda interpretam as cartas racionalmente e, portanto, limitadamente.

4- Você acha que um participante cartomante dentro da casa pode tirar vantagem? Por quê?

R: Não vejo como! Mesmo que ele estivesse com o seu baralho de cartas a ansiedade, medo e carência que o ritmo deste tipo de programa imprime sobre os participantes é tanta, que dificilmente ele conseguiria ler as cartas para si de modo isento de expectativas, e anseios! O que definitivamente atrapalharia a interpretação dos símbolos em busca de soluções e estratégias para vencer no programa/jogo.


5- Um cartomante em um programa de reality show como o BBB pode ajudar a divulgar a “classe”?


R: Eu simplesmente odeio a definição de classe. Cartomantes não são parte do proletariado massificado do capitalismo, são ocultistas ou espiritualistas que se utilizam dos símbolos como um recurso interno de reflexão, crescimento interior e um guia para a ação exterior equilibrada! Sem falar que um cartomante no programa não representa, nem deveria representar, todos os cartomantes do Brasil! Afinal eu não o elegi para estar lá! O João Almeida está no BBB 14 por interesses da emissora e não de uma "classe", caso ela existisse!

Para ler o artigo no UOL acesse o link abaixo:


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Mago - Arcano I

Título Esotérico – O Mago do Poder (O acesso direto ao poder da divindade interior que se amplia a níveis superiores cada vez mais e mais).

Analogia Astrológica – Mercúrio (Regente de Gêmeos e Virgem) rege todas as formas de comunicação e o uso da inteligência. É a capacidade do cérebro de acumular conhecimento, catalogar, discriminar e dispor das informações quando necessário, em milésimos de segundo. Simboliza a versatilidade, a sagacidade, a capacidade de aprender, de instruir-se e instruir a outros de modo rápido e eficiente! Por ser o planeta mais próximo do Sol e o mais rápido do sistema solar, foi associado ao antigo deus grego dos comerciantes e viajantes, Hermes, que era considerado o conhecedor dos mistérios superiores e seu maior tradutor. Pois era o único capaz de entrar e sair do Olimpo e dos reinos sombrios de Hades, e que conseguira enganar o seu irmão Apolo (o Sol)! A ambivalência de suas funções o tornou uma espécie de ponte entre o mundo físico e o espiritual e entre o mundo dos deuses e dos homens, o sagrado e o profano. A Sua regência dos mistérios ocultos deu origem à palavra “hermetismo” para definir os conhecimentos tidos como profundos e esotéricos! Também diz-se que uma coisa está hermeticamente fechada quando não pode ser abordada de modo direto, ou superficial. 
Símbolo de Mercúrio.
Curiosamente há uma incrível semelhança entre a imagem do arcano de O Mago como ela aparece no tarot de Marselha, e baralhos afins, e o símbolo astrológico do planeta mercúrio. O semicírculo superior assemelha-se ao chapéu, o círculo intermediário ao movimento dos braços de O Mago, e a cruz inferior com a mesa à sua frente!


Analogia Numerológica – O 1, o número que origina todos os outros, e que simbolicamente representa a origem de tudo que há! Seu símbolo esotérico é o círculo com o ponto no meio, a consciência centrada em si, ao mesmo tempo em que criadora de tudo o que existe ao redor de si. O criador. O multiplicador. Aquele que faz as coisas acontecerem. O 1 traz em si a possibilidade de manifestar qualquer coisa, bem como de atrair e realizar tudo! Um axioma da geometria diz que “por um ponto passam infinitas retas” e assim o 1 é a origem de tudo o que existe e também é a onisciência, a onipresença e a onipotência! Na Cabala é Kether, a Coroa. A presença de Deus-Pai-Mãe, criador de todas as coisas. A luz do infinito que não pode ser apreendida e ou compreendida por ninguém que permaneça em Malkut, o plano físico dos instintos.

O Arcano – Um jovem rapaz de cabelos louros e encaracolados está em frente a uma mesa. Ele olha para o seu ombro direito, e na sua mão esquerda ele dispõe de uma espécie de pequena vara. Na sua mão direita ele segura uma moeda dourada! Ele usa um curioso chapéu de abas largas que desenham uma leminiscata, o símbolo algébrico do infinito. A parte superior do chapéu é verde. Sua roupa é multicolorida, com todas as cores primárias que são retratadas no tarot de Marselha, mas em perfeito equilíbrio e proporcionalidade! Na sua mesa há vários objetos como facas, dados, moedas, copos e uma chaleira. Estranhamente esta mesa está posicionada de tal modo que só três de suas pernas aparecem! Embaixo, entre as suas pernas, um broto viçoso de grama desponta do chão árido.

Significado – A figura do jovem homem de pé alude à disposição célere do espírito em perfeita sintonia com sua verdade interior ou com uma grande Verdade Superior. Nos baralhos franceses este arcano se chama Le Bateleur, ou prestidigitador, que designa um malabarista, acrobata ou ilusionista. Na maioria das vezes, porém, ele é chamado de The Magician. Palavra em inglês que tanto define Mago, no sentido de um grande iniciado nos mistérios, quanto mágico, um simples ilusionista. Acho que assim é mais adequado! Afinal, muitos dos que tentarem desenvolver os atributos de O Mago talvez cheguem mesmo a ser Magos. Outros, entretanto, nunca passarão de mágicos! Sua posição ereta transpassa disposição, estado de alerta, consciência. O seu gesto com os braços e mãos alude ao gesto iniciático de conexão com o mundo superior ou cósmico que reverbera em ações e consequências no plano material, simbolizados pela vareta, que lembra a varinha mágica dos magos e bruxos, e a moeda dourada que alude às riquezas da terra. Esses dois elementos, assim como os demais sobre a mesa, evocam os quatro elementos da magia. A varinha é o fogo. A moeda e os dados são a terra. A chaleira e os copos são a água e as facas o elemento ar. Arthur Edward Waite explicitou isso no seu baralho, o Rider-Waite, colocando claramente os quatro objetos da magia sobre a mesa de seu Magician! O chapéu com a forma do símbolo do infinito marca sua conexão com os planos superiores da consciência ou do espírito, ou ambos! O chapéu é verde, a cor do acesso à verdade, da fertilidade, do progresso e da regeneração. A mesa é muitas vezes referida como o plano do mundo físico, e as três pernas seriam uma referência ao tempo e seu movimento trifásico, começo, meio e fim ou passado, presente e futuro que sustentam e ordenam a realidade como a concebemos! A mensagem é clara aqui, O Mago intervém nesta realidade usando seus talentos e habilidades internas. E é isso que está representado na folha verde brotando de um solo desértico! O seu talento poderá ser elevado ao nível de genialidade, que é a máxima expressão de O Mago. Como disse Arthur Schopenhauer: “Talento é quando um atirador atinge o alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge o alvo que os outros não veem”. Este arcano detém o poder de desenvolver quaisquer habilidades dos outros vinte e um arcanos maiores por ser o uno, a grande força que origina e rege todos os outros! Porém, quando todo este talento, ou gênio, é mal dirigido nasce o embusteiro, o manipulador, mentiroso, sedutor, o ladrão. A grande mente do crime tal como nas histórias em quadrinhos.

O Mago no Osho Zen tarot.
Divinação – O Gênio brilhante. O fazedor de milagres. O prodígio! Inteligência, comunicação. O aprendizado de idiomas. Grande poder de oratória. Domínio da língua mãe, ou de muitas línguas estrangeiras (um poliglota). Versatilidade, o jogo de cintura para negociações. Expressão fluente de um talento. Realizar uma ação com grande habilidade. Execução exímia! A capacidade de fazer muitas coisas simultaneamente, ter muitos interesses ou habilidades diversificadas. Uma personalidade cujos dons e talentos atingiram notoriedade em seu meio. A capacidade de tornar-se o centro de uma atividade, de um grupo de pessoas ou da atenção de alguém! Rege as profissões que criam, relacionam, comunicam ou mesclam as coisas. Tais como jornalismo, comunicação em todas as suas formas (rádio, televisão, internet etc), publicidade, comércio, farmácia, química, pesquisa científica em todas as suas formas. Alquimia, magia. Literatura, dança, atletismo. Os conferencistas, palestrantes e ministros de igrejas com grande poder de influência por suas ideias e ou ideais expressos em palavras, também estão sob sua égide, entre outros! Espiritualmente ele simboliza a presença da divindade dentro de cada um de nós que nos permite a ascensão em todos os sentidos, ou a realizar feitos que muitas vezes nos parecem impossíveis! Negativamente é o enganador, o mentiroso, o ladrão. Aquele que se aproveita da ingenuidade ou a falta de conhecimento do outro para tirar-lhe proveito! E com relação a isso o lado sombrio de O Mago, assim como seu lado luminoso, pode se expressar em qualquer atividade humana.

Personagem do Cinema – Jesus Cristo interpretado por Robert Powell no filme Jesus de Nazaré do diretor italiano Franco Zeffirelli, de 1977. Não poderia haver personagem melhor para representar os atributos arquetípicos de O Mago no cinema do que o próprio Jesus! Se deixarmos a paixão religiosa de lado veremos certas “coincidências significativas” na história de Jesus com relação ao mundo mágico! Ele é visitado e reverenciado por três reis magos que vieram da Pérsia. Terra de Zaratustra, ou Zoroastro em grego, que denominava seus mais altos sacerdotes de magi, ou Magos. Os Magos da religião conhecida como Masdeísmo eram capazes de dominar os elementos e criar fenômenos, mas sempre de modo ético em respeito às leis da natureza, e para elevar a consciência do homem à luz da perfeição divina. Sim, eles eram monoteístas. Os reis magos eram astrólogos e vieram seguindo uma profecia de Zoroastro que viram representada num aspecto astrológico nos céus. Depois salvam a vida de Jesus quando um dos reis magos sonha com a traição que Herodes pretendia cometer matando o menino Jesus! Daí em diante toda vida de Jesus é um verdadeiro testemunho do seu poder de oratória e a capacidade de suas palavras de inspirar espiritualmente, por meio de suas parábolas, desde simples pescadores à homens bem nascidos. Dá seu primeiro sermão aos onze anos de idade! Sem falar nos seus muitos milagres como transformar água em vinho, multiplicar os pães e os peixes, andar sobre as águas e ressuscitar Lázaro!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Sacerdotisa - Arcano II


Título Esotérico – A Princesa da Estrela de Prata (A conhecedora dos mistérios do destino).

Analogia Astrológica – A Lua (Regente de Câncer), o astro que representa os ciclos da terra e da vida humana! Por sua transição do claro para o escuro, aparece/desaparece na imensidão do céu, sempre esteve associada ao mistério, ao oculto e aos ciclos misteriosos como nascer, viver e morrer análogos às suas três principais fases: crescente, cheia e minguante. Essas três lunações compunham a coroa de Ísis, deusa lunar da magia e da fertilidade, no antigo Egito. Por sua influência nas marés e nos ciclo menstrual feminino foi um astro sempre ligado aos ritos sagrados da terra, à feitiçaria, às bruxas e a tudo o que é mágico ou inexplicável. O psiquismo profundo é um dos seus atributos mais marcantes. E de fato, os cancerianos tendem a poderosos pressentimentos, e alguns chegam a ser grandes médiuns sensitivos, clarividentes e ou curadores.

Analogia Numerológica – O 2 como o número que se opõe ao mesmo tempo em que complementa a realidade apresentada pelo 1. Se o 1 é a luz da consciência e da razão, o 2 é a sombra do inconsciente que se comunica através de símbolos, intuições, ou profundas visões interiores. Se o 1 é o que se mostra e está explícito, o 2 é o que não se vê na aparência e tem de ser captado por outras vias. O 1 é objetivo e linear, o 2 é subjetivo e não linear. O 1 é ação, o 2 contemplação. O 1 afirma, impõe. O 2 questiona, duvida.  E assim por diante! Enquanto o 1 é a percepção de si mesmo e seus potenciais e talentos no mundo, o 2 é a percepção da existência do outro e suas necessidades.

O Arcano – Uma mulher sentada com um livro sobre as pernas. Ela usa uma coroa com uma tiara tripla, e um véu branco cai sobre seus ombros. Ela usa também um longo manto azul e por baixo está vestindo uma túnica vermelha. Em seu peito carrega uma cruz que parece cair sobre o livro. Atrás de si apenas insinua-se a presença de dois pilares que parecem sustentar uma espécie de véu ou cortina que oculta algo. A sua imagem ultrapassa a margem superior do quadro, a ponta da tiara se localiza logo ao lado do seu número, o II. Isso só se repete no arcano XXI, com a aureola do anjo e da águia ultrapassando o quadro.

Significado – A Sacerdotisa incorpora os aspectos espirituais e místicos do feminino. Ela incorpora os mistérios que cercaram a mulher em sua estranha conexão com os ciclos lunares e a tendência a pressentimentos, e a uma profunda conexão com os mundos interiores e imaginais! Ao contrário de A Imperatriz que incorpora os aspectos físicos do feminino, como maternidade, sedução, beleza, fertilidade etc. O livro que ela tem sobre as pernas simboliza a sabedoria registrada através dos tempos. Os livros foram durante séculos o único meio pelo qual o homem antigo registrou os conhecimentos adquiridos e os legou à posteridade! Por serem de acesso a poucos por muito tempo também, eles são igualmente o símbolo do conhecimento oculto e ou secreto. Em termos espirituais relaciona-se com os Registros Akáshicos, que são os registros armazenados misticamente nos planos superiores (no Corpo Akáshico) de tudo o que ocorre, ocorreu e ocorrerá! A coroa com a tiara tríplice pode ser uma alusão aos três reinos do humano: fisco, mental e anímico. Na simbologia católica é a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. O véu branco simboliza a pureza espiritual imaculada, a parte mais elevada do ser que não pode ser tocada por nada nesse mundo a não ser por sua própria vontade de evoluir! O fato de a ponta da coroa ultrapassar a margem superior do quadro no qual se encontra, alude ao acesso a uma consciência superior que é novamente resgatada ao fim da jornada dos arcanos maiores em O Mundo, onde o mesmo acontece com o desenho do arcano. O manto azul que a cobre denota a profundidade de sua natureza e a sua calma contemplativa. Entre o manto e a túnica vermelha há uma abertura que se parece com a entrada de uma gruta, a alguns até mencionam a entrada da vagina arquetípica da Grande Deusa-Mãe, cujos ritos eram realizados em cavernas pelos povos ancestrais! A cruz no centro do peito nos faz lembrar de nossa natureza dual, física e divina ao mesmo tempo. Ou como disse lindamente Teilhard de Chardin: “Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”. Os dois pilares atrás dela representam os pilares dos templos sagrados que refletiam as forças duais cujo atrito manifestava a vida e tudo o que há! Vida/Morte, Noite/Dia, Macho/Fêmea, Bem/Mal e assim por diante. Esse mistério que envolve essas manifestações e dos quais A Sacerdotisa é, simultaneamente, a conhecedora e a veladora é simbolizado pelo véu atrás de sua figura. Análogos aos Véus de Ísis que ocultam dos não iniciados as profundezas da sabedoria. Conhecimento este que não vem do só manancial acadêmico, mas também da contemplação interior dos mistérios.

A Sacerdotisa no Osho Zen tarot.
Divinação – A bruxa, a médium, canalizadora, a sensitiva, intuitiva, clarividente, clariaudiente. O conhecedor dos mistérios ocultos. A atitude contemplativa diante da vida, serenidade impassível. O sentimento de reconhecimento e conexão com o próprio destino ou propósito de vida. Fidelidade a si mesmo e seus princípios. A espera paciente pelo que é certo que chegará. Humildade, paciência, introspecção, profundidade de perspectiva. Espiritualidade, Sutileza, refinamento cultural ou espiritual, ou ambos! Distanciamento emocional, observação, preservação e autopreservação. Sensibilidade tanto psíquica quanto afetiva. O uso da intuição ou da guiança espiritual para obter êxito nos empreendimentos. Conexão interior com aspectos maiores da existência, tanto em nível psicológico quanto espiritual. A memória, que pode conter material de muitas vidas. Rege todas as atividades humanas que falam de observação, pesquisa, memória e sondagem profunda da vida e do homem. Tais como: história, antropologia, paleontologia, sociologia, psicologia, ocultismo, magia, oráculos e artes de cura psíquica. Com relação a isso deve-se salientar que enquanto O Hierofante rege as “técnicas” de cura que podem ser repassadas (em iniciações) aos interessados, A Sacerdotisa nos fala de habilidades únicas e intransferíveis de cura. Como nos casos dos afamados curadores Emma Kunz, Dean Kraft, Olga Worrall e João de Deus. Os talentos e dons naturais que fazem com que o indivíduo pareça ter nascido pronto, que parecem “saltar para o mundo” com pouca ou nenhuma estimulação! Simplesmente se manifestam num dado momento. Poupar, guardar (também no sentido de acumular), aguardar. A que vela de modo paciente pelo bem estar dos seus, fiel na presença. Em termos psicológicos e afetivos é a resiliência. Por esse motivo pode desempenhar na família o papel de “o amortecedor de impactos” durante as crises. O processo de somatização emocional, que leva à desarmonias físicas e doenças de todo o tipo, também estão sob a égide de seus aspectos negativos. Bem como a indiferença afetiva, a inacessibilidade social e interpessoal, a timidez exacerbada, e a frigidez sexual. E ainda a passividade, a acomodação, a covardia, e a resignação típica dos palermas e fracos.


Personagem do Cinema – As três personagens femininas centrais do filme As Brumas de Avalon (The Mists of Avalon, título original) de 2001 dirigido pelo diretor alemão Uli Edel especialmente para a televisão, Morgana (Julianna Marguiles), Igraine (Caroline Goodall) e Viviane (Anjelica Huston) representam bem as faces de A Sacerdotisa e também sua sombra. A história narra a luta dos seguidores da Deusa-Mãe para unir cristãos e pagãos através de um líder que representasse a ambos e assim confrontasse os saxões que devastavam toda a velha Bretanha! A trama é interessante, muito embora tanto o filme quanto a obra em que se baseia, escrita por Marion Zimmer Bradley, seja uma versão sob o olhar feminino da lenda do Rei Arthur que acaba distorcendo quase que totalmente esta linda história. A narrativa transforma Morgana numa boboca, e o poderoso Merlin (Interpretado por Michael P. Byrne), um sacerdote grão-druida e principal articulador de toda a lenda de Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, é reduzido a um mero coadjuvante! Sem falar que Viviane, a Senhora do Lago e grã-sacerdotisa de Avalon, o que menos faz é ficar em Avalon! Porém, a atmosfera e o enlevo místico e mágico que impregna a trama. O sentimento de propósito que guia os personagens, e o conhecimento do oculto e dos meandros do destino que se insinuam na sobrevivência do culto à Grande Deusa na figura da Virgem Maria no final, são temas bem típicos de A Sacerdotisa.

A Imperatriz - Arcano III


Título Esotérico - A Filha dos Poderosos (A herdeira dos poderes da terra e da vida).

Analogia Astrológica Vênus (regente de Touro e Libra), planeta que rege os relacionamentos humanos, bem como o amor, a beleza, as artes e a criatividade. Seu movimento de rotação é da esquerda para direita (Sentido horário) enquanto os outros corpos celestes se movimentam da direita para a esquerda (Sentido anti-horário) o que faz parecer com que ele vai de encontro aos seus irmãos celestes! É a estrela D’alva da manhã, e a estrela Vésper do entardecer. Na Babilônia era uma divindade guerreira e brutal ao amanhecer, pois era influenciada pelo sol. Ao anoitecer tornava-se uma divindade da fertilidade, do amor e dos prazeres da vida, pois que passava a receber a influência da lua! Ela aparece alternadamente no oriente e no ocidente dos dois modos, o que a fez um símbolo de morte e renascimento.

Analogia Numerológica – O 3 é o número das divindades tríplices da antiguidade, como as três deusas do destino que na mitologia nórdica eram as nórnias, ou nornes, Urd, Verdandi e Skuld. Na Grécia eram as moiras Cloto, Láquesis e Átropos, e em Roma as três Parcas. Geralmente elas se referiam às três fases da lua, crescente, cheia e minguante que por sua vez simbolizam a própria roda do tempo que rege a vida, e os destinos da humanidade. Por ser o número que une os opostos (1) masculino e (2) feminino, o três é tido como a cifra da multiplicação, da criatividade e da inovação. Já que em síntese tudo o que é novo surge da união, ou da tensão, entre os opostos!

O Arcano – Uma mulher coroada está sentada num trono cujo espaldar lembra duas asas semiabertas! Ela segura em sua mão direita um escudo que possui o emblema de uma águia que olha para o lado esquerdo (na perspectiva do próprio pássaro). Na mão esquerda ela segura o cetro encimado pelo globo com a cruz. Ela olha na mesma direção que a ave em seu escudo. Em seu ar imponente ela mantém as pernas abertas. Usa um vestido azul que lhe cai até mais ou menos nos joelhos, e por baixo, ela usa uma toga vermelha.

Significado – A mulher coroada representa a expressão máxima dos domínios femininos que se oporá, de modo complementar, a expressão máxima dos domínios masculinos de O Imperador. Ela se refere às emoções, à liberdade criativa sem compromisso com a utilização prática, mas apenas com a beleza e o deslumbramento. A ligação com os aspectos sensoriais da vida e do corpo. A natureza, as artes, a beleza, a inspiração, a comunicação, e a própria moda como uma comunicação não verbal de status social e estado de espírito. A posição de pernas abertas remonta a uma sensualidade clara, ao mesmo tempo em que nos lembra de que na antiguidade as mulheres davam à luz numa posição em que se colocavam sentadas, e que se erguiam em cordas ou vigas para dar à luz. Por isso ela encarna a maternidade e a criatividade em todas as suas expressões! A águia é uma ave de rapina e apesar de olhar para a esquerda, o lado das emoções, indica que essa Imperatriz sabe se impor quando preciso. Defende os que ama com intensidade, mas apega-se a eles tanto quanto ao seu escudo, podendo ser possessiva e muito ciumenta. Não é incomum A Imperatriz ser taxada de controladora. Ela indica o poder feminino ou mulheres que sobem ao poder imprimindo um ritmo próprio e diferente de governar. O cetro na mão esquerda assinala que seu poder preserva a família e a união com o clã ou a comunidade em que vive. As “asas” que seu trono ostenta lembram que ela é por natureza uma experimentalista, disposta a expandir horizontes e, sobretudo, relações e oportunidades de criação e desenvolvimento! Por estar sentada sua ação é relaxada, o vestido azul assinala suas expressões afetivas, mas a toga vermelha indica as paixões intensas às quais ela é capaz de viver e provocar.

A Imperatriz no Osho Zen tarot.
Divinação – A mãe e a maternidade quer seja ela biológica ou não! A musa inspiradora, as artes e o artista. A criatividade, a sensualidade, a beleza física e os cuidados com a aparência, o corpo e a saúde. Rege também as relações humanas mais aprazíveis e envolventes. Nas artes inclui sob sua influência desde as expressões mais simples como o artesanato, que se utiliza de materiais mais comuns e naturais, passando pela moda como uma forma de arte popular, indo até às artes plásticas mais requintadas como pintura e escultura. O contato com a natureza em suas expressões de beleza. A nutrição tanto física quanto afetiva e cultural. A abundância, o progresso e o franco desenvolvimento. A alegria e o prazer de viver a vida, festas e celebrações. Ama também a sua casa e as coisas que possui. Cuidar ou ser cuidado de modo amoroso, “materno”. O cuidado e a lida com a terra e seus ciclos, da jardinagem à agricultura. Aliás, o ritmo de A Imperatriz é o mesmo da terra. Aberta ao novo, mas sempre de modo prudente e autopreservado. Afetiva com todos, mas sempre segura do que sente por cada um e cada coisa individualmente! Negativamente ela seria o oposto disto tudo! A sensualidade vulgar, tipo “periguete”, perdulária, materialista, superficial, a escrava da moda e das tendências, a arrogante social. Do tipo “sabe quem sou eu?”. As mães possessivas que castram emocionalmente os filhos para os manterem sob seus cuidados, são aspectos sombrios de A Imperatriz! Também pode assinalar, em casos extremos de perversão das suas qualidades, aqueles indivíduos sem refinamento que não dão à mínima para a própria aparência, higiene e saúde.


Personagem do Cinema – Diana Sullivam, interpretada por Jill Clayburgh no filme Gente Diferente (Shy People, original em inglês) de 1987 do diretor russo Andrei Konchalovsky. Diana é uma jornalista da revista Cosmopolitan que lida de um modo moderno (na verdade quase indiferente) com o estilo de vida rebelde, e viciado, de sua filha Grace. Ela decide fazer uma reportagem sobre um ramo isolado de sua família que há décadas vive nos pântanos da Louisiana. Lá ela conhece sua prima Ruth (interpretada por Barbara Hershey), uma mulher possessiva com sua família que ignora um dos filhos que foi viver na cidade, e cultua a figura do marido morto. O encontro das duas é um verdadeiro choque cultural que transforma tanto a vida quanto a forma de maternidade dessas mulheres. A filha de Diana, Grace, distribui cocaína para os primos num dia em que a sua mãe e Ruth se ausentam. Faz sexo com um dos seus primos que vivia preso, é quase estuprada por outro. Refugia-se no pântano onde é resgatada pela mãe. Depois disso Diana e Grace voltam mais unidas para a cidade, mas com Diana mais presente e entendendo que cuidar e amar envolve também presença e rigor. Deixam Ruth que finalmente compreende que amar também é respeitar diferenças e manter certa distância da individualidade dos filhos. Um filme primoroso onde os aspectos sombrios e luminosos de A Imperatriz são reconhecíveis num e noutro lado das personagens centrais no desenrolar da trama.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Equívocos Simbólicos?


“O próprio do simbolismo é sugerir indefinidamente; cada um verá o que o seu olhar permita perceber”
Oswald Wirth

Esta semana deparei-me com um interessante texto de Giancarlo Kind Schmid no Clube do Tarot Intitulado Equívocos Simbólicos que se por um lado me fascinou devido a sua precisão histórica de pesquisa, por outro me fez perguntar se nós que estudamos os arcanos não temos que decidir em dado momento se somos afinal racionalistas ou simbolistas! 
Imagem de um feirante de alho.
O autor apresenta uma série de imagens de arcanos onde discute suas representações sob uma ótica mais precisa. No arcano de O Mago, por exemplo, ele afirma que as mãos do mago não são exatamente um gesto mágico, mas um movimento que os antigos ilusionistas medievais faziam para distrair o público em seus truques, ou que sua mesa não possuía de fato três pernas, mas que se trata de uma bancada longa onde outros feirantes mostravam seus produtos! Ok, bem interessante! Gostaria, porém, de apresentar outra perspectiva a este fato. Um símbolo não possui valor pelo que ele de fato é, mas sim pelo que aparenta ser, ou seja, pelo que ele nos sugere! A simbologia em si sugere indefinidamente, e estas sugestões é que tornam as cartas do tarot passíveis de tantos desdobramentos em seus significados. Os gestos do mago feirante e prestidigitador nos remete ao gesto mágico invocativo dos verdadeiros magos dos mistérios ocultos! E isso influenciou os maiores cânones da tarologia como A. E. Waite, Aleister Crowley, Paul Foster Case etc na interpretação deste arcano... Waite chegou a desenhar os quatro objetos mágicos dos elementos sobre a mesa do Mago! Eles se equivocaram? Não! Apenas se utilizaram da liberdade imaginativa e interpretativa que o símbolo oferece, e é assim que tem de ser! Um mesmo símbolo pode ser visto por muitos ângulos, o que só amplia seu significado tornando-o muitas vezes mais profundo e preciso.
O Mago, no Rider-Waite tarot.
Também não imagino que alguém possa ter pensado que exista de fato uma mesa de três pernas que ampare uma bancada de quadro lados. O que me parece é que se a versão do baralho de Marselha que mais se popularizou mostra apenas três pernas numa mesa do arcano, que sugere manifestação e talento, poderia haver uma alusão aos quatro elementos e os três tempos. O que de modo algum deforma o simbolismo e o significado do arcano, não concordam? Todas as possíveis sugestões que uma imagem pode propor só aumentam a perspectiva do arcano, e isso é bom! Caso contrário, se o vermos apenas como uma imagem de um ilusionista medieval, isso limitará sua expressão arquetípica que nunca englobará o significado de um verdadeiro iniciado nos mistérios ocultos. E que benefício isso traria para o estudo e a leitura do tarot? 
O Louco no tarot de Charles VI.
Na carta de O Louco ele revela que se trata de um cidadão vestido para o Folli, o carnaval medieval italiano que levava em sua sacola moedas e guizos para provocar os transeuntes e atiçar os cães. Isso, no entanto não me parece invalidar de modo algum que a imagem deste cidadão carnavalesco nos remete ao bobo da corte, capaz de confrontar com ironia a figura do rei, sendo assim um símbolo da liberdade e da ousadia! Nem o fato de os cães serem um dos primeiros animais domesticados pelo homem, e por isso os representantes da mente condicionada. Qualquer adestrador de cães sabe que eles não gostam de desordem na matilha ou na sua rotina, por isso ladram para tudo. Imagino que se hoje essa brincadeira ainda existisse os cães ladrariam para manter sua ordem, mesmo que presos a uma coleira, diante desses arruaceiros livres em seus instintos! Porque não relacionar esse encontro? Isso não parece uma casualidade cheia de significados?
O fogo, a representação mais comum
da presença do sagrado entre os povos antigos.
Um simbolista é alguém que olha para uma imagem e vê seu valor intrínseco. Um racionalista verá na imagem apenas o que ela apresenta. Em suas memórias Jung conta que uma de suas brincadeiras favoritas de infância era a de acender uma fogueira numa velha construção abandonada no interior da Suiça, onde vivia. A brincadeira consistia em nunca deixar que a chama se apagasse. Ele relata que isso o absorvia de modo tão fascinante que o tempo parecia não existir. Mais tarde quando descobriu em suas pesquisas que essa era a função de antigos xamãs e sacerdotisas em relação ao fogo sagrado, ele logo relacionou à memória de sua brincadeira infantil. Para quem vê as correlações simbólicas possíveis isso é fascinante! Essa é a visão de um simbolista. Um racionalista com certeza diria: "Ora, era só um menino solitário brincando com fogo!", e ele estaria certo, mas ainda assim isso não invalidaria a perspectiva simbólica interior do simbolista!
Agradeço ao Giancarlo pela rica pesquisa que nos apresentou, mas sugiro aos que estão lendo este artigo, e que se interessam no estudo da tarologia, que leiam, reflitam e relacionem os simbolismo das cartas do tarot no mundo simbólico o máximo possível! Sempre cuidando, é claro, para não distorcer os significados simbólicos “criando” visões particulares dos arcanos. Quando feito com cuidado, consciência e foco essa correspondência simbólica passa a ser uma experiência culturalmente enriquecedora, intelectualmente instigante e espiritualmente inspiradora, e mágica mesmo!